PSP ignorou apelo à calma de directora da Escola Secundária Alberto Sampaio

A directora da escola de Braga que hoje foi cenário de uma intervenção da PSP pediu repetidamente à polícia que lhe desse tempo para falar com os alunos da escola e para obter pacificamente a retirada do cadeado colocado no portão. Os apelos à calma da professora Manuela Gomes não foram, contudo, atendidos e a polícia acabou por usar gás pimenta contra os estudantes, causando lesões em seis dos presentes.

RTP /
Alunos da Escola Alberto Sampaio, durante a "ª Competição de Desportos Gímnicos DR

A directora da escola chegou quando já se encontrava presente o dispositivo policial, incluindo polícias em uniforme e outros à paisana. Solicitada pela RTP a esclarecer a origem da intervenção policial, Manuela Gomes foi clara em negar que a PSP tivesse sido chamada pela direcção da escola. A directora da Escola Alberto Sampaio recorda ainda que procurou identificar algum responsável da polícia e que pediu tempo para falar com os estudantes e para lhes fazer ver que já tinham manifestado a sua posição e que deveriam a partir daí facilitar a abertura do portão.
"Comportamento correcto" dos estudantesManuela Gomes afirma ainda que “o comportamento dos alunos da escola costuma ser inteiramente correcto. Não tenho qualquer razão de queixa desse ponto de vista”. Também no momento da manifestação contra a agregação da escola ao agrupamento de Nogueiró não houve, que a directora pudesse ter-se apercebido ao chegar, qualquer violência física ou verbal dos manifestantes.

A directora da escola lembra que se trata de uma das mais avaliadas pelo próprio Ministério, e que era bastante consensual a preferência por outra solução, que passava por contratos de parceria e não pela agregação. Mas esta foi finalmente a decisão do Ministério, que colocou estudantes e professores perante um facto consumado, recebido com natural desagrado.
Sindicato quer inquérito sobre intervenção policialTambém contactada pela RTP, Júlia Vale, dirigente do Sindicato dos Professores do Norte, integrante também do Secretariado Nacional da Fenprof, considerou que os estudantes “não fizeram mais que exercer o seu direito de manifestar-se quando são impostas decisões contra a vontade da população”.

Os estudantes, lembrou, limitaram-se a colocar em frente da escola “panos em sinal de luto, por aquilo que está a acontecer à sua escola, por sentirem que estão a ser tratados como peças de um puzzle sem poderem pronunciar-se sobre o próprio puzzle”. E acrescentou: “Toda a gente percebe que a decisão tomada é uma das que vêm tirar condições aos estudantes e aos docentes para terem um ensino público de qualidade”.

Quanto aos moldes em que foi feita a intervenção policial, Júlia Vale referiu a violência despropositada que a caracterizou, e manifestou a convicção de que não foi a escola a chamar a PSP. Mas, sublinhou a dirigente sindical, “alguém a chamou e não se sabe quem foi”. Esta indefinição sobre as responsabilidades da intervenção policial justifica, segundo Júlia Vale, a abertura de um inquérito.Ministério da Educação não comentaPor seu lado, o Ministério da Educação e Ciência (MEC), contactado também pela RTP, não emitiu até este momento qualquer comentário. Marco Silva, do Gabinete de Imprensa daquele Ministério, referiu apenas que a intervenção policial tivera lugar no exterior da escola. Havendo porém alunos da escola assistidos por lesões causadas pela polícia, ficou pendente uma resposta ao pedido de comentário da RTP. A Direcção Regional da Educação do Norte, por sua vez, remeteu-nos para a resposta do MEC.

Os estudantes assistidos devido a lesões causadas pelo gás pimenta foram seis, tendo pelo menos dois deles precisado de ser transportados ao hospital. Não ficaram internados, mas terão de manter tratamento médico nos próximos dias. Os seis estudantes tinham idades compreendidas entre os 12 e os 15 nos.
Gás pimenta para evitar intervenção "mais musculada"Pedro Martins, da associação de estudantes, afirmou segundo a agência Lusa: "Não foi nada combinado. [A manifestação] surgiu de forma totalmente espontânea. Nós não queremos esta agregação e foi isso que quisemos manifestar. Estava a ser um protesto pacífico até a PSP começar a abrir caminho entre os alunos e um deles ter deitado mão ao gás pimenta e atirado sobre nós”. Uma das mães presentes no local, também citada pela Lusa, recorda: "Ouvimos que havia aqui ambulâncias e entrámos em pânico por não sabermos o que se passava com os nossos filhos. Não há o direito de usar força contra miúdos".

Entretanto, a PSP justificou a utilização de gás pimenta perante as numerosas mensagens críticas surgidas no seu facebook sustentando que, "durante a intervenção, alguns alunos agarraram-se aos polícias na tentativa de os demoverem dessa intenção, cercando-os posteriormente. Para evitar a necessidade de intervenção com bastões de ordem pública, foi utilizado por um polícia, gás pimenta para cessar os atos referidos". E acrescenta: “A Polícia lamenta este episódio e assume que a intervenção foi feita na medida e proporção a evitar uma intervenção mais ‘musculada’".
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