Cenários de dissolução, guerra na Ucrânia, Justiça e nova lei do lobbying. O confronto dos candidatos na rádio

Depois da passagem de ano, os debates estão de volta. Faltam 16 dias para as eleições presidenciais e a campanha começa no próximo domingo.

Andreia Martins, Joana Raposo Santos - RTP /
Foto: RTP

O debate das rádios reuniu oito candidatos e foi organizado pela Antena 1, TSF, Rádio Renascença e Rádio Observador.

João Cotrim Figueiredo, António Filipe, Catarina Martins, Henrique Gouveia e Melo, André Ventura, António José Seguro, Luís Marques Mendes e Jorge Pinto estiveram em debate durante duas horas. 

 Veja aqui o debate na íntegra
O cenário de chumbo de um OE

O debate, com transmissão em simultâneo nas quatro rádios, começou com a discussão sobre o que deve o Presidente da República fazer em caso de chumbo do Orçamento do Estado. 

André Ventura apontou críticas ao atual Presidente da República que "faz diagnósticos, faz análise, mas não é capaz de ser um presidente de ação". Sobre o Orçamento considerou que a situação irá "depender do contexto". 

Se for uma "maioria política que se esgotou", não valerá a pena apresentar um novo orçamento. "O país não pode perder tempo, tem de avançar", resumiu, dando o exemplo da Geringonça.

"Caso contrário (...) o presidente deve ser um garante de estabilidade", afirmou.

António Filipe considerou, por sua vez, que a rejeição de um OE de um Governo minoritário "não é razão constitucional para uma dissolução da Assembleia da República".

Perante uma proposta de lei que é rejeitada, um governo minoritário "tem a obrigação de encontrar suporte parlamentar para uma nova proposta".

Admite, no entanto, que possa haver situações em que o chumbo do OE "pode significar" a perda de confiança parlamentar do Governo. 

No entanto, "constitucionalmente, o que é natural é que esse Governo apresente uma proposta de um segundo orçamento do Estado", afirmou. 

António José Seguro argumentou no mesmo sentido, afirmando que o chumbo do OE "não equivale automaticamente à dissolução do Parlamento" e que o país "precisa de estabilidade e precisa de compromisso".

Para o candidato, pode ser apresentado um segundo orçamento. Considera que a governação em duodécimos é a solução "menos adequada". 

Catarina Martins ressalva que há "figuras constitucionais diferentes" e que a rejeição de um orçamento não é uma moção de censura. 

Cabe ao Parlamento "estudar formas de ter um novo orçamento". Acrescenta que os Orçamentos de Estado "não podem passar a ser instrumentos de chantagem do Governo".

Henrique Gouveia e Melo vai no mesmo sentido dos restantes candidatos, considerando que o chumbo do OE não requer a dissolução da Assembleia da República.

No entanto, diz que "tem de haver um julgamento político na altura" e se deve "medir o que se vai perder em estabilidade e o que se vai ganhar com a dissolução". 

O candidato argumentou que Portugal "precisa de reformas estruturais" e qualquer executivo "precisa de tempo de governação".

João Cotrim Figueiredo considerou que é "má ideia responder taxativamente", mas considerou que o chumbo do OE não significa moção de censura. 

O chefe de Estado deve optar pela solução que "favorece a estabilidade" mas que não deve ser "a estabilidade de resignação, estagnação ou conformismo". 

Ainda antes de responder à questão, Cotrim de Figueiredo fez várias provocações aos candidatos, apontando especificamente a António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto, que deverão "desistir" das respetivas candidaturas nos próximos 15 dias. 

Jorge Pinto considerou que a dissolução da Assembleia da República após o chumbo de um OE foi "um dos grandes erros da presidência de Marcelo" e que o atual presidente se colocou "numa má posição negocial" quando prometeu a dissolução em caso de chumbo.

O candidato considera que o atual presidente "atirou o país para este clima de microciclos políticos que não acho que seja bom". 

Por fim, afirmou que o Presidente da República "pode fomentar uma discussão orçamental mais alargada". 

Luís Marques Mendes considerou que uma questão desta natureza "só pode ser decidida caso a caso, em função das circunstâncias do momento", mas assumiu como princípio que o chumbo do OE "não deve dar lugar a uma dissolução".

