A associação ambientalista ZERO fez essa pesquisa e refere que em Portugal continental, só 53 por cento dos concelhos portugueses (148 de 278 concelhos) têm na sua posse “mapas de ruído”, e destes apenas nove concelhos (3%) têm planos municipais de redução de ruído.
Os ambientalistas da ZERO lembram num comunicado enviado às redacções que o governo prometeu há mais de um ano elaborar a Primeira Estratégia Nacional para o Ruído Ambiente (ENRA), mas esta iniciativa e discussão pública continua na gaveta.
Existe o costume de se dizer que o ser humano é um “animal” de hábitos e só nos damos conta de algo quando nos perturba ou se sai fora da rotina. Mas, na permanência da mesma ação, acabamos por entrar no “seu ritmo”, como que embalados e passam a passar despercebidos. Um efeito que acontece frequentemente com os barulhos e ruídos envolventes.
Certamente agora que está a ler e que foi sensibilizado para a questão está a dar conta do “ruído” à sua volta e este pode agradável, mas também desestabilizador, principalmente se estiver a trabalhar.
Menos "ruido", mas paz e concentração
Há cerca de um ano, em março, Portugal foi obrigado a confinar e o país parou. E se vive nas grandes metrópoles certamente se lembra do estranho que foi ver as cidades vazias e o silêncio envolvente.
Sem carros, sem aviões, sem pessoas, o país mudou e muitos outros países que seguiram tal exemplo as réplicas surgiram de igual modo. De tal forma que conseguíamos ouvir o estranho silêncio que emanava das ruas, interrompido pontualmente por algo que sabíamos estar a sair da regra. E viver assim seria o ideal. Ter nas cidades o que procuramos quando vamos para o campo: tranquilidade.
Precisamente para chamar à atenção e combater este problema foi instituído mundialmente e desde 1996, o Dia Internacional de Sensibilização ao Ruído, que se assinalou no passado dia 28 de março. Uma data que começou a ser promovida pelo Centro para a Audição e Comunicação, pertencente a uma organização dos Estados Unidos da América, com o intuito de chamar a atenção para a questão.
A poluição não é só o lixo visual
São múltiplos os problemas derivados da poluição a que os seres humanos estão diariamente a ser sujeitos. Entre eles e no topo destas classes está a
poluição atmosférica e a poluição sonora. Outras, de não menor importância (resíduos sólidos, fluviais e marítimos) também são preocupantes e fazem parte dos problemas sociais crescentes.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a poluição do ar é o pior, seguido do ruído ambiente, o que confere uma importância particular sobretudo nos grandes centros urbanos, onde reside a maior parte da população.
De entre as várias fontes emissoras, o setor dos transportes, em particular o tráfego rodoviário, é um dos principais responsáveis, com muito ruído e poluição do ar. Um cenário que tenderá a piorar nos próximos anos, se não forem adotadas políticas mais exigentes.
Por isso, foram criados pela Agência Europeia do Ambiente dois indicadores (Lden - um indicador ponderado para diferentes períodos ao longo de 24 horas) e para o indicador noturno (Ln - entre as 23h e as 7h da manhã), que medem o número de pessoas na Europa expostas a ruído excessivo.
Estima-se que mais de 125 milhões de pessoas sejam afetadas por níveis de ruído do tráfego rodoviário superiores a 55 decibéis (dB) Lden, incluindo mais de 37 milhões expostos a níveis de ruído acima de 65 dB Lden.
A exposição ao ruído do tráfego rodoviário é seguida por:
- ruído do tráfego ferroviário (quase 8 milhões de pessoas expostas acima de 55 dB Lden),
- ruído de aeronaves (quase 3 milhões de pessoas expostas acima de 55 dB Lden), e
- ruído industrial em áreas urbanas (300 000 pessoas expostas acima de 55 dB Lden).
A Comissão Europeia, no âmbito do Pacto Ecológico Europeu e do previsto Plano de Ação para a Poluição Zero, deve iniciar um processo legislativo tendente a reduzir os níveis de ruído na União Europeia. Também a Organização Mundial de Saúde publicou recentemente orientações sobre o ruído ambiente, estando também prevista a publicação de novas orientações sobre a qualidade do ar.
Em conjunto espera-se que as novas leis se traduzam num fator de mudança, resultando numa maior sensibilização para estas questões ambientais e de saúde, desencadeando melhores políticas.
Estratégia Nacional para o Ruído em Portugal
Existe em Portugal um plano (
Estratégia Nacional de Educação Ambiental) que define um conjunto de regras e normas em que se pretende minimizar os impactos e o combate ao ruído, como por exemplo mapas de identificação de zonas mais problemáticas.
E para uma maior harmonização da implementação a nível nacional da legislação do ruído são elaborados
Guias e Notas Técnicas.
Mas para a associação ambiental ZERO estes planos não funcionam, e classifica os existentes com, desastrosos, burocráticos e meramente informativos e desatualizados. A ZERO faz ainda referência à falta de mapas de ruído e planos municipais de redução.
Dados recentes da
Agência Portuguesa do Ambiente (APA) revelam que 20 por cento da população residente em Portugal Continental (2 milhões) está exposta a níveis sonoros que induzem perturbações no sono e 15 por cento (1,5 milhões) está exposta a níveis associados a incomodidade moderada.
Os dados indicam igualmente que os objetivos políticos em matéria de ruído ambiente não foram alcançados. De facto, é pouco provável que o número de pessoas expostas ao ruído diminua significativamente no futuro devido ao crescimento urbano e ao aumento da mobilidade.
Também presente na informação disponibilizada pela APA consta os Planos de ação elaborados pelas aglomerações (municípios com mais de 100 mil habitantes e 2500 habitantes/km2), onde se encontram os municípios de
Lisboa( RNT julho 2014),
Matosinhos (Relatório Setembro 2018) ,
Odivelas (RNT junho 2017) e
Oeiras (2107).
Fora do âmbito municipal apenas os dois grandes aeroportos de Lisboa e Porto e as Grandes infraestruturas de transporte rodoviário apresentaram
RNT e
relatórios, sendo que o de Lisboa apresentou um relatório mais detalhado para os períodos entre
2018 e 2023.
No que respeita às obrigações nacionais decorrentes de uma legislação do ano de 2007 (
Decreto-Lei nº 9/2007, de 17 de janeiro) que abrangem todos os municípios, no que respeita a Portugal continental,
só 53 por cento (148 de 278 concelhos) têm mapas de ruído e só três por cento (9 em 278) têm planos municipais de redução de ruído, sendo certo que em praticamente todos os municípios se verificam excedências a um dos dois indicadores de ruído e portanto estes planos serão obrigatórios.
A legislação prevê que as câmaras municipais apresentem à assembleia municipal, de dois em dois anos, um relatório sobre o estado do ambiente acústico municipal, exceto quando esta matéria integre o relatório sobre o estado do ambiente municipal, uma obrigação legal que a ZERO diz desconhecer o cumprimento desta obrigação.