Morreu Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do 25 de Abril

por Carlos Santos Neves - RTP
André Kosters - Lusa

Otelo Saraiva de Carvalho, coronel de artilharia, morreu este domingo aos 84 anos. Foi responsável pelo plano de operações militares do 25 de Abril de 1974.

A morte de Otelo Saraiva de Carvalho, no Hospital Militar, foi confirmada à RTP por Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril.

Figura carismática do Movimento das Forças Armadas e da Revolução de 1974, Otelo Saraiva de Carvalho encabeçou o sector operacional da Comissão Coordenadora e Executiva do Movimento dos Capitães. Foi autor do plano de operações do 25 de Abril, golpe que derrubou Marcelo Caetano e o que sobejava do regime do Estado Novo.

A partir do posto da Pontinha, no Regimento de Engenharia n.º 1, dirigiu com outros militares as operações daquele dia. Ali esteve desde o anoitecer de 24 de abril até ao dia 26.Otelo Saraiva de Carvalho era reconhecido como um militar particularmente vocacionado para a tática de artilharia.


Após a Revolução, foi nomeado comandante da Região Militar de Lisboa e do COPCON. Integrou o Conselho dos 20 e o Conselho da Revolução.

Foi candidato às presidenciais de 1976.

Na década de 1980, esteve na luta armada como membro da organização Forças Populares 25 de Abril. Em 1986 seria condenado a 15 anos de prisão por associação terrorista. Em 1991, recebeu um indulto. Os crimes foram amnistiados em 2004.

Otelo Saraiva de Carvalho nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, a capital de Moçambique, a 31 de agosto de 1936. Foi mobilizado para Angola em 1961, como capitão de artilharia, e lá permaneceu em comissão de serviço até 1963.

Entrevistado há cerca de sete anos na Antena 2, Otelo reconhecia a marca deixada na História de Portugal.
Antena 1
“Figura maior do que a vida”

Conhecida a notícia da morte de Otelo Saraiva de Carvalho, o jornalista da RTP Jacinto Godinho relembrou o estratega da Revolução de 1974 como um “figura maior do que a vida”.
“Apesar dos conflitos e de algumas divergências, continua a ser uma figura de grande afeto”, assinalou.

Por sua vez, o jornalista Adelino Gomes recordou Otelo como um nome que fica para a História de Portugal.
“Era a figura para onde todos olhávamos naqueles primeiros meses”, evocou o jornalista, recuando aos dias da Revolução de 1974.
“Conheci o Otelo ainda nos tempos da Escola do Exército”, lembrou, por seu turno, o general Garcia dos Santos, que evocou igualmente a própria participação na Revolução dos Cravos, no domínio das comunicações.

Questionada, na RTP3, sobre o legado de Otelo Saraiva de Carvalho, a historiadora Irene Flunser Pimentel afirmou que o estratega do 25 de Abril deixa "a maior das marcas do século XX português, que foi o derrube da ditadura".
Paulo Moura, jornalista e autor da biografia de Otelo Saraiva de Carvalho, falou do "contacto muito próximo" que manteve com o estratega do 25 de Abril.
O autor de Otelo, o Revolucionário salientou as "qualidades humanas".

Isabel do Carmo recordou Otelo Saraiva de Carvalho como "o herói do 25 de Abril".
"Foi o homem que planeou e dirigiu as operações do movimento militar e eu digo movimento porque não foi um golpe militar, foi um movimento que veio de baixo", assinalou a médica e antiga dirigente do Partido Revolucionário do Proletariado, movimento que operou clandestinamente por meio das Brigadas Revolucionárias.
"É ainda cedo para a História o apreciar com a devida distância"
No portal da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa apresenta condolências "à família e à Associação 25 de Abril".

"Um dos mais ativos capitães de abril, exerceu funções muito relevantes durante a revolução e candidatou-se à Presidência da República em 1976. Afastado do poder na sequência do 25 de novembro de 1975, viria a ser considerado, pela Justiça, envolvido nas FP25, condenado e amnistiado", lê-se na nota do Presidente da República.

"É ainda cedo para a História o apreciar com a devida distância. No entanto, parece inquestionável a importância capital que teve no 25 de abril, o símbolo que constituiu de uma linha político-militar durante a revolução, que fica na memória de muitos portugueses associado a lances controversos no inicio da nossa Democracia, e que suscitou paixões, tal como rejeições", lê-se no mesmo comunicado.
"Maior símbolo individual do MFA"
O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, homenageia Otelo Saraiva de Carvalho, "o maior símbolo individual do Movimento das Forças Armadas", que concretizou o sonho de todos os que "ansiavam por viver em liberdade".

"Apesar dos excessos que se possam apontar, nomeadamente no período pós 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho foi, e será sempre considerado, o maior símbolo individual do Movimento das Forças Armadas", pode ler-se numa mensagem de pesar do presidente da Assembleia da República, citada pela agência Lusa.

"Por todos os democratas, que ansiavam por viver em liberdade e em democracia, Otelo Saraiva de Carvalho concretizou esse sonho".

"No momento do seu desaparecimento, e pelo seu decisivo contributo, é justo render-lhe a mais sentida homenagem", enaltece.
"O que hoje somos"
O Governo veio também lamentar a morte de Otelo Saraiva de Carvalho, endereçando "as mais sentidas condolências à sua família, assim como à Associação 25 de Abril".

"Otelo Saraiva de Carvalho foi o coordenador operacional da ação militar do Movimento das Forças Armadas, que, no dia 25 de abril de 1974, derrubou o regime do Estado Novo, pondo fim à mais longa ditadura do século XX na Europa e abrindo caminho à democracia", destaca o Executivo.

"A capacidade estratégica e operacional de Otelo Saraiva de Carvalho e a sua dedicação e generosidade foram decisivas para o sucesso, sem derramamento de sangue, da Revolução dos Cravos. Tornou-se, por isso, e a justo título, um dos seus símbolos. Neste dia de tristeza honramos a memória de Otelo, como um daqueles a que todos devemos a libertação consumada no 25 de Abril e, portanto, o que hoje somos".
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