Política
Custo de vida incendiou as ruas. Um sismo europeu com epicentro em França
Do direito à Habitação ao direito à Educação, o futuro do continente europeu está ser moldado por aquilo que está a acontecer nas ruas. "França espirrou e a Europa, mais uma vez, constipou-se", lembra o jornal britânico The Guardian em editorial. Grupos de encapuzados têm invadido os protestos e transformam o que era pacífico em violento. Argumentos para o Governo francês apresentar uma lei que "significaria o fim das manifestações de rua".
O caminho agreste, árido, é terreno fértil para os protestos que começaram com adolescentes franceses numa escola secundária em setembro. O rastilho acendeu-se e o que começou por ser, em França, a defesa por melhores condições de ensino abriu caminho para outras causas e reivindicações. Em Portugal e em Espanha a questão central é a habitação. Em Lisboa e no Porto repetem-se as cargas policiais, os feridos e os detidos.
Consequências da ação da polícia portuguesa e dos confrontos com manifestantes para desmantelar à bastonada acampamentos improvisados.
Contra os custos da habitação unem-se em protesto as vozes contra o aumento do custo de vida e de salários baixos em Portugal.
Em Espanha, o caso Mari Carmen sobrelotou Madrid, mais concretamente a Praça Portas do Sol. O movimento de protesto nasceu com o despejo de uma idosa de 87 anos, María del Carmen Abascal, que acabou por morrer hospitalizada.
Em Itália, o movimento Italia in Piazza (Itália nas Praças) mobiliza milhares de manifestantes que exigem melhores condições de trabalho, também na saúde, na educação e no direito à habitação. Havendo pontos em comum com França, alguns manifestantes italianos já entoaram palavras de ordem em francês.
Na Grécia, os manifestantes exigem respostas e queixam-se de falta de verbas para Educação. Na Alemanha, os estudantes estão contra a eventual reintrodução do serviço militar obrigatório. Está já marcado um protesto em 21 cidades alemãs no próximo sábado, 31 de outubro. De acordo com a Deutsche Welle, estima-se que saiam milhares às ruas para protestar contra a austeridade, as falhas na educação, a crise climática e a injustiça social.
Na Bélgica, estudantes também protestaram contra o aumento das taxas de matrícula nas universidades. Em Tirana, capital da Albânia, há semanas que grandes manifestações estão a ser alimentadas pela indignação contra a corrupção, a falta de empregos e a falta de qualidade do sistema educativo.
Muitos dos protestos têm sido impulsionados pela frustração e ansiedade dos jovens europeus quando tentam vislumbrar o futuro. “Os jovens enfrentam um forte sentimento de incerteza e perda de controlo", afirma, em declarações à Deutsche Welle, a professora de sociologia María Silvestre, da Universidade de Deusto, no País Basco, em Espanha.
“Na base de tudo isto está a rutura do contrato social. Há toda uma geração que antecipa, com razão, que vai ter piores condições de vida do que os pais. É compreensível que sintam revolta”, escreve o Guardian.
A desigualdade que denunciam está a aumentar e “faz com que vejam outros enriquecerem, por vezes lucrando diretamente com a sua própria desventura, com os apartamentos e as casas a serem tratados como instrumentos financeiros, e não como lares”, refere o editorial.
As manifestações têm tido, por norma, raiz pacífica. No entanto, estão a ser alvo de grupos de encapuzados que se infiltram nos protestos para destruir. Este é o cenário certo para os partidos de extrema-direita, através de falsas narrativas, tirarem proveito da agitação social e exigirem "mão forte" para repor a ordem.
Por exemplo, em França vários movimentos associativos e sindicatos têm vindo a alertar que os protestos pacíficos estão a ser ofuscados pela violência. Não distinguir uns de outros serve à narrativa que sustenta a repressão de protestos. As pilhagens e a violência deram ao governo razão para decretar o recolher obrigatório em bairros de algumas cidades. A violência que tem invadido diversas manifestações abriu caminho a que o Senado francês vá debater a proposta do Governo conhecida como lei de “pagar por atos de vandalismo”.
A legislação estabelece que um manifestante, mesmo sem ser diretamente responsável pela destruição, pode ser responsabilizado a pagar até dez mil euros por danos e atos de vandalismo. O projeto de lei prevê ainda uma maior utilização de drones durante as manifestações.
O texto deste projeto de lei foi originalmente elaborado na sequência de violentos confrontos ocorridos após a vitória do Paris Saint-Germain sobre o Arsenal na Liga dos Campeões, em maio.
No entanto, o primeiro-ministro francês considera que a proposta se tornou “absolutamente essencial” perante o que tem acontecido em recentes manifestações um pouco por toda a França. Sendo certo que o texto avança numa altura em que o Governo enfrenta dificuldades para conter a atual crise. Para além disso, Marine Le Pen, do partido de extrema-direita e anti-imigração Rassemblement National, fortaleceu a posição como favorita para as eleições presidenciais na primavera de 2027. Por outro lado, as vozes que estão contra o projeto de lei do Governo francês avisam que a aprovação do texto “significaria o fim das manifestações de rua” em França.
Uma vez que as pessoas não iriam correr o risco de serem responsabilizadas e obrigadas a pagar até dez mil euros por atos de vandalismo que não cometeram.
Numa carta aberta ao jornal Le Monde, a Liga dos Direitos Humanos de França e os sindicatos de esquerda consideram que o projeto “constitui um grave ataque à liberdade de manifestação" que "deve ser abandonad".
"Caso contrário, corre-se o risco de um grande retrocesso para o Estado de direito".
"Caso contrário, corre-se o risco de um grande retrocesso para o Estado de direito".