Um Governo que vê o OE chumbado fica "fragilizado", mas o país "não pode andar em eleições de ano a ano".

Considerou ainda que o Presidente tem de ser árbito nestas situações e atuar "previamente", antes da apreciação do Orçamento. 

"O Presidente da República deve investir tudo em aproximar posições entre Governo e partidos da oposição", argumentou. 

Jornal da Tarde | 2 de janeiro de 2026
Presidente deve intervir junto da PGR?
Questionados sobre se um chefe de Estado deve intervir junto do procurador-geral da República em funções em casos como o que envolveu o ex-primeiro-ministro António Costa, os candidatos estiveram maioritariamente de acordo.

António Filipe defendeu que “depende do tipo de intervenção” e vincou que “o presidente da República não pode ter uma intervenção junto do procurador-geral da República que ponha em causa a separação de poderes e a autonomia do Ministério Público”, que é “um valor constitucional” que não pode ser ultrapassado.

O presidente pode, porém, manifestar preocupações em relação ao funcionamento da justiça, defendeu este candidato. “Perante situações que gerem alarme social” ou “perplexidade pública”, é “legítimo que o presidente manifeste preocupações políticas”, elucidou.

António José Seguro convergiu com a posição de António Filipe. “Vivemos num Estado de Direito, há um princípio de separação de poderes e o que mais faltava era que o presidente da República interferisse nos processos de justiça”, afirmou.

Na visão do socialista, o chefe de Estado “deve ser um garante do funcionamento das instituições” e pedir ao PGR “os esclarecimentos necessários não sobre processos, mas sobre o funcionamento da justiça”.

Questionada sobre uma eventual desistência a favor de António José Seguro, Catarina Martins foi categórica: “Eu não vou desistir”.

“Já me fizeram várias vezes esta pergunta e eu dei sempre a mesma resposta. Acho insultuoso que a pergunta continue. Eu aqui estou para defender uma democracia paritária de mulheres e homens, num país que defenda salários, acesso à saúde, habitação, numa Europa que seja capaz de propor a paz”, declarou.

Sobre a intervenção de um presidente junto da PGR, a bloquista disse ser “uma enorme defensora da autonomia do Ministério Público”, mas também “das instituições do Estado de Direito democrático”.

Por essa razão acredita que o presidente “não pode ficar calado quando há averiguações preventivas sem nenhum enquadramento legal, quando há prendas de Natal ou investigações em períodos eleitorais”.

Henrique Gouveia e Melo defendeu que a justiça tem de garantir confiança aos portugueses e não pode ser opaca nem criar um estado de vigilância sobre o poder político. “O presidente deve intervir no regular funcionamento das instituições democráticas e nesse âmbito. Não num caso específico, porque isso está completamente fora de questão”, afirmou.

Condenou ainda os “processos que se arrastam anos” na justiça ou a “divulgação de dados em determinados momentos críticos do sistema político”.

“Um segredo de justiça é mesmo um segredo de justiça e deve ser preservado até ao limite”, caso contrário “a justiça condiciona o poder político”, frisou.

João Cotrim de Figueiredo começou esta intervenção por clarificar que não irá desistir a favor de nenhum dos outros candidatos.

Sobre a PGR, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal considerou que “a separação de poderes é basilar numa democracia”, pelo que é defensor da autonomia do Ministério Público. Não quer, porém, a “ausência de escrutínio de todas as atividades” do MP.

O presidente “tem toda a legitimidade de falar e debater” com o procurador em funções “para perceber de que forma é que o Ministério Público está em articulação com a política criminal que compete ao Governo definir e que o presidente da República tem obrigação de saber”, defendeu.

Jorge Pinto afirmou, por sua vez, que desde que a intervenção não signifique “imiscuir-se no trabalho da Procuradoria-Geral”, o presidente “pode e deve” intervir.

“A separação de poderes tem de ser válida nos dois sentidos. Da mesma maneira que o poder político não pode de modo algum imiscuir-se no poder judicial, o contrário também se aplica. Não podemos ter o poder judicial a querer tornar-se um agente político, a querer influenciar o debate político”.

