Portugueses inscritos em clínica suíça que ajuda doentes a morrer

A morte da italiana Eluana Englaro reacendeu o debate da eutanásia em Portugal. Laura Ferreira dos Santos, que estuda questões ligadas à eutanásia, revelou que existem sete portugueses inscritos numa clínica na Suíça que ajuda doentes terminais a morrer.

Cristina Sambado, RTP /
Eutanásia em debate RTP

“Acho que quase ninguém sabe isto. Temos sete pessoas inscritas na Dignitas, uma associação não lucrativa de voluntários na Suíça e que é a mais conhecida associação que presta ajuda a estrangeiros e que os ajuda a morrer”, afirmou a professora da Universidade do Minho.

"Em 17 de Maio de 2008, a Dignitas tinha quase 6 mil membros, e entre eles havia sete portugueses", esclareceu Laura Ferreira dos Santos em declarações à RTP.

Segundo Laura Ferreira dos Santos, basta que um destes sete portugueses “morra com a ajuda desta associação para se verificar um debate escaldante sobre a questão em Portugal”, acrescentado que “num caso desses não haverá tempo para um debate que não seja realizado sobre pressão”.

“Preferivelmente, a discussão será em ambiente sereno, mas não sei se a vamos conseguir manter fechada a discussão. De repente, os diques podem ir pelos ares, portanto o melhor é fazer a discussão já”, sublinhou.

"A Dignitas é uma das duas organizações suíças que ajuda estrangeiros a morrer através de suicídio assistido. Na Suíça não é permitida a eutanásia", esclareceu Laura Ferreira dos Santos em declarações à RTP.

A professora da Universidade do Minho, revelou "que em Portugal há muita confusão nos termos, mas uma coisa
é eutanásia e outra é suicídio medicamente assistido".

"Na eutanásia os médicos a pedido do doente, quando já não há mais nada que se possa fazer, injectam no paciente um produto que primeiro o coloca num estado de inconsciência e só depois é que aplicam o produto letal", explicou.

Por outro lado, "no suicídio medicamente assistido é o próprio doente que ingere essa substância".

A docente recordou o caso de Itália e de França onde o debate sobre a eutanásia não foi pacífico, e de Espanha que só conseguiu debater o assunto depois do caso que envolveu Ramon San Pedro, considerando que aí “as autoridades acabaram por ser um pouco cúmplices das mortes assistidas que iam ocorrendo”.

Ordem dos Médicos não se opõe a debate

Para Pedro Nunes, bastonário da Ordem dos Médicos, é útil que a reflexão seja feita, mas alerta para que a legalização da eutanásia seria um risco social de grande retrocesso civilizacional e que tornaria a eutanásia um dever em vez de um direito.

“Numa sociedade democrática qualquer assunto pode ser discutido com tranquilidade e serenidade”, afirmou Pedro Nunes à agência Lusa.

“Do ponto de vista social a legalização da eutanásia seria um grande retrocesso civilizacional” e “iria levar a um desinvestimento na área da saúde”, acrescentou.

Segundo o bastonário da Ordem dos Médicos, “a eutanásia é um enorme risco para a sociedade” e “levaria a desinvestimentos na área dos cuidados paliativos dirigidos a doentes terminais”.

Pedro Nunes considera que a eutanásia é “defendida numa sociedade que vive presa ao pânico e ao medo de um aproximar da morte”.

“É comum as pessoas pensarem que seria melhor terminar o mais rapidamente possível com o sofrimento”.

O bastonário defende um investimento na área dos cuidados paliativos e recordou “que do ponto de vista da ética médica, os clínicos estão treinados para defender a vida e não a morte”.

Poucos portugueses recebem cuidados paliativos

A presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, Isabel Galriça Neto, disse que se está a inverter o debate, considerando que o que devia ser discutido é o problema da falta de resposta de cuidados paliativos pois são poucos os portugueses que os recebem.

“Não se ultrapassam em respostas dez por cento das necessidades”, afirmou Isabel Galriça Neto, à Lusa.

Para a presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos é “perigoso propor aos portugueses uma discussão sobre a eutanásia, quando a maioria não recebe cuidados paliativos, não os conhece e não sabe do que se está a falar”.

Defendendo os cuidados paliativos a que os doentes têm direito, Isabel Galriça Neto acrescentou que “são os cuidados de saúde especializados que fazem com que os doentes não estejam a sofrer”.

“É fundamental discutir o problema do sofrimento dos doentes em final de vida”, sublinhou.

“Os cuidados paliativos são um direito humano”, rematou.

Não há urgência em legislar sobre a eutanásia

A presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), Paula Martinho da Silva, considera que o debate sobre a eutanásia não é uma preocupação prioritária da sociedade e que este tema é “recorrente e ciclicamente debatido”.

“Não me parece que seja uma preocupação prioritária para a sociedade. Pessoalmente não vejo necessidade da urgência que se quer dar para legislar sobre uma matéria muito polémica, que deve ser discutida, amadurecida e envolvendo um consenso possível na sociedade”, declarou à Lusa.

Quanto à morte de Eluana Englaro, a presidente da CNECV considera que não foi eutanásia. “Estas situações não têm nada a ver com eutanásia. Para mim foi o desligar de suporte vital que é uma situação médica e parece que de encontro à vontade da pessoa”.

PS vai debater eutanásia no próximo congresso

O Partido Socialista prepara-se para discutir, no próximo congresso, uma moção sectorial sobre a eutanásia, apoiada por 26 militantes.

“Defendo a eutanásia já há muito tempo e acho que está na altura de começarmos a discutir esta questão com profundidade com calma e serenidade”, afirmou o deputado socialista Marcos Sá um dos subscritores da moção.

“Há um ciclo de debate, há um ciclo de esclarecimento que é preciso fazer junto da sociedade civil, é preciso esclarecer as pessoas, é preciso ver de diversos pontos de vista relativamente a esta matéria, mas acho que estas decisões não se tomam em cima de casos concretos”, acrescentou.

Para Marcos Sá a eutanásia “só poderá ser permitida em caso de estado terminal e irreversível e se for expressamente autorizada pelo próprio doente”.

“Está é uma matéria exclusiva da liberdade individual”, defendeu.
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