Capitão de Abrill e Zeca Afonso partilharam "grandes afinidades"

por Lusa

O capitão de Abril Otelo Saraiva de Carvalho, que morreu hoje, aos 84 anos, partilhou com o músico Zeca Afonso "grandes afinidades", recorda a Associação José Afonso (AJA).

"Ambos partilharam valores onde primavam a liberdade e a solidariedade universais, como emanação da vontade e luta popular", escreve a associação, na sua página na internet, em homenagem ao coronel que "colaborou com a AJA sempre que era solicitado, em conferências, debates e, especialmente, em escolas", para "explicar como um grupo de homens arriscou tudo num só dia e derrotou o regime fascista".

Em entrevista à Lusa, em fevereiro de 2017, Otelo reconheceu que a "música de intervenção" de Zeca Afonso estimulou "enormemente" a sua consciencialização política.

"Entrámos num turbilhão de amizade, de companheirismo muito grande", lembrou Otelo, na mesma entrevista à Lusa, falando de Zeca como o "irmão que gostaria de ter tido".

Otelo só conheceu e deu um "abraço emocionado" a José Afonso depois do 25 de Abril de 1974.

Sobre a escolha de "Grândola" para senha da Revolução dos Cravos, disse: "Podia ser o `Venham mais cinco` ou `Traz outro amigo também`. Acabou por ser a `Grândola`, porque as outras estavam no índex da censura".

Otelo estava preso em Caxias, em 1986, quando Zeca Afonso, já muito doente, foi "despedir-se" de si, meses antes de morrer.

Como o compositor de "Venham Mais Cinco" não podia subir ao parlatório, o diretor da prisão autorizou que fosse o militar a vir, a sentar-se num carro - ele e Zeca nos bancos da frente, as duas companheiras atrás.

José Afonso, o cantor, tinha dúvidas se teria valido a pena "a luta" desde os tempos da ditadura, e achava que o seu trabalho musical iria ser esquecido.

"Aí, quase me exaltei: `Ó Zeca, pá, nunca digas uma asneira dessas. Tu foste um gajo notável e o que fizeste vai perdurar, pá, até ao fim do mundo`", recordou, à Lusa.

"Sem Otelo nada teria sido igual, nada teria sido possível", assinala a Associação José Afonso, descrevendo-o como "grande estratega, corajoso, solidário e sonhador".

A AJA recorda ainda que Zeca Afonso apoiou a candidatura de Otelo à Presidência da República, em 1976 e 1980, e que, por sua vez, Otelo foi o sócio fundador nº2 da Associação.

"Morreu hoje, Otelo, também dia 25, como foi 25 o dia que o projetou no futuro e na história, como obreiro de um dos dias mais felizes das nossas vidas. Obrigada, Otelo!", agradece a Associação José Afonso, partilhando uma fotografia que junta o músico e o coronel.

Otelo Saraiva de Carvalho morreu esta madrugada, aos 84 anos, no Hospital Militar, em Lisboa.

Nascido em 31 de agosto de 1936, em Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique, Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho fez carreira militar desde os anos 1960 até ao pós-25 de Abril de 1974, incluindo uma comissão, durante a guerra colonial, na Guiné-Bissau, onde se cruzou com o general António de Spínola.

No Movimento das Forças Armadas (MFA), que derrubou a ditadura de Salazar e Caetano, foi ele o encarregado de elaborar o plano de operações militares e, daí, ser conhecido como estratega do 25 de Abril.

Depois do 25 de Abril, foi comandante do COPCON (Comando Operacional do Continente), durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), surgindo associado à chamada esquerda militar, mais radical, e foi candidato presidencial em 1976.

Na década de 1980, o seu nome surge associado às Forças Populares 25 de Abril (FP-25 de Abril), organização armada responsável por dezenas de atentados e 14 mortos, tendo sido condenado, em 1986, a 15 anos de prisão por associação terrorista. Em 1991, recebeu um indulto, tendo sido amnistiado cinco anos depois, uma decisão que levantou muita polémica na altura.

O corpo de Otelo Saraiva de Carvalho será velado na Igreja da Academia Militar (Lisboa), na terça-feira, e cremado no dia seguinte, quarta-feira.

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