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"Não gostei do que vi". Seguro quebra silêncio sobre resposta a manifestações e insta ao diálogo
O presidente da República quebrou o silêncio e disse que tem estado desde sábado a acompanhar os ecos das manifestações em Lisboa e no Porto.
O Presidente da República, António José Seguro, condenou esta terça-feira as imagens das manifestações do fim de semana, sobretudo em Lisboa, e exigiu ao Governo, ao Parlamento e aos partidos políticos que deixem de se responsabilizar mutuamente e encontrem soluções concretas para a crise da habitação.
"Acabem com o passa-culpas. Todos têm responsabilidades", afirmou, numa intervenção marcada por críticas à falta de diálogo político.
Depois de cerca de uma semana sem se pronunciar publicamente sobre o assunto, o chefe de Estado foi direto na avaliação dos acontecimentos.
"Não gostei das imagens que vi, sobretudo as de sábado, em Lisboa", declarou, acrescentando que, desde domingo de manhã, tem acompanhado a situação com preocupação e solicitado informações às entidades competentes.
Para António José Seguro, as imagens divulgadas não são compatíveis com aquilo que se espera de uma democracia consolidada. "A lei e a liberdade não são incompatíveis", sublinhou, defendendo que "a cultura portuguesa é uma cultura de diálogo, não é uma cultura de violência e de confronto".
O Presidente insistiu que o diálogo tem de prevalecer e questionou a incapacidade dos responsáveis políticos para chegarem a entendimentos. "Já não sei o que verdadeiramente estão a discutir", afirmou, responsabilizando quem não está disponível para dialogar. "Eu estou e incentivo!"
António José Seguro revelou que o tema das manifestações esteve em cima da mesa na reunião que manteve na segunda-feira com o primeiro-ministro, Luís Montenegro.
O Presidente da Repúblcia recordou também que, na semana passada, apelou ao entendimento entre os partidos e o Governo, mas voltou a questionar a falta de resultados: "Porque é que não há diálogo? Se há propostas para resolver o problema, porque é que as partes não se entendem?"
"Uma geração bloqueada" por causa da habitação
A crise da habitação foi um dos pontos centrais da intervenção.
O Presidente da República exigiu aos partidos que assumam a responsabilidade de encontrar respostas concretas para o acesso à habitação, em particular por parte dos jovens.
"Custa alguma coisa aos atores políticos, ao Parlamento e ao Governo sentarem-se e encontrarem soluções para esse problema?", questionou, defendendo que a urgência da situação exige mais do que declarações públicas.
António José Seguro considerou "inaceitável" que a idade média de saída dos jovens de casa dos pais seja de 30 anos. "Ter uma casa faz parte de um projeto de vida, não é apenas ter um teto", afirmou, alertando para a situação de uma geração que continua a enfrentar obstáculos para conquistar autonomia.
O chefe de Estado lembrou que, desde que tomou posse, há oito meses, tem insistido na necessidade de resolver o problema da habitação.
Defendeu que a resposta àquilo que descreveu como uma "geração bloqueada" deve traduzir-se em medidas concretas, e não apenas em discursos políticos.
Nesse sentido, anunciou que convocou os partidos para uma reunião na próxima quinta-feira, reuniu o Conselho de Estado e tem previsto um encontro com especialistas em habitação.
"Tenho estado ativo, tenho estado vigilante e continuarei vigilante na garantia do Estado de direito democrático do nosso país", assegurou.
Seguro aguarda resultados dos inquéritos
Questionado sobre a atuação das autoridades durante as manifestações, António José Seguro recusou antecipar conclusões enquanto estiverem em curso os inquéritos destinados a apurar os acontecimentos.
O Presidente defendeu que é necessário esclarecer se houve algum desvio em relação ao Estado de direito, sublinhando que respeita os procedimentos em curso e que aguardará os respetivos resultados. Ainda assim, manifestou a expectativa de que as averiguações sejam céleres, para evitar que se prolonguem sem conclusões.
A lei das manifestações, em vigor desde 1974, poderá também ser objeto de debate parlamentar, admitiu, sem defender uma alteração legislativa imediata.
Na intervenção, António José Seguro voltou a insistir na responsabilidade dos diferentes órgãos políticos e na necessidade de encontrar respostas para os problemas que afetam os cidadãos. A mensagem final foi dirigida a todos os intervenientes: "Acabei com o passa-culpas. Todos têm responsabilidades".