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Os danos e a evolução do estado do tempo

País suscetível, vulnerável e sem cultura de risco

País suscetível, vulnerável e sem cultura de risco

O especialista em clima Carlos da Câmara advertiu hoje que Portugal é um país muito suscetível e vulnerável aos eventos extremos e que lhe falta uma cultura de risco, fatores agravantes perante casos de mau tempo.

Lusa /

A propósito do mau tempo que tem atingido o continente nas últimas semanas e que já provocou 15 mortes, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa organizou uma videoconferência sobre o que se passa com o estado do tempo, que juntou Carlos da Câmara e outros especialistas, investigadores do Instituto Dom Luiz.

O responsável explicou que em relação à suscetibilidade, a exposição a um evento extremo, o país deslocou-se essencialmente para as zonas do litoral, que é a região mais sensível às depressões, como as que têm estado a atingir o continente.

"A vulnerabilidade é a capacidade que temos de mitigar os efeitos de um evento extremo. E aí temos habitações em leitos de cheia, temos o problema da rede elétrica", em que se tem de equacionar as redes, temos o problema de se olhar para todo um conjunto de estruturas que tem de ser reanalisado, desde logo a forma como as telhas se fixam nos telhados, disse.

Mas acrescentou ainda outro aspeto "muito importante" e que em Portugal se está longe de "atingir os mínimos exigíveis", que é uma cultura de risco que não existe e que não se ensina nas escolas, como por exemplo como agir em caso de um tornado.

"Temos muito mais a tendência para culpar a ministra da Administração Interna, o Governo central, as autarquias, e eu digo que a primeira coisa começa por uma questão de cidadania e de responsabilidade face a ventos extremos, e continuamos muito longe do que é desejável", afirmou.

Com o título "Afinal, o que se passa com o Tempo?" na sessão os vários especialistas debateram a fiabilidade e a evolução das previsões meteorológicas e explicaram o que levou tantas depressões a chegarem ao continente, relacionadas basicamente com a posição de anticiclones e com rios atmosféricos, faixas estreitas (até 500 quilómetros) mas longas de nuvens com muita humidade, "gigantes no céu que transportam água no estado gasoso", como disse o investigador Alexandre Ramos.

E quando questionados sobre se no futuro as diferenças entre as estações do ano se iriam esbater, coube ao investigador e professor da Faculdade de Ciências Gil Lemos explicar que não, que sempre irá fazer frio e chover no inverno, ainda que talvez menos frio do que o habitual. Diferença que, notou, se relaciona com as alterações climáticas.

"Do ponto de vista das projeções climáticas sabemos que vamos ter um aumento paulatino das temperaturas ao longo das próximas décadas (...) mas o que sabemos também é que neste aumento existem variações, que a temperatura vai aumentar de uma forma diferente no inverno e no verão, e na realidade as projeções indicam que os aumentos são mais extremos durante o verão do que no inverno", referiu.

Como o investigador e especialista em clima Pedro Matos Soares já tinha dito Gil Lemos reforçou que Portugal está numa zona de transição climática, com grande variabilidade.

E admitiu que no futuro haja uma maior predisposição para o anticiclone do Açores (que regula o tempo em Portugal impedindo a passagem das depressões e que agora está posicionado mais a sul, deixando-as passar) se localizar sobre a Península Ibérica, impedido o "mau tempo" de chegar e provocando períodos de seca mais prolongados.

"Quando estamos a pensar em tempestades com mais precipitação, com mais vento, podemos enquadrá-las numa perspetiva das alterações climáticas", disse, ainda que não ligasse diretamente o recente "comboio de depressões" às alterações climáticas.

Mas, avisou, é preciso que o país se prepare para esse tipo de cenários. E que pense na adaptação como uma oportunidade para o território, "não como um gasto mas sim como um investimento".

A relação ou não do mau tempo atual com as alterações climáticas levantou no debate alguma polémica, com Gil Lemos a considerar que se calhar era importante falar em "adaptação climática" e não de "adaptação às alterações climáticas", porque estas "só vão acontecer daqui a algumas décadas", disse ironicamente.

E Carlos da Câmara acrescentaria depois, já quase no final do debate: a um governante que precise de ser convencido de que há alterações climáticas a minha única resposta é "já não há pachorra!".

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