Marcha pela marijuana com 500 a mil participantes em Lisboa
A manifestação mundial realizada no sábado em 200 cidades a defender a legalização de todas as utilizações da cannabis reuniu em Lisboa 500 apoiantes, segundo fonte da PSP, ou mil, na opinião da organização do evento.
A Marcha Global da Marijuana, uma manifestação que este ano também se efectuou no Porto, em Lisboa começou nas Amoreiras, passou pelo Largo do Rato e pelo Príncipe Real, para chegar ao Largo Luis de Camões, no Chiado, sempre acompanhada por agentes da PSP.
Nuno Pombeiro, da organização da marcha em Lisboa, em coordenação com o Movimento internacional, explicou aos jornalistas que o objectivo da iniciativa é "repor a verdade sobre a cannabis" e partir para a sua legalização.
Após o que considerou "o sucesso" desta manifestação, que "conseguiu juntar mais de mil participantes, depois dos 200 de 2006", Nuno Pombeiro salienta que a intenção é criar uma associação de consumidores de cannabis e desenvolver várias iniciativas ao longo do próximo ano para esclarecer "a verdade acerca do seu consumo".
"As pessoas querem mudar as coisas e estão a organizar-se para acabar com o tabu político", referiu o porta-voz da Marcha, acrescentando que todos os deputados portugueses de todos os partidos políticos, tanto da Assembleia da República, como do Parlamento Europeu, foram convidados a subscrever o manifesto do movimento. A Comissão Organizadora da Marcha Global da Marijuana em Lisboa (COM.MARIA) defende também a importância de uma maior investigação quanto às utilizações benéficas da planta.
A COM.MARIA quer a "legalização da cannabis e das suas utilizações", bem como regulamentar "modos de obtenção da cannabis" e "encorajar o estudo e a pesquisa das muitas utilizações benéficas da planta Cannabis Sativa L.".
"Os pressupostos em que se baseia a lei portuguesa de proibição da cannabis, com 36 anos, é um conjunto de mentiras, como dizer que quem fuma a substância fica toxicodependente, que passa logo para outras drogas ou que se torna traficante", realça Nuno Pombeiro para justificar a necessidade de alterar as regras em vigor.
Na opinião de Nuno Pombeiro, "a proibição não trouxe vantagens nenhumas, há mais consumo, mais tráfico e mais dinheiro envolvido, e também mais apreensões".
Questionado pelos jornalistas acerca das consequências do consumo da cannabis, Nuno Pombeiro admitiu que "não é inócuo", mas tal como não o é o consumo de qualquer substância se for em excesso, até o sal ou o doce, mas "tudo depende do seu uso, por isso é importante informar as pessoas".
A maior parte dos manifestantes eram jovens que acompanhavam a música sempre presente ao longo do percurso com expressões em defesa da liberalização da cannabis e da ausência de malefícios no seu consumo.
O número de participantes na manifestação não reuniu consenso entre a PSP e a organização.
Enquanto uma fonte da PSP no Largo Luís de Camões avançava à agência Lusa uma estimativa de 500 manifestantes, a organização era mais optimista e Nuno Pombeiro assegurava que se tinha atingido mais de um milhar de apoiantes.
De forma ordeira, seguindo as indicações dos agentes da PSP, e com alguma irreverência, os manifestantes seguiram pelas ruas de Lisboa, dificultando o fluir do trânsito, a cantar slogans e a segurar cartazes onde se podiam ler mensagens como "Diz não ao sabão", "Maria Alegria", "Proibição Mata", "É ilegal porquê?" ou "Proibição não é solução".
Entre os manifestantes que se reuniram em Lisboa, estavam alguns participantes de outras regiões a sul do Porto, como de Coimbra e do Algarve, segundo Nuno Pombeiro.
As pessoas que passavam pelas ruas da manifestação e eram surpreendidas pelo grupo e pela sua exigência apresentavam opiniões divididas entre ao apoio à legalização, com mais adeptos entre os abordados pela agência Lusa, e a manutenção da situação actual.
Maria José, de 66 anos diz ser contra a liberalização do consumo de cannabis porque "leva ao vício e dai vêm os problemas tornando a vida mais difícil" aos jovens, que "até são simpáticos quando estão bem", referindo-se aos manifestantes.
No mesmo sentido vai o comentário de Maria Lucília Silva, de 74 anos, para quem "a legalização só iria aumentar a confusão que os drogados já fazem", e de João, de 49 anos, que baseou a sua opinião no exemplo da Holanda onde o consumo é liberalizado, mas "não resultou", defendendo, sim, a protecção dos jovens portugueses de situações de risco como "as saídas à noite quando ainda são muito novos".
Um grupo de seis Guias da Europa (Escuteiras), com idades entre 13 e 16 anos, "apanhadas" pela manifestação foram unânimes em dizer ser contra a liberalização da cannabis "porque não é necessário e o seu consumo até tem efeitos nefastos". Em sentido contrário, Carlos Nunes, de 36 anos, transmitiu à agência Lusa, a defesa da necessidade de liberalização da cannabis porque é a favor da "liberdade total".
Para Carlos Nunes a solução passa por regulamentar e controlar os custos de produção, distribuição, comércio e venda das drogas, tornando um negócio como outro qualquer, com o respectivo pagamento de impostos.
Mas, os intervenientes no negócio teriam "a obrigação de dar um contributo directo para a criação de um sistema de saúde com terapêuticas de desabituação, com apoio psicológico, e residências para aqueles com passado comprovadamente toxicodependente", defendeu.