O candidato apoiado pelo Livre está farto que, a cada período eleitoral, haja “notícias mais ou menos filtradas pelo Ministério Público sobre uma qualquer investigação relacionada com um dos intervenientes políticos que vai a votos, muitas vezes depois sem qualquer fundamento”.

Luís Marques Mendes respondeu, sobre este tema, que um presidente “não pode nem deve ter qualquer tipo de intervenção junto da PGR, pois tal “seria gravíssimo do ponto de vista do Estado de Direito, do ponto de vista da autonomia do Ministério Público”.

“O presidente pode fazer pedagogia pública relativamente a várias matérias. Relativamente a processos em concreto, seja o primeiro-ministro envolvido, seja quem for, um presidente da República não pode intervir nem pedir explicações”, elucidou.

Condenou ainda o “excesso de corporativismo” que disse existir no Ministério Público, assim como a morosidade na justiça e o facto de haver “uma justiça para ricos e outra para pobres”.

André Ventura estranhou a posição dos seus adversários e questionou: “se tivermos um primeiro-ministro acusado de corrupção não vamos tocar num caso concreto?”.

“Há situações e situações. Nós temos tido pela Europa toda. Quando há casos de corrupção que envolvem diretamente primeiros-ministros (…) sim, o chefe de Estado tem de ter uma palavra a dizer e tem de exigir explicações”, defendeu.

Para o candidato apoiado pelo Chega, o presidente tem de ser exigente na luta contra a corrupção e capaz de intervir. “Não é nos casos concretos, mas se membros do Governo (…) estão envolvidos em casos de corrupção, de branqueamento, etc., então o presidente tem que ter uma palavra”, declarou.Troca de acusações sobre almoços
António José Seguro quis referir que nunca teve qualquer “almoço secreto” com outros candidatos presidenciais. Henrique Gouveia e Melo – que chegou a almoçar com André Ventura - disse querer responder à “indireta”, garantindo que não houve um “almoço secreto”, mas sim um almoço “privado”.

“Relativamente aos almoços e aos motivos dos almoços, cada um tem os seus. Os meus são conhecer os atores políticos”, disse o almirante.

André Ventura também quis responder, acusando António José Seguro de mentir quando disse, recentemente, não se ter encontrado com o líder do Chega. “Sabe bem que já estivemos [juntos] e até lhe fica mal dizer que nunca estivemos”, atirou.

O socialista esclareceu que nunca tiveram nenhuma reunião nem nenhum encontro, o que o líder do Chega voltou a contrariar, assegurando que já esteve com o socialista e que falaram de política.
Hierarquia no Ministério Público
Questionado sobre o presidente deve sensibilizar o Governo a clarificar a lei sobre quem responde perante quem dentro do Ministério Público, António José Seguro disse não considerar que a questão da hierarquia seja a questão determinante.

“Se falar com empresários da nossa praça verifica as dificuldades que existem e o tempo que as pendências nos tribunais fiscais e administrativos têm no nosso país”, lembrou.

António José Seguro disse ainda ser necessário distinguir “a avaliação política” que, como presidente da República, fará, daquilo que são os processos judiciais.

“O Estado de Direito é para manter em todas as circunstâncias, e o que mais faltava era que o presidente da República interferisse em processos judiciais. Isso seria inaceitável”, declarou.

“Outra coisa é a avaliação política que o presidente fará. E eu não deixarei de fazer avaliações políticas em qualquer circunstância e de pedir esclarecimentos, em primeiro lugar, aos próprios”, prometeu.

Catarina Martins
vincou que o presidente não tem capacidades legislativas e concordou que existem outros debates mais prementes sobre a justiça do que o da hierarquia, nomeadamente “a autonomia do Conselho Superior do Ministério Público em relação ao próprio MP para que haja o necessário escrutínio e controlo”.

Considerou ainda que “um dos maiores problemas no nosso país” a nível de segurança é a violência doméstica e vincou que “as magistraturas não atuam como deve ser para proteger e para não haver a continuidade”.

Henrique Gouveia e Melo disse que “o presidente não é um ator passivo da política” e, por isso, “quando julga que qualquer coisa está mal (…) deve instar os órgãos que têm poder para mudar a olhar para o problema”.

