Avanço da extrema-direita é a maior ameaça às democracias liberais
O avanço das formações de extrema-direita na Europa preocupa o investigador e professor de História Contemporânea Steven Forti, que considera estes partidos e movimentos como a maior ameaça da atualidade ao sistema democrático liberal.
Apesar de afirmar, em entrevista à agência Lusa, que a extrema-direita de hoje não é a mesma do início do século XX, Steven Forti sublinhou que "isso não significa que não é perigosa".
O investigador no Instituto de História Contemporânea (IHC) da Universidade NOVA de Lisboa, que é também autor de livros como "Patriotas Indignados. Sobre a nova extrema-direita do pós-Guerra Fria", de 2019, e "Extrema-direita 2.0: o que é e como combatê-la", de 2021, explicou que existem diferenças substanciais entre o fascismo histórico e a extrema-direita atual.
"O fascismo foi uma ideologia, um movimento político que surgiu em Itália em 1919, após a I Guerra Mundial, e que se espalhou rapidamente pela Europa nos anos seguintes, que tinha uma série de características diferentes das da nova extrema-direita", adiantou, lembrando que o fascismo "foi apresentado como uma evolução genética paulatina da sociedade", que pretendia "revolucionar a sociedade e construir novos homens e mulheres".
Características que Steven Forti não vê nas extremas-direitas atuais.
"O 2.0 da minha definição é algo radicalmente novo, em alguns aspetos, em relação ao fascismo do [período] entre guerras e ao neofascismo da era da Guerra Fria. Não acho que [as extremas-direitas de hoje] sejam mais moderadas, foram é atualizadas", referiu.
Nascido em Itália, mas com investigação feita também em Espanha e Portugal, o professor de História Contemporânea descarta a possibilidade de o novo Governo de Itália, liderado pelo partido de extrema-direita Irmãos de Itália, regressar a um passado de fascismo.
Apesar de notar algumas características semelhantes entre a altura em que o fascismo triunfou em Itália, depois da Marcha sobre Roma de Benito Mussolini, episódio que assinala este mês 100 anos, e os dias de hoje, Steven Forti sublinha que "o mundo mudou, o contexto é diferente e os sistemas democráticos liberais são muito mais fortes do que eram".
Ainda assim, o especialista acredita que se deve combater o avanço dos extremismos, neste caso da direita, e, para o fazer Steven Forti defende ser necessário começar por conhecer a própria extrema-direita.
"É preciso compreender e estudar as causas que explicam a sua ascensão eleitoral", considerou, adiantando acreditar que existem vários tipos de razões para isso acontecer, desde o aumento das desigualdades até à crise das democracias liberais, com os seus altos níveis de desconfiança da população em relação às instituições.
"Como as causas são múltiplas, não pode haver uma única resposta. A resposta tem de ser multifacetada e abranger muitas áreas de diferentes níveis, como as instituições, a comunicação social e a sociedade civil", avançou.
Em primeiro lugar, é preciso "reforçar as políticas sociais e evitar que as desigualdades continuem a aumentar", mas também "recuperar a confiança dos cidadãos nas instituições" porque "sem confiança, uma democracia dificilmente pode sobreviver por muito tempo", disse.
Ao mesmo tempo, defende Steven Forti, é necessário "reconstruir redes comunitárias", porque "muitas pessoas sentem-se sozinhas e isoladas e acabam a acreditar nos discursos que cavalgam o medo".
Uma outra vertente, refere, é o reforço da ética jornalística, "para evitar que os `media` se tornem megafones de ideias de extrema-direita" e para haja cada vez mais verificação de notícias e informações.
"Por último, acho essencial começar a pensar em como o espaço digital pode ser democratizado. As redes sociais, que hoje oferecem, na prática, um serviço público não podem ser propriedade de grandes empresas multinacionais opacas, que nem sabemos como funcionam", considerou.
Para este investigador, o combate ao avanço da extrema-direita, quer na Europa quer no resto do mundo, tem de passar por "regras transparentes".
É crucial "perceber como funcionam os algoritmos e por que é que, quando abrimos o Facebook, o Twitter ou o Instagram, vemos uma coisa e não vemos outra", disse, acrescentando que, ainda nas redes sociais, tem de ser feito "trabalho para impedir a normalização e legitimação do discurso do ódio".