Leonor Cipriano não sabe quando nem quem a agrediu

O início do julgamento dos cinco inspectores da Polícia Judiciária, acusados de alegadas agressões à mãe da menina desaparecida em Setembro de 2004 no Algarve, ficou marcado pelo silêncio dos arguidos e pelas declarações de Leonor Cipriano.

RTP /
Leonor Cipriano foi ouvida esta manhã no Tribunal de Faro. RTP

O início do julgamento dos inspectores da Polícia Judiciária, esta manhã em Faro, ficou marcado pelas declarações de Leonor Cipriano, mãe da menina desaparecida em Setembro de 2004 na aldeia de Figueira, no Algarve, ao referir que não fez mal à sua filha ao mesmo tempo que confirmou as alegadas agressões de que foi alvo.

O julgamento desta manhã começou com o advogado de quatro dos cinco inspectores, António Pragal Colaço, a colocar em causa as agressões a Leonor Cipriano apresentando provas de que esta confessou a 13 de Outubro de 2004 ter morto a filha e apenas foi agredida no dia 14.

Para a defesa esta é uma situação que não faz sentido já que a acusação diz que as agressões foram feitas para esta confessar o crime, mas desta forma as agressões teriam sido feitas já depois desta ter confessado.

O início do julgamento ficou igualmente marcado pelo silêncio dos cinco arguidos, que remeteram declarações para mais tarde, e pelas declarações de Leonor Cipriano.

Leonor Cipriano referiu que não fez mal à filha e sabe isso como mãe e que está a pagar por uma coisa que não fez, o que lhe custa muito. Acrescentou ainda que se alguém fez mal à filha deve pagar por isso.

Relativamente às agressões, Leonor Cipriano confirmou que foi agredida violentamente com socos e pontapés. Foi agredida ainda com canudos de cartão na cabeça, com uma lista telefónica e que a obrigaram a ajoelhar-se em cima de dois cinzeiros de vidro, além de lhe terem enfiado na cabeça um saco azul de asas.

Só que em relação às alegadas agressões não sabe se estas foram feitas antes ou depois de ter confessado ter morto a filha. Também não sabe dizer quando aconteceram as mesmas agressões nem quem as praticou.

De tarde irá prosseguir o interrogatório a Leonor Cipriano com as questões a serem colocadas pelos advogados da Polícia Judiciária.

Recorde-se que três inspectores são acusados de crime de tortura, um de não ter prestado auxílio e de omissão de denúncia, e o quinto de falsificação de documento.

O caso do desaparecimento de Joana na aldeia de Figueira, no Algarve, remonta a 12 de Setembro de 2004, tendo no ano seguinte a mãe e o tio da menina sido condenados por homicídio qualificado.

O caso voltou hoje a Tribunal depois de Leonor Cipriano ter acusado os inspectores de a terem agredido para conseguirem uma confissão numa das ocasiões em que, estando presa preventivamente, foi inquirida nas instalações na Directoria de Faro.

Segundo refere a acusação as agressões terão acontecido em Outubro de 2004, tendo Leonor Cipriano regressado à cadeia de Odemira com hematomas visíveis no rosto.

Três dos arguidos no processo são Pereira Cristóvão, que esteve ligado à captura dos "gangs" da CREL e Multibanco II e que escreveu o livro "A Estrela de Joana", Leonel Marques, que investigou casos de terrorismo como as FP25 e Brigadas Revolucionárias, e Paulo Marques Bom, um dos principais investigadores do "caso Passerelle".

O quarto inspector, Nunes Cardoso, trabalhava no combate ao banditismo em Lisboa, quando foi destacado para o "caso Joana".

O quinto arguido é Gonçalo Amaral, ex-coordenador do Departamento de Investigação Criminal da PJ de Portimão e que liderou inicialmente a investigação ao desaparecimento em Maio de 2007 de uma outra criança, Madeleine McCann, no Algarve.

Entretanto, na passada sexta-feira foi divulgada a informação de que o registo das entradas e saídas na Directoria de Faro da Polícia Judiciária, revela que os três inspectores acusados de tortura a Leonor Cipriano, não estavam dentro do edifício no período em que a mãe de Joana diz ter sido espancada.

Uma informação que acaba por confirmar a acusação aos cinco inspectores de que estes não terão sido os autores das agressões, mas sim os mandantes de terceiros que, esses sim, terão praticado as alegadas agressões.
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