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Mau tempo. Situação no Douro preocupa as autoridades, barragens estão no limite
A Proteção Civil registou mais de 8.500 ocorrências em todo o país desde quarta-feira devido à depressão Elsa. Há a registar duas vítimas mortais e ainda um desaparecido. Cerca de 80 pessoas ficaram desalojadas na sequência do mau tempo. A situação mais preocupante ao final de noite de sexta-feira registava-se na bacia do Douro, onde se espera que o nível das águas continue a subir. Na RTP3, a secretária de Estado da Administração Interna, Patrícia Gaspar, disse na sexta-feira que será necessário esperar pelo fim da fase de resposta operacional para uma eventual ajuda financeira aos prejuízos.
A situação no rio Douro, em concreto na Régua, Porto e Gaia, poderá complicar-se nas próximas horas. José Cruz Martins, comandante da Capitania do Douro, esclarecia ao início da noite, em declarações aos jornalistas, que o nível da água deverá continuar a subir devido a uma "saturação de água em toda a bacia do Douro".
"As condições meteorológicas estão bastante adversas e não há segurança. A condição base para esta operação ter continuidade é a condição permanente de segurança de todos os operacionais", frisou o comandante distrital, Miguel Ângelo David.
Durante o dia de sexta-feira, as autoridades decidiram evacuar o lugar de Frades, em Arcos de Valdevez, por “prevenção e salvaguarda da comunidade” devido ao perigo de deslizamento de terras.
"São mais de 200 quilómetros de rio que tem diversas barragens, barragens essas que estão praticamente na sua capacidade máxima. Está a ser feita uma gestão de descarga dessas barragens de forma a não causar situações demasiado graves em vários sítios", explicou.
O comandante estimava ainda que o nível da água deverá subir "o suficiente para invadir zonas onde até agora a água ainda não tinha chegado", o que explica o alerta vermelho implementado durante a tarde desta sexta-feira.
A barragem de Crestuma, que é a mais próxima da foz do Douro, está "no limite" e tem de fazer descargas, o que vai agravar a subida da água.
"É um efeito de dominó ao longo de 14 barragens em toda esta região. Está a ser feita a gestão possível para causar o menor número de danos possível", disse o comandante.
"A necessidade de descargas das albufeiras vai ser agravada, na foz do Douro, pela maré cheia que vamos ter às 22h30. Depois é previsível, no início da madrugada, que a água baixe, mas é uma situação que vai continuar nos próximos dias, pois irá manter-se a necessidade de haver descargas", disse o capitão Cruz Martins ao início da noite.
Trabalhador continua desaparecido
Nos últimos dois dias, desde quarta-feira, a depressão Elsa fez duas vítimas mortais em Portugal. Em Espanha, cujo território também está a ser afetado pelo mau tempo, a depressão Elsa já fez três vítimas mortais.
No território nacional há ainda registo de uma pessoa continua desaparecida, em Castro Daire. no distrito de Viseu, onde ocorreu um aluimento de terras cerca das 21h30 de quinta-feira.
Durante a tarde, a Proteção Civil confirmou aos jornalistas que iria interromper os trabalhos de busca em até às 8h00 de sábado.
A Proteção Civil confirmou ainda que o terreno continua "instável", havendo mesmo risco de novas derrocadas.
"Enquanto houver esta instabilidade não podemos colocar os mergulhadores dentro de água, até que se reduzam os caudais do rio e as correntes", acrescentou.
O comandante confirmou ainda que a família do trabalhador desaparecido está a receber apoio psicológico e informação constante sobre a evolução da situação no terreno.
Descarrilamento no distrito da Guarda
No total, a Proteção Civil já registou um total de 8.500 ocorrências devido ao mau tempo desde quarta-feira. Cerca de 80 pessoas encontram-se desalojadas.
Das inúmeras inundações e os vários constrangimentos em todo o país, destaque ainda para o descarrilamento de um comboio Intercidades na zona de Forno de Algodres, no distrito da Guarda, entre as estações de Fornos e Gouveia.
O incidente aconteceu perto das 20h00 de sexta-feira e não provocou vítimas, mas os “cerca de 50 a 70 passageiros foram retirados das carruagens com a ajuda dos bombeiros.
De acordo com a Infraestruturas de Portugal (IP), citada pela agência Lusa, o comboio embateu numa pedra e descarrilou um 'bogie' (equipamento que suporta a instalação dos rodados, eixos e suspensão) da locomotiva.
Fabien no sábado, desagravamento no domingo
Em declarações à RTP3, a secretária de Estado da Administração Interna, Patrícia Gaspar, explicou esta sexta-feira que o dia de sábado ainda será de monitorização e de resposta operacional.
"Espera-se que finalmente, no próximo domingo, possa haver um desagravamento mais substancial, uma inversão do cenário meteorológico que se tem feito sentir nas últimas 24 a 48 horas", disse a responsável.
Segundo o IPMA, os efeitos da depressão Fabien não deverão ter em Portugal continental a mesma intensidade do que os da tempestade Elsa, prevendo-se uma melhoria gradual do estado do tempo a partir de domingo.
A depressão Fabien vai atingir Portugal no sábado estando previstos intensos períodos de chuva e vento forte sobretudo nas zonas Norte e Centro.
Sobre a possibilidade de prestar apoio financeiro após os prejuízos, Patrícia Gaspar diz que será necessário "esperar pelo fim do socorro, na fase de resposta operacional".
"Haverá um momento de avaliação dos danos e de todo o impacto que esta situação terá seguramente causado", frisou.
Em relação à situação em Águeda, onde a autarquia diz ter sido surpreendida pela subida do nível das águas, a secretária de Estado salienta que os níveis de precipitação foram "muito elevados".
"Não sendo um fenómeno completamente atípico nesta altura do ano, foi um fenómeno com alguma gravidade", disse Patrícia Gaspar.
"Ao nível da Proteção Civil, que é tutelada pelo Ministério da Administração Interna, desde dia 18 que os avisos têm vindo a ser feitos" acrescentou a responsável, frisando que as barragens são coordenadas pela Agência Portuguesa do Ambiente, que estão sob a alçada de outro Ministério.
Garante, no entanto, que "o trabalho de monitorização está a ser feito" e há "uma comunicação entre esta agência e as entidades que gerem estas barragens".
No caso que se verifica por estes dias em Portugal, o fenómeno de mau tempo com "a junção das duas depressões" fez com que aumentasse o "impacto". Por isso, Patrícia Gaspar pede aos portugueses que mantenham uma "atitude vigilante".
“É fundamental que todos os portugueses adaptem os seus comportamentos, sigam as indicações das autoridades. Infringir regras pode trazer consequências muito negativas para quem o faz e para quem socorre", afirmou na RTP3.
Também o ministro da Administração Interna tinha alertado ao início da noite para os cuidados a ter na estrada. Eduardo Cabrita acompanhou em Alverca o início da operação de Natal da GNR.
Em declarações à RTP, o ministro salientou a existência de "condições atmosféricas muito difíceis".
Essas condições exigem ainda mais uma condução "muito defensiva, no respeito estrito pelas instruções dadas a cada momento pelas forças de segurança".
Eduardo Cabrita apela ao planeamento das viagens e ao respeito pelos limites de velocidade, bem como não utilizar telemóveis e outros dispositivos durante a condução.