O percurso de Catarina Martins cruza cultura, ativismo e política institucional. Formada em Línguas e Literaturas Modernas, foi no teatro e na intervenção cultural que deu os primeiros passos na vida profissional. Assume-se como atriz de profissão e entrou na política pelo Bloco de Esquerda. Foi eleita deputada à Assembleia da República pelo partido em 2009, pela primeira vez, e esteve à frente da liderança do BE durante mais de uma década. Depois de, em 2015, conseguir o melhor resultado para o partido numas legislativas, a bloquista integrou o acordo com o PS que deu corpo à reconhecida 'geringonça' das esquerdas parlamentares.
Sem nunca deixar a luta pelas causas sociais, assumiu funções como eurodeputada no Parlamento Europeu em 2024. E, agora, está a estrear-se como candidata à Presidência da República, com vista à proteção da democracia.“Aqui estou, como sou”
Já tinha anunciado em setembro mas só formalizou a candidatura em outubro, dizendo que quer ser a presidente “que cuida da democracia, que nos convoca em todas as idades e condições".
“Apresento-me como candidata a presidente de Portugal com a minha vida e a minha experiência por inteiro. Aqui estou, como sou”, anunciou Catarina Martins, na apresentação no Porto, cidade onde nasceu.
A ainda deputada europeia acredita que esta candidatura "não se define por fronteiras partidárias" e assume o objetivo de dialogar “com todas as pessoas, de todos os caminhos da política empenhada na democracia e que não desista de um país melhor”"A minha candidatura coloca no centro o cuidado. Quero cuidar da democracia, cuidar dos bens comuns, cuidar da paz. Cuidar da igualdade e da liberdade".
Como a própria escreveu nas suas redes sociais, “a democracia não vive só do voto nem dos partidos”.
Uma mulher em Belém pela “paridade política”
O anúncio da candidatura de Catarina Martins marcou o seu regresso ao cenário político nacional, apresentando-se como uma alternativa para os eleitores além do Bloco de Esquerda - partido que está ainda no rescaldo do pior resultado eleitoral da sua história nas últimas legislativas e numa altura em que a esquerda em Portugal surge enfraquecida e fragmentada.
A candidata de 52 anos admitiu, numa entrevista à agência Lusa, que não estava nos planos concorrer nestas eleições e que não o faria caso Sampaio da Nóvoa tivesse avançado. Esta candidatura é, por isso, motivada pela “urgência de cuidar da democracia” e combater o que a própria considera ser uma “deriva autoritária” no espaço político.
“Quero juntar forças para devolver a confiança na democracia”, escreveu a candidata numa nota aquando a apresentação, destacando o papel da solidariedade em momentos recentes de crise, como o apagão de abril ou os incêndios deste verão.
A campanha de Catarina Martins pretende ser centrada nos direitos sociais, nos serviços públicos e na justiça climática, sem esquecer a importância de “popularizar a democracia” e enfrentar “os poderes que se movem na sombra”. “Acho que é preciso a coragem, à esquerda, de dizer que é preciso fazer muito diferente do que se fez até agora”, assumiu numa entrevista à Euronews.
E sendo a única candidata mulher nestas eleições, Catarina Martins considera que é necessário haver “paridade na política”, num mundo “feito de homens e mulheres”.
“A política também precisa dessa presença. Acho que é verdade que tem faltado essa representação. E eu lembro que há matérias em que a presença das mulheres é fundamental”, disse nessa entrevista, acrescentando: “Eu acho que a exigência da voz das mulheres na política também será uma forma de puxar por essa sociedade, por essa democracia, que sabe que o cuidado está no centro das nossas vidas”.
As sondagens posicionam-na num sexto lugar, e não há previsão que supere o melhor resultado obtido por um candidato do Bloco de Esquerda em eleições Presidenciais: o terceiro lugar de Marisa Matias em 2016, com 10,12 por cento. Apesar de os números não se mostrarem favoráveis, Catarina Martins assegura que jamais deixará de representar quem procura soluções estáveis para o futuro do país, valorizar o trabalho digno, a habitação acessível e políticas públicas que respondam às necessidades reais das pessoas.
Do teatro à política
Foi o Porto a cidade que a viu nascer, em setembro de 1973, mas parte da infância foi passada fora. Fez o primeiro ano da escola em São Tomé, onde os pais eram professores e cooperantes. No segundo e no terceiro ano, Catarina Martins estudou em Cabo Verde. E quando tinha nove anos a família regressou a Portugal, vivendo em diferentes cidades como Aveiro, Vila Nova de Gaia e Lisboa.
Mais tarde passou por Coimbra, onde começou por estudar Direito, até ao terceiro ano da licenciatura. Mas o gosto pelas artes e as letras fizeram-na mudar de rumo académico. Mudou de curso e acabou por se licenciar em Línguas e Literaturas Modernas e, posteriormente, fez mestrado em Linguística. A ex-coordenadora bloquista iniciou, entretanto, um doutoramento em Didática das Línguas.
Antes de ser conhecida pela atividade política, esteve ligada à cultura e à intervenção. Foi aliás no teatro que começou a fazer intervenção. Em Coimbra, frequentou e dirigiu o Círculo de Iniciação Teatral da Academia Teatral (CITAC), um grupo de referência na formação teatral universitária, numa época em que ainda havia poucos cursos de teatro no país. Em 1994 cofundou uma companhia de teatro profissional no Porto: a companhia Visões Úteis. Trabalhou durante mais de uma década como atriz, encenadora e criadora e esteve à frente ainda da Plateia (Associação de Profissionais das Artes Cénicas) entre 2004 e 2009.
Após o percurso no teatro, Catarina Martins chegou ao Parlamento em 2009, ainda como independente pelo círculo do Porto pelas listas do Bloco de Esquerda. Entrou no partido só em 2010, apesar de o pai ser um dos subscritores do manifesto "Começar de Novo", que deu origem a esta força política.
Dois anos depois de se filiar, passou a estar na liderança do partido entre 2012 e 2023, sendo que no início o fez em parceria com João Semedo com a "liderança bicéfala" que sucedeu à era de Francisco Louçã. A partir de 2014 assumiu, a solo, os comandos do partido. Foi na sua liderança que, nas legislativas de 2015, o BE conseguiu o melhor resultado da história do partido com mais de meio milhão de votos, 19 deputados, tornando-se na terceira força política no Parlamento.
Após esse crescimento eleitoral, juntou-se à negociação da chamada “Geringonça”, apoiando parlamentarmente António Costa para ser primeiro-ministro. Nesse mesmo ano foi escolhida pelo jornal Politico como uma das 28 personalidades políticas em destaque na Europa.
Catarina Martins conseguiu manter o partido como terceira força política em 2019, mas as eleições antecipadas de 2022, na sequência do chumbo do Orçamento do Estado, ditaram um dos piores resultados do BE, que caiu para quinta força política e ficou reduzido a cinco deputados. Um ano depois, Catarina Martins anunciava a saída da coordenação do partido.
Reapareceu no cenário político em março de 2024, quando foi escolhida como cabeça de lista do BE para as Eleições Europeias, conseguindo assegurar a eleição, embora ficando sozinha no Parlamento Europeu já que o partido perdeu um dos dois mandatos que tinha. Fugindo aos próprios planos, decidiu concorrer às Eleições Presidenciais de janeiro de 2026, uma candidatura apoiada pelo Bloco de Esquerda.