“Há uma perceção que a justiça é lenta, que não é equitativa e que pode ou não ter a tendência de intervir na política, quebrando a barreira da separação de poderes”, lembrou, considerando que só o facto de existir essa perceção é mau e deve preocupar o presidente.

Defendeu ainda que o MP “deve ter uma orgânica em que seja escrutinado”.

Concordando com Catarina Martins sobre a questão da violência doméstica, o almirante vincou que “evoluímos de uma cultura machista que está em mudança, mas continua” e mostrou-se preocupado.

João Cotrim de Figueiredo disse não entender “os paninhos quentes” dos adversários quanto à questão da hierarquia no Ministério Público e defendeu que esta deve ser clarificada. “Sim, dez vezes sim”, frisou.

“Estamos todos de acordo que é insuficiente o escrutínio sobre aquilo que o MP faz e não faz, ou até a forma ou a altura como faz” e “não temos a quem perguntar”, criticou.

No caso da violência doméstica, o liberal lembrou que quando era deputado perguntou ao Conselho Superior de Magistratura o que tinha acontecido ao juiz Neto Moura após ter feito “um acórdão absolutamente inenarrável”.

“A reposta foi que eu, enquanto deputado da nação, era uma interferência do poder político sobre o poder judicial”, condenou. “Se não me respondem a mim, respondem a quem?”.

Jorge Pinto
lembrou os esforços, iniciados em 2018, para que existisse um pacto na justiça, o que não chegou a concretizar-se.

“A hierarquia deve ser clara”, defendeu ainda, destacando um “equilíbrio de forças” no qual “por um lado queremos ter mais autonomia dos procuradores e de quem faz a investigação” e por outro lado “uma certa xerifização desta autonomia, em que os procuradores têm uma liberdade absoluta de fazerem o que entendem ser prestarem contas a ninguém”.

Para Luís Marques Mendes, “a hierarquia não está a funcionar corretamente e o caso mais significativo é que (…) há cerca de seis anos que está no tribunal administrativo um processo de impugnação de uma decisão da anterior procuradora-geral da República, Lucília Gago, que no exercício dos poderes de hierarquia estabeleceu um conjunto de diretivas para o funcionamento do MP”.

“Esta matéria não está a funcionar. Praticamente não se fala disto, quando isto é uma questão séria”, alertou. “Convinha que o tribunal administrativo não demorasse outros seis anos a tomar uma decisão sobre esta matéria”.

André Ventura condenou, por sua vez, a “tentativa” de “nomear procuradores-gerais” para “atrasar e proteger determinadas pessoas”.

“Nós podemos ter uma clarificação hierárquica, mas alguém acha que é por clarificar que (…) vai resolver os problemas da investigação criminal e do Ministério Público?”, questionou.

Defendeu a existência de “atores na justiça que não tenham medo de agir nem que estejam condicionados por ninguém em cima”.

“Não podemos ter poderes de pescadinha de rabo na boca em Portugal, em que quem se anda a investigar é quem foi nomeado pelo mesmo ou quem colocou os amigos no mesmo sítio”, acrescentou.

António Filipe disse ser fundamental que, quando os poderes hierárquicos são exercidos, “esse exercício seja transparente e seja registado no processo”, ou seja, um magistrado “tem de ter autonomia interna para fazer a investigação e, se houver algum poder hierárquico que decida intervir nessa investigação isso deve ser claro no processo”.

“Essa transparência é fundamental”, defendeu, chamando ainda a atenção para outros problemas na justiça, como a falta de recursos ou a morosidade.
Nova lei do lobbying
Questionados sobre a mudança para um mandato único na Presidência da República, a posição é unânime: todos os candidatos discordam dessa possibilidade. 

Em relação à nova lei do lobbying, há posições diferentes. João Cotrim de Figueiredo considera que é “um passo no sentido certo”. 

“É positivo e algumas das grandes entidades que têm feito atividade de lobby teriam pelo menos de as ter registadas”, apontou, considerando que se trata de um “avanço importante para a transparência da relação entre negócios e política”. 

Jorge Pinto afirmou que “o essencial é a transparência” e que a nova lei do lobbying versa “uma pequena parte” do problema. 

