Pedrógão Grande: relatório da Comissão Técnica

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Na estrada nacional 236 morreram 47 pessoas que fugiam do fogo
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O relatório da Comissão Técnica Independente foi entregue esta quinta-feira no Parlamento. O relatório aponta falhas na previsão do risco associado às condições meteorológicas, bem como na mobilização de meios que tornaram o fogo praticamente incontrolável. “As consequências catastróficas do incêndio não são alheias às opções táticas e estratégicas que foram tomadas”, afirma o relatório. A comissão técnica aponta o dedo ao comando e diz que um alerta precoce à população poderia ter moderado as consequências. O incêndio de Pedrógão Grande, em junho, registou 64 vítimas mortais. Só foi dado como extinto uma semana depois.

De acordo com o relatório, para além das excecionalidades meteorológicas, “não houve pré-posicionamento de forças, nem análise da evolução da situação com base na informação meteorológica disponível. A partir do momento em que foi comunicado o alerta do incêndio, não houve a perceção da gravidade potencial do fogo, não se mobilizaram totalmente os meios que estavam disponíveis e os fenómenos meteorológicos extremos acabaram por conduzir o fogo, até às 03h00 do dia 18 de junho, a uma situação perfeitamente incontrolável”.

Para a Comissão Técnica, houve quatro fatores decisivos para o desfecho trágico do incêndio de Pedrógão.

Em primeiro lugar, uma incapacidade para debelar o fogo nascente na primeira meia hora após a eclosão, dado o tempo decorrido desde a ignição do fogo e os meios empregues no ataque inicial, “que foram insuficientes para as condições do dia”.

“Passado esse momento o controlo do incêndio foi-se tornando progressivamente mais difícil pelo crescimento rápido do perímetro, com a cabeça praticamente sempre acima da capacidade de extinção e projeções em número significativo. O combate ao então flanco direito do incêndio foi descurado, o que foi decisivo para a sua rápida expansão, o que se verificou após a mudança na direção do vento registada às 18 horas Na verdade, após as 16 horas, e particularmente após as 17 horas, a probabilidade de sucesso em deter o incêndio seria sempre reduzida, mesmo na presença de ataque ampliado bem organizado e dispondo de um conjunto reforçado de meios”, diz o relatório.

Em terceiro lugar, o relatório diz que as medidas de proteção civil (condicionamento de estradas, evacuações e acompanhamento da população), deveriam ter sido equacionadas mais cedo, “logo às 16h00-17h00 e cumpridas a partir das 18 horas”.

Estas “deficiências no comando e gestão da operação de socorro” foram agravadas “pelas dificuldades de comunicação”. Os responsáveis do relatório que mais importante foi a atuação não ter seguido os padrões em vigor. “As consequências catastróficas do incêndio não são alheias às opções táticas e estratégicas que foram tomadas”, afirmam.
Antecipação de medidas poderia ter evitado mortes
"As medidas que deveriam ter sido tomadas, da responsabilidade do comando, e imediatamente a seguir ao início do incêndio, poderiam ter moderado os efeitos", afirmou o presidente da comissão, João Guerreiro, após ter entregado o relatório de 296 páginas ao presidente do parlamento, Ferro Rodrigues, e aos representantes dos grupos parlamentares.

Especialmente entre as 15:00 e as 16:00, poderia ter havido uma "antecipação de medidas", designadamente "a retirada das pessoas das aldeias", disse o ex-reitor da Universidade do Algarve, sublinhando que existem "mais de 100 pequenos aglomerados" na zona.

Para o presidente da comissão, deveria ter existido um "sistema de sensibilização e informação" para retirar as pessoas das aldeias.

"Se houvesse um sistema de sensibilização e informação, se o comando, na altura apropriada, entre as 15:00 e as 16:00, pudesse ter tido uma atuação para sensibilizar a população e de dar instruções de evacuação ou pelo menos de não saírem de casa, provavelmente os dramas que aconteceram não teriam acontecido", disse.

João Guerreiro disse ainda que a responsabilidade pela tomada de medidas, ou falta delas, neste tipo de acontecimentos pertence ao "comandante que está a dirigir as operações".


João Guerreiro acrescentou que as falhas no ataque inicial foi fundamental, considerando que "a partir de certa altura, era impossível tomar conta do fogo" que, numa hora, avançou rapidamente. Nessa hora, a área ardida "é uma coisa impressionante", acrescentou, lembrando que foi nessa hora que morreram todas as pessoas.

João Guerreiro esclareceu ainda que não houve qualquer encaminhamento de pessoas para a estrada nacional 236, onde morreram 47 pessoas.
Carreira de Proteção Civil
O coordenador do relatório ao que aconteceu em Pedrógão Grande realçou um dos pontos que é apontado como recomendação ao Governo. João Guerreiro considera que deve ser criada uma carreira de Proteção Civil, e que o acesso a essa carreira deve ser feito por concurso público.

Um "aspeto central", diz João Guerreiro, que considerou recorrentes as mexidas na estrutura de chefia da Proteção Civil.

De igual forma, o coordenador do relatório veio afirmar que "há, transversalmente, uma falta de incorporação de conhecimento de meteorologia aplicada e de comportamento do fogo", que deve ser culmatada.
Três meses de trabalho
Esta Comissão Técnica foi proposta pelo PSD e aprovada no Parlamento a 30 de junho. A par desta avaliação, o Governo encomendou também uma investigação ao Professor Xavier Viegas logo no dia a seguir à tragédia. As conclusões deste segundo relatório serão entregues na próxima segunda-feira.

O primeiro-ministro já anunciou para o próximo dia 21 um Conselho de Ministros extraordinário para analisar e tomar medidas com base nos dois trabalhos.

O incêndio que teve início em Pedrógão Grande no dia 17 de junho provocou 64 mortos e mais de 200 feridos. Só foi dado como extinto uma semana depois. Foram 47 as pessoas que perderam a vida na estrada nacional 236, ao tentarem fugir do fogo. O incêndio queimou mais de 27 mil hectares.

Nas semanas que se seguiram ao incêndio, os problemas no sistema de comunicações de segurança SIRESP, as acusações de descoordenação operacional no terreno e até uma troca de acusações sobre o número oficial de vítimas mortais, dominaram a agenda.

Os prejuízos diretos dos incêndios que começaram na região Centro no dia 17 de junho, nomeadamente em Pedrógão Grande e Góis, ascenderam a 193 milhões, estimando-se em 303 milhões o investimento em medidas de prevenção e relançamento da economia. São dados que foram publicados num relatório elaborado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, no início de julho.

Estes fogos terão afetado aproximadamente 500 habitações, 169 de primeira habitação, 205 de segunda e 117 já devolutas. Quase 50 empresas foram também afetadas, assim como os empregos de 372 pessoas.

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