Navio-escola Sagres. Diário de Bordo 18 de janeiro

por António Louçã (jornalista) e Rui Manuel Silva (repórter de imagem) - RTP

António Louçã (jornalista) e Rui Manuel Silva (repórter de imagem) - RTP

O navio-escola Sagres está a cumprir desde o início de janeiro a viagem de circum-navegação, com partida em Lisboa. O percurso ocupará 371 dias. A bordo, durante parte da rota, seguem o jornalista António Louçã e o repórter de imagem Rui Silva.

Sábado, 18 de Janeiro – Às 8h30 houve faina geral de mastro. Primeiro, retirou-se parte dos lanudos - aquelas protecções feitas de nylon desfiado, com ar de desperdício de oficina, que impedem as cordas de danificar as velas. Entretanto, carregava-se o pano no mastro grande e no traquete, para finalmente subirem os marinheiros de manobra a ferrar o pano.
Competiram, como é habitual, as equipas do mastro grande e do traquete, a ver quem descia primeiro com a faina concluída. Desceu a equipa do traquete, mas acabou desclassificada e alvo de chacota dos adversários, por ter deixado solta uma das correias que devem atar o pano à verga. Teve de subir novamente um dos seus membros para emendar o erro.

A competição pode causar pressas e as pressas podem gerar imprudência. Por isso mesmo existem veteranos da marinharia de manobra, como o nosso entrevistado de ontem, cabo Jorge Lopes, que mantêm uma pressão ininterrupta sobre os jovens pela observância rigorosa das regras de segurança.

Entretanto, voltámos a ser impelidos pelo motor. O balançar mais suave da navegação à vela foi substituído pelas oscilações mais bruscas da navegação a motor. Voltaram a fazer sentido precauções que, nos dias de vela, pareciam supérfluas, como a mesa e as cadeiras das refeições presas à parede, os pratos da sopa com um garfo em baixo, sobretudo se estão cheios, para não se entornarem para cima de nós, e tantas outras.

Hoje é o nosso último dia de navegação antes de atracar no porto da Cidade da Praia, Cabo Verde. As apreensões que ocasionalmente se manifestavam a bordo sobre a tensão política causada pelo linchamento em Bragança do jovem Giovani Rodrigues atenuaram-se, naturalmente, com a notícia de terem sido detidos pela polícia portuguesa cinco suspeitos do crime.

Como que a anunciarem a proximidade da terra firme, fizeram-se ver pela primeira vez nesta tirada umas quantas gaivotas. É verdade que deixámos de navegar à vela, mas voltam a ser estes sinais, velhos como o tempo, a confirmar-nos a aproximação do porto. Só o peixe continua sem morder o anzol rebocado à pôpa.

Ignorante dos segredos do mar, também eu detectei a certa altura o que parecia uma ave marinha, mas não era seguramente uma gaivota. Apurando a visão para perceber de que espécie se tratava, acabei por descobrir um belo e corpulento peixe voador, que vários segundos e várias dezenas de metros depois mergulhou, para não mais ser visto.

Não só a detecção da terra pela presença das gaivotas, mas outras técnicas antigas têm ainda a sua utilidade. Muitos contentores vogam à deriva pelos oceanos e o perigo de colisão com algum deles não pode ser evitado pelo alarme de um sonar, que a Sagres não tem. Devem ainda, como há séculos, ser os vigias a perscrutar o horizonte, sempre com o risco de lhes poderem passar despercebidos os contentores que tenham submersa a maior parte do seu volume.

Nesse caso, uma colisão de frente, com a quilha da Sagres, não representa um perigo grave, mas uma colisão lateral poderá causar rasgões no casco do navio e, em consequência, alagamento dos compartimentos afectados. Para isso existem os exercícios de combate a situações de alagamento, também integrados no programa de exercícios que a equipa de avaliadores externos está monitorizando no navio. Hoje à tarde teve lugar o último exercício, com simulação de fogo nos geradores.

Ao fim da manhã entrevistámos o cabo Fernando Pinto que, entre outras funções, tem a de carpinteiro - preciosa num navio quase centenário como a Sagres. Autodidata consciencioso, tornou-se um dos poucos artistas desta arte e por isso é apreciada a sua capacidade para levar a cabo pequenas - reparações ou mesmo, por vezes, reparações de um nível que normalmente ficariam entregues a um estaleiro.

A meio da entrevista, apresentou-se na carpintaria um grumete, que pediu formalmente ao cabo Pinto licença para entrar e depois, sempre com a mesma grave formalidade, anunciou trazer duas coimas para entregar “aos senhores da RTP”. Pelas ditas coimas, ficávamos obrigados a pagar cada um a sua rodada à equipa do traquete, como é da praxe quando alguém faz a sua primeira subida a esse mastro.

O Rui Silva ainda terá de pagar uma segunda coima, pela subida que fez ontem ao outro mastro (com reincidência no dia de hoje). Mas valeu a pena, pelas imagens magníficas que trouxe da faina de mastro.

Às 21 horas, já passámos entre as ilhas do Sal e da Boavista e navegamos um pouco acima dos oito nós, a 15º86’ de latitude norte, em frente à costa do Senegal.
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