António Costa manifesta "total confiança política" na ministra da Justiça

O primeiro-ministro recebeu esta noite a ministra da Justiça na residência oficial, em São Bento, na sequência da polémica nomeação do procurador europeu. António Costa Manifestou "total confiança política" a Francisca Van Dunem para o exercício de funções.

RTP /
Nuno Fox - Lusa (arquivo)

"O primeiro-ministro recebeu hoje em audiência a Senhora Ministra da Justiça, a quem reafirmou total confiança política para o exercício de funções", lê-se numa nota do gabinete de António Costa.

No mesmo texto, o chefe do Executivo sublinha que "compete ao Governo escolher os candidatos a representante de Portugal na Procuradoria Europeia".

"Contudo, para garantir a isenção e imparcialidade nesta escolha, o Governo apresentou uma proposta de lei à Assembleia da República - que a Assembleia da República aprovou - atribuindo aos Conselhos Superiores do Ministério Público e da Magistratura, órgãos independentes na gestão das magistraturas, as competências para a seleção dos nomes dos magistrados a designar por parte do Governo, através de uma lista ordenada", prossegue a nota.

"O Conselho Superior do Ministério Público aprovou uma lista ordenada, figurando em primeiro lugar o Procurador José Eduardo Guerra", afirma-se ainda no comunicado.

"Os elementos selecionados foram ainda ouvidos em audição na Assembleia da República e posteriormente por um Comité de Seleção nomeado pelo Conselho da União Europeia, que reúne os Governos de todos os Estados-membros".

"O parecer deste Comité, que de resto não é vinculativo, não produziu qualquer fundamento ou argumento que justificasse da parte do Governo a alteração da escolha efetuada pelo Conselho Superior do Ministério Público", continua o primeiro-ministro, para acrescentar que, "no final da passada semana, foi noticiado que na comunicação, em novembro de 2019, desta designação se verificavam dois lapsos sem relevância, aliás, para o processo de seleção".

"Além do mais, o Curriculum Vitae do candidato proposto, que consta do processo submetido ao Conselho da União Europeia, não contém qualquer incorreção".

O gabinete de Costa refere que Francisca Van Dunem "solicitou ao Embaixador de Portugal junto da União Europeia a correção formal daqueles lapsos, o que foi feito".

"Mais se apurou que os lapsos tiveram origem numa nota produzida na Direção-Geral de Política de Justiça e comunicada à Reper e com mero conhecimento para arquivo ao Gabinete da Ministra da Justiça".

O comunicado de dez pontos termina a recordar que "a Ministra da Justiça aceitou hoje a demissão do diretor-geral da Política da Justiça".
A demissão

O caso da Procuradoria Europeia provocou esta segunda-feira uma demissão. O diretor-geral da Política de Justiça, Miguel Romão, pôs o seu lugar à disposição e a ministra aceitou a saída.

Todavia, em nota publicada no site da Direção-Geral, o diretor demissionário deixou claro que a informação enviada a Bruxelas sobre o procurador José Guerra foi enviada na sequência de instruções recebidas que eram do conhecimento integral do gabinete de Francisca Van Dunem. Informação que veio assim desmentir a governante. O comunicado em causa foi posteriormente retirado do site da Direção-Geral da Política de Justiça.


No passado sábado, em entrevista à RTP, a ministra garantia desconhecer o conteúdo da carta enviada por este serviço.

O diretor demissionário acrescenta que só colocou o lugar à disposição porque o caso afeta a reputação do serviço que dirige.

Miguel Romão garante que não teve qualquer responsabilidade no envio desta carta decisiva que continha três argumentos falsos.

Uma carta que levou à substituição da candidata escolhida pelo painel internacional pelo candidato escolhido pelo Governo português.

O procurador José Guerra admitiu que a informação enviada a Bruxelas sobre o seu currículo tinha lapsos. 

Apesar de estar a ser criticada por vários dirigentes políticos e até pelo Presidente da República, a ministra da Justiça não se demite e fala em tentiva de "envenamento da vida política".
O que diz Marcelo
Pouco antes da divulgação do comunicado do primeiro-ministro, o Presidente da República vinha afirmar que António Costa lhe adiantara que manteria a confiança na ministra da Justiça.

Marcelo Rebelo de Sousa pronunciava-se durante um debate para as eleições presidenciais com o adversário do PCP João Ferreira, na TVI, a propósito da controvérsia em torno da escolha de José Guerra para procurador europeu.

"Vindo eu para cá [para o debate], soube pelo senhor primeiro-ministro, que mo comunicou, que iria ser divulgada uma nota reafirmando a confiança na ministra da Justiça. Portanto, o ponto da situação neste momento é este: depois de tudo isso o senhor primeiro-ministro reafirmou a sua confiança na ministra da Justiça", declarou o Chefe de Estado.

Marcelo salientou que, nos termos da Constituição, "o Presidente não pode exonerar ministros sem ser sob proposta do primeiro-ministro, antecedida ou não do pedido de demissão do ministro".

"O Presidente não tem opinião que não seja respeitar a Constituição sobre isso", insistiria adiante.

Questionado sobre se vai procurar saber mais sobre este caso, redarguiu: "Obviamente, já procurei saber e a resposta que foi dada pelo senhor primeiro-ministro é essa: mantém a confiança na senhora ministra da Justiça".
Dados falsos
Na passada semana foi noticiado que, numa carta enviada à União Europeia, o Governo apresentou dados falsos sobre José Guerra, apontado como o preferido para procurador europeu, depois de Ana Carla Almeida ter sido considerada por um comité de peritos como a candidata mais indicada para o cargo.

José Guerra é, nessa mesma carta, referido como procurador-geral-adjunto, cargo que não possui. A missiva menciona ainda que o procurador teve uma participação “de liderança investigatória e acusatória” no processo UGT, o que é igualmente falso.

Depois de o Ministério da Justiça ter assumido estas informações erradas como "lapsos", a ministra Francisca Van Dunem disse, em entrevista à RTP no sábado à noite, ter condições para continuar no Governo depois da polémica, considerando que foi feito um "empolamento profundamente injusto" de uma situação "rigorosamente transparente".

A ministra disse ainda que "não conhecia até agora" a carta enviada pelos serviços do Ministério da Justiça à Representação Permanente de Portugal na União Europeia (REPER), e que insistiu em denominar como uma nota de trabalho e não uma carta.

O magistrado português José Guerra foi nomeado a 27 de julho procurador europeu nacional na Procuradoria da União Europeia (UE), órgão independente de combate à fraude.

A Procuradoria Europeia é um órgão independente da UE, competente para investigar, instaurar ações penais e deduzir acusação e sustentá-la na instrução e no julgamento contra os autores das infrações penais lesivas dos interesses financeiros da União (por exemplo, fraude, corrupção, fraude transfronteiras ao IVA superior a 10 milhões de euros).
PUB