Considerou que se deve assegurar o poder de influência e “garantir que todos têm voz”, independentemente dos seus meios financeiros. 

Luís Marques Mendes não é taxativo sobre a nova lei vai ser ou não suficiente. Considerou que se deve aguardar pela sua aplicação, mas que “uma lei em concreto nunca é suficiente”.

O candidato apontou, no entanto, que “uma coisa é o escrutínio, outra coisa é a devassa e a insinuação”, situação que “começa a dar cabo da democracia”. 

E foi mais claro sobre as críticas de que tem sido alvo: “Há situações nesta campanha que degradam a democracia”.

Afirmou que tais palavras não são uma “crítica” mas antes “um pedido de reflexão”. 

“Um candidato tem responsabilidade na qualidade e aperfeiçoamento da democracia. Temos de ajudar com o clima e atmosfera que se cria”, concluiu. 

André Ventura considerou que a nova lei do lobbying é um “passo relevante”, mas que não vai ser suficiente.
A nova lei vai “permitir que se conheçam as reuniões, os interesses, a capacidade de influência que uns têm e outros não”.

Deu ainda o exemplo da Operação Influencer como uma situação de lobbying que “não ficou registada”, com suspeitas que há alguns interessados num segmento de negócio “não só convenceram a legislar e legislaram”. 

António Filipe
apontou, por sua vez, que a regulamentação do lobby é uma falsa questão e que a nova lei vai legalizar de certa maneira o tráfico de influências. 

Deu ainda o exemplo da União Europeia onde existem “enormes escândalos de corrupção”. 

“Há um gravíssimo problema na democracia” de “promiscuidade entre poder político e económico”, argumentou, lembrando os negócios da TAP ou a privatização dos CTT, entre outros exemplos. 

“A utilização de funções públicas para beneficiar interesses privados é um problema gravíssimo”, concluiu, afirmando que nestes “escândalos” é possível ver a “morosidade da justiça”. 

António José Seguro considera que a nova lei do lobbying “vem no sentido certo”. 

“Mais transparência é sempre boa para combater a criminalidade e a corrupção, que é uma chaga social”, afirmou.
Defendeu ainda a implementação de planos de prevenção de corrupção numa altura em que o país se prepara para ter um investimento público “elevadíssimo”. 

Catarina Martins disse que a nova lei “não é suficiente”, recorrendo ao exemplo europeu: “Há uma lei do lobby no Parlamento Europeu e há eurodeputados que foram presos por favorecerem o Catar e Marrocos”, assinalou. 

“Não foi a regulamentação que nos protegeu nem da corrupção nem do tráfico de influências”, afirmou ainda, considerando que se deve aprender com “experiências em que o lobby é muito forte”, dando o exemplo do impacto do lobby do tabagismo. 

Considerou que a transparência do financiamento e a transparência dos percursos de candidatos e titulares de cargos políticos “é fundamental” e acusou o Chega de obter financiamento de privados “que estiveram no negócio da TAP que está sobre investigação criminal”. 

André Ventura vincou que o Chega tem um financiamento “transparente” e respondeu diretamente a António José Seguro, apontando que o atraso na lei do lobby se deve ao PS. 

Henrique Gouveia e Melo afirmou que a lei do lobby é um passo importante no registo dos interesses, mas não é suficiente e considerou que se deveria criminalizar o enriquecimento ilícito. 

André Ventura insistiu, neste ponto, na necessidade de uma “revisão constitucional”, lembrando que o Tribunal Constitucional “chumbou por duas vezes o enriquecimento ilícito”. 

De seguida, numa ronda rápida de respostas, os candidatos responderam se já recusaram algum negócio ou reunião por conflito de interesses. 

Jorge Pinto afirmou que “não sofre desses males” e Marques Mendes afirmou que “recusou convites”, insistindo que nunca teve problemas com a Ordem dos Advogados, Autoridade Tributária, nem com o Ministério Público.

“Fui claro, fui escrutinado e bem, forneci todos os esclarecimentos” afirmou, lembrando ainda os 18 anos em que esteve “fora da vida política ativa”. 

André Ventura afirmou que recusou ligações a um clube de futebol e reconheceu as várias investigações de que já foi alvo, sendo que “foi tudo arquivado”. 

