"Chicana" e "número mediático". Parlamento chumba queixa de Ventura contra Marcelo por "traição à pátria"

por Andreia Martins - RTP
Foto: António Pedro Santos - Lusa

Só os deputados do Chega votaram a favor da queixa que o próprio partido apresentou na Assembleia da República. Todos os outros parlamentares votaram contra o requerimento de um processo contra o presidente da República por "traição à pátria", depois de um debate tumultuoso com a troca de duras acusações.

Na derradeira sessão sobre o tema, no Parlamento, a deputada socialista, Isabel Moreira, defendeu o relatório onde se conclui que não houve indícios de traição à pátria nas palavras do presidente da República.

Em causa estão as declarações do presidente da República, que há cerca de três semanas defendeu que o país deveria estudar eventuais reparações às antigas colónias portuguesas.

No que André Ventura e o Chega viram palavras de “traição à pátria”, todos os restantes partidos viram um “número mediático” e uma tentativa de criar “chicana” política. No final da discussão, uma ampla maioria recusou-se a abrir um processo contra o chefe de Estado. Todos os deputados votaram contra à exceção do Chega.

Isabel Moreira defendeu que o presidente da República “não cometeu qualquer crime” e que o Chega apenas pretende condenar à prisão quem de si discorda.

Numa sessão ainda muito marcada pelos acontecimentos desta manhã no Parlamento, em que o presidente da Assembleia da República se recusou a censurar André Ventura quando este teceu considerações sobre “o povo turco”, a deputada socialista lembrou declarações polémicas de André Ventura no passado sobre várias comunidades. “As palavras, quando carregadas de mentira e de ódio, não são só palavras”, vincou.

Sobre as acusações contra o presidente da República, a deputada acusou o Chega de demonstrar “uma valentia do tamanho de um pin, mole e murcha”.

“Os portugueses foram sujeitos a esta chicana porque o Chega é anti-Abril”, acusou ainda.

Em resposta, André Ventura recomendou ao PS para que “aprenda a amar a pátria portuguesa”. Desvalorizando o combate à homofobia e à transfobia, o líder do Chega defendeu que o Parlamento “devia iluminar-se para todos os portugueses” e sublinhou as preocupações do partido perante as “ameaças” na Baixa do Porto ou quando “as mulheres portuguesas eram violadas na nossa terra”.

De seguida, o líder parlamentar do PSD deixou críticas à deputada socialista por ter iniciado o debate com uma intervenção fora do âmbito do tema em discussão. Algo que foi aproveitado pelo próprio Chega, ao “alimentar o populismo e fazer crescer os extremismos”, com um discurso em que André Ventura “falou para o Tik Tok”, censurou.
"O povo elegeu-nos para trabalhar"
A partir deste ponto, foi uníssona a crítica contundente ao partido e à proposta apresentada contra o presidente da República. António Filipe, do PCP, foi incisivo: “Acabemos com esta fantochada. O povo elegeu-nos para trabalhar”.

O deputado comunista considerou que a proposta do Chega apenas foi apresentada porque as primeiras críticas ao presidente da República não deram a André Ventura “tantas horas de televisão como estava à espera”.

De seguida, Pedro Neves de Sousa considerou que este foi mais um contributo do Chega “para a degradação da vida política” de forma a conseguir “mais tempo de antena”. O deputado do PSD acusou ainda o partido de se ter baseado em “pareceres voadores não identificados”, considerando que esses pareceres jurídicos que sustentaram o requerimento “não existem”.

O social-democrata classificou ainda o debate como “inócuo”, “descabido” ou mesmo “desalinhado com o bom senso”, a partir de uma iniciativa que nasceu de “má-fé política” e que, considerou, constitui “uma traição aos portugueses que depositam nesta Assembleia e no Governo de resolver os problemas”.

Inês Sousa Real, do PAN, falou em “número mediático” que viola os “deveres de urbanidade” e que ocupou dois dias de debate.

Noutra curta intervenção, o deputado Paulo Núncio, do CDS, pediu: “Passemos a assuntos sérios”. Classificou ainda o requerimento apresentado pelo Chega como “absurdo” e vincou, sobre as palavras de Marcelo, que “erro e crime não são a mesma coisa”.
Ventura e Chega "desleais à pátria"
Rui Rocha, da Iniciativa Liberal, censurou André Ventura por “abastardar a política portuguesa em nome dos seus interesses pessoais”. Considerou que o Chega levou “um forte enxovalho do ponto de vista jurídico” mas também “do ponto de vista do bom senso”.

Exigiu ainda que André Ventura trouxesse ao debate os quatro alegados pareceres em que baseou a queixa. “Não se acobarde”, vincou, considerando que esses pareceres “não existem”.

Outra intervenção incisiva foi a de Rui Tavares. O deputado do Livre lembrou que, ainda que esteja ideologicamente distante de Marcelo Rebelo de Sousa, considera o presidente “um cidadão patriota que quer o melhor do seu país”.

O presidente “nunca foi a Espanha celebrar o líder de um partido em cujo mapa não aparecia Portugal como fez o preponente”, acusou, referindo-se ao apoio de Ventura ao VOX.

Por outro lado, considerou que o que é desleal à pátria é “fazer um mau uso das suas instituições”, com “processos espúrios” e “innuendos racistas”.

Acuso André Ventura e o Chega de serem desleais à pátria”, concluiu, acrescentando que o partido e o seu líder “querem dividir os portugueses”.

Seguiu-se o bloquista Fabian Figueiredo, que acusou o Chega de ataque à liberdade de expressão com uma acusação contra o presidente que considerou ser “um logro, ridícula em toda a linha”.

“Querem mandar o PR para a cadeia por ter uma opinião diferente do Chega”, incriminou o deputado do Bloco de Esquerda, apontando que o partido quer criar “um ambiente insuportável” ao degradar as instituições democráticas para “criar a doença para depois vender a cura”.
"São todos contra o Chega"
Depois de todas estas intervenções, André Ventura insistiu na acusação a Marcelo Rebelo de Sousa por “traição brutal à nossa pátria” e apontou o dedo aos restantes partidos.

“São todos, mesmo todos, contra o Chega. São todos contra a grande maioria dos portugueses que se sentiu traída, ofendida e vilipendiada pelas palavras de Marcelo”, vincou.

O líder do Chega afirmou ter “orgulho” em toda a história de Portugal, assinalando que o PR afirmou que os portugueses foram “racistas e esclavagistas e que devíamos pagar por isso”.

Na reta final de um debate muito inflamado, André Ventura expressou o desejo de que eventuais filhos que venha a ter “saibam que houve um partido que se levantou” quando “um presidente da República disse que devíamos pagar pela nossa história”. 

No final do debate, apenas o Chega votou a favor do requerimento apresentado pelo próprio partido, com todos os restantes partidos a rejeitarem a proposta.
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