António Filipe respondeu que nunca fez negócios: “Para além de deputado fui professor”, explicou. 

António José Seguro lembrou que não tem cargos públicos nem políticos há 11 anos. 

“Desde que anunciei a minha candidatura recusei convite de uma empresa para ir assistir a um jogo de futebol”, acrescentou.

Catarina Martins afirmou que recusou reuniões com outros Estados e Embaixadas, “nomeadamente com estados que ofendem os Direitos Humanos”. 

Gouveia e Melo afirmou que “nunca” teve tais problemas e assinaou que a advocacia “é uma profissão que obriga a estar inscrito na ordem dos Advogados”.

Cotrim Figueiredo afirmou que nunca cancelou nenhuma reunião por conflito de interesses e que cessou as suas atividades empresariais “ no momento em que decidi ser candidato a deputado em 2019”. 
Referendo sobre tropas portuguesas na Ucrânia
Questionado sobre se o eventual envio de tropas portuguesas para integrarem tropas de manutenção de paz na Ucrânia deve passar por referendo, Luís Marques Mendes considerou que não.

“Não. Não me parece, de forma nenhuma”, frisou. “Se eventualmente existir um acordo de paz, um acordo de cessar-fogo, acho que há um ponto essencialíssimo para a Ucrânia, mas também para nós europeus, que são as garantias de segurança contra uma eventual ameaça ou invasão futura por parte da Rússia”.

Quanto à eventual participação de tropas portuguesas na força de paz, considerou ser “cedo para tomar uma posição”, devendo aguardar-se pela evolução dos acontecimentos.

André Ventura acredita que devemos dar “apoio incondicional” à Ucrânia, mas considerou que o presidente não deve “incentivar” a ida de tropas portuguesas para esse país.

“Acho que até no quadro da NATO (…) Portugal pode optar pela participação por outras vias, seja de formação, seja de apoio médico, seja de apoio humanitário”, declarou. “Ninguém quer estar a perder jovens nem a gastar centenas de milhões de euros quando não há dinheiro para a habitação, para a saúde, para a justiça”.

António Filipe disse, por sua vez, que o referendo “não é constitucionalmente possível”, já que “só pode ter lugar sobre matérias de interesse geral que devam ser decididas por ato legislativo ou convenção internacional”.

“Em tempo de paz, não vejo um interesse nacional que deva ser defendido com o envio de tropas portuguesas para a Ucrânia”, defendeu.

António José Seguro, “se nos pedem que as nossas tropas profissionais vão para ajudar a manter a paz, naturalmente que isso seria um gesto de solidariedade e também de defesa dos nossos interesses quer como europeus, quer como portugueses”.

“Mas eu diria que essa decisão tem de ser vista em concreto, no momento certo e preservando ou até alargando a manutenção de um consenso entre todos os órgãos de soberania e as forças políticas”, acrescentou.

A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, Catarina Martins, vincou que “um referendo não tem sentido nem é constitucional”, pelo que “está fora de questão neste caso”.

“Portugal já esteve envolvido em missões de manutenção de paz de que seguramente todos nos orgulhamos, mas é preciso saber que paz é essa para percebermos se tem sentido ou não”, defendeu.

Henrique Gouveia e Melo concordou que “a questão não é de referendo”, mas sim de “algum voluntarismo e bastante ingenuidade”, já que “naquele cenário da Ucrânia, qualquer força de manutenção de paz pode ser imediatamente envolvida num conflito”.

“Eu não sou a favor dessa participação. Sou a favor da participação nos acordos de defesa coletiva, que são os da NATO. A não ser que tenhamos interesses nacionais fortíssimos, como é o caso da RCA, porque temos uma política própria em África”, considerou, acrescentando que “isto não é uma questão de orgulho” e que “temos de ter cuidado onde vamos fazer as nossas apostas”.

João Cotrim de Figueiredo acredita que o apoio à Ucrânia “não pode deixar de ser incondicional” e apelou o presidente russo, Vladimir Putin, de “tirano com ambições expansionistas”.

“Sim, é um interesse vital português garantir que não há, no extremo oriental da Europa, um tirano com ambições imperialistas”, até porque “já temos ameaças híbridas russas diárias”, mas concordou que devemos “evitar que os nossos jovens vão para lá”.

Jorge Pinto garantiu que, se for presidente, nunca permitirá que tropas portuguesas sejam usadas “numa invasão ilegal ao arrepio do direito internacional”, cenário que “está em cima da mesa”.

No entanto, no cenário de uma missão de paz estaria de acordo. “Tenho muito orgulho quando oiço notícias de missões de manutenção de paz dos capacetes azuis das Nações Unidas em partes distintas do mundo” que incluem portugueses.
A figura do representante da República para as regiões autónomas

Questionados sobre a pertença à maçonaria ou a uma sociedade discreta ou secreta, todos os candidatos, sem exceção, rejeitam qualquer ligação de forma direta e perentória. 

Já sobre a manutenção do cargo de representante da República para regiões autónomas, Cotrim Figueiredo considera que é uma figura anacrónica, enquanto Jorge Pinto afirma que não se “choca” com a existência deste cargo desde que favoreça a ligação com o Presidente da República e as regiões. 

Marques Mendes considera que se trata de matéria da Assembleia da República, mas considera “importante pensar a relação com regiões autónomas”, acrescentando que o Estado português “continua muito centralista”. 

André Ventura afirmou que o cargo “é absolutamente redundante hoje em dia” e um “desperdício de dinheiro”. Por sua vez, António Filipe lembra que a figura foi amplamente consensualizada na revisão constitucional de 2004 e que se justifica manter “porque a relação que o Presidente da República” tem com os órgãos das regiões “não deve ser exatamente que mantém com os órgãos de soberania da República”. 

António José Seguro afirmou ter participado nesta revisão constitucional. “A relação permanente entre presidência da República e as regiões autónomas deve ser assegurada e parece-me que é uma forma suficientemente eficaz”, vincou.

Catarina Martins considerou que este ponto é matéria de discussão do Parlamento mas reconheceu que, enquanto deputada, considerou que se trata de uma figura “anacrónica”. Argumentou que “há outras formas de aprofundamento da autonomia”.

Por último, Gouveia e Melo aponta que esta é uma questão da Assembleia de República, mas considerou que “o modelo pode evoluir”. Atualmente “não há necessidade de ter aquela figura” e o modelo existente é “quase um modelo colonial”. 
Bandeiras, monólogos e submarinos
André Ventura garantiu que não vai promover a sua fotografia em salas de serviços públicos. “Não vou promover nada. O que eu gostava de ver era a bandeira nacional em todas”, disse, defendendo ainda o fim “das bandeiras LGBTQ, dos dias de orgulho gay e lésbico”, defendendo “o dia do orgulho nacional”.

Questionado sobre se levaria Vladimir Putin ou Volodymyr Zelensky a um jogo do Belenenses contra o Benfica, o candidato comunista António Filipe respondeu: “nenhum deles, não estão muito interessados em jogos do Belenenses”.

Já António José Seguro disse admitir convidar o ex-primeiro-ministro António Costa para um Conselho de Estado especial. “Era o que mais faltava que o presidente do Conselho Europeu não pudesse ser convidado para um Conselho de Estado”, afirmou.

A Catarina Martins foi perguntado quem escolheria para representar um monólogo de teatro. A candidata disse que não escolheria nenhum e criticou que, neste debate, se tenha falado de “poucas questões que têm a ver com as condições concretas de vida do país”.

Gouveia e Melo disse que, entre Marques Mendes e André Ventura, “não convidaria ninguém” para uma viagem de submarino “porque é só para profissionais”.

Cotrim de Figueiredo respondeu, por sua vez, que se falhar a Presidência da República não admite tentar a presidência do Benfica, apesar de já ter sido “desafiado suficientes vezes para isso”.

Jorge Pinto admitiu fomentar o debate sobre a semana de quatro dias no Palácio de Belém, assim como “outro debate que esteve ausente hoje”: o do “risco de termos uma revisão constitucional drástica apenas a um lado do espectro político na nossa Assembleia da República”.

Luís Marques Mendes disse não saber quem teria ter melhor futuro como comentador entre Luís Montenegro ou Pedro Passos Coelho. “Deixo essa questão para pessoas mais criativas do que eu”, afirmou.


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