Candidatos do Chega, Bloco de Esquerda, Livre e PAN em debate

por Mariana Ribeiro Soares, Andreia Martins - RTP
Foto: Pedro Pina - RTP

Os candidatos do Chega, Bloco de Esquerda, Livre e PAN debateram esta quarta-feira na RTP no segundo confronto televisivo dos partidos a caminho das eleições europeias de 2024, que se realizam a 9 de junho. Imigração, a guerra na Ucrânia, investimento em Defesa, o alargamento e a transição climática foram os temas em cima da mesa.

Imigração

No debate desta quarta-feira, moderado por Carlos Daniel, o tema da imigração foi o primeiro a ser abordado pelos candidatos. 

António Tânger Corrêa, cabeça-de-lista às europeias pelo Chega, sublinhou que o partido quer uma imigração "controlada", ainda que reconheça que o país precisa de imigrantes devido a uma "taxa de natalidade muito fraca".

Questionado sobre se a abertura do país depende da origem dos migrantes, o antigo embaixador elogiou a imigração brasileira, argumentando que esta trouxe vantagens a Portugal nos serviços com um atendimento "muito melhor e muito mais humano".


Tânger Corrêa alerta que os "maus elementos" só entram "quando se abrem as portas de forma escancarada" e que o problema é a entrada de pessoas "sem haver o mínimo de escrutínio".

De seguida, a antiga líder bloquista, Catarina Martins, acusou o candidato do Chega de fazer um discurso que espalha a "xenofobia e o discurso de ódio", separando as nacionalidades de imigrantes "entre boas e más".

Para a cabeça-de-lista do Bloco de Esquerda, o maior problema que assola a Europa no momento atual é mesmo a "extrema-direita" e que "não se pode fazer de conta que há uma onda descontrolada".

Em concreto sobre a imigração, Catarina Martins vincou que as fronteiras da UE estão "fechadas" e que o Mediterrâneo é a "fronteira mais mortífera" do mundo.

No caso de Portugal, há um "problema de regularização" das pessoas que já estão no país e já fazem descontos para a Segurança Social. São por isso exploradas de três formas, argumenta a responsável bloquista: pelo Estado, pelos senhorios e pelas empresas.

Francisco Paupério, do Livre, voltou a defender "corredores humanitários" para as populações que estão em situações de emergência, nomeadamente climática.

Em resposta ao candidato do Chega, o cabeça-de-lista do Livre argumenta: "Nós não temos as portas escancaradas, as pessoas para entrarem cá têm de ter regras".

Através de uma "coordenação europeia", a UE deve controlar quem cumpre ou não os requisitos para entrar. Com um futuro em que 200 milhões de pessoas vão estar em circulação pelo mundo devido às alterações climáticas, Francisco Paupério defende que o acolhimento e as respostas a dar devem ser pensadas com tempo.

Do PAN, Pedro Fidalgo Marques considera que há bons exemplos de integração da imigração no território português, lembrando o caso do Fundão, em Portugal.

A nível das políticas migratórias, o candidato do PAN assinala que o atual pacto das migrações "pode afetar portugueses que vão para a Europa", com a possibilidade de detenção de qualquer pessoa durante cinco dias caso não tenha documentos consigo.

Para o candidato do PAN, é necessário "garantir salários para toda a gente", nacionais e imigrantes, e assinalou que o seu partido já apresentou no Parlamento nacional o estatuto de refugiado climático.

Crítico da postura da UE em relação à imigração, Fidalgo Marques enfatiza que as autoridades europeias "estão a denunciar barcos à Líbia", onde os Direitos Humanos não são respeitados.

Ainda nesta temática, o candidato do Chega lembrou os imigrantes que estão em Portugal a viver "em condições completamente desumanas" junto à igreja dos Anjos, em Lisboa. 

Recordando a sua experiência diplomática, Tânger Corrêa considera que os migrantes e refugiados vivem com melhores condições em campos de refugiados da Jordânia ou do Egito, por exemplo, do que em tendas em Portugal, observação que foi prontamente criticada pelo candidato do PAN.
Guerra na Ucrânia
O conflito entre a Ucrânia e a Rússia e o respetivo papel da União Europeia foi o segundo tema em cima da mesma neste debate.

Para Francisco Paupério, a Europa “não deve intervir em termos militares porque isso seria escalar o conflito”. “Temos de ir atrás da paz e não da escalada do conflito”, defendeu.

O cabeça de lista do Livre defende que a UE deve ter “uma política externa única” e que deve ser “um espaço neutro de negociação”. “Não deve ser a UE a decidir sobre o território ucraniano”, defendeu.

Pedro Fidalgo Marques considera que “apoiar a Ucrânia significa apoiar a liberdade e o projeto europeu” e, por isso, deixa claro que para o PAN “é inequívoco que se tem de garantir o apoio” a Kiev.

O cabeça de lista do PAN sublinha, no entanto, que “não podemos ser utópicos” e achar que “tudo se resolve só com negociações”. “É óbvio que é necessário um apoio militar à Ucrânia, mas não se pode esquecer em paralelo o caminho da negociação e da diplomacia”.

Para Catarina Martins, a UE “tem tido um caminho de enorme cinismo” em relação à Ucrânia, considerando que falhou por não ter apresentado uma estratégia autónoma para a paz na Ucrânia. “A Ucrânia tem direito a defender-se, mas é preciso um caminho para a paz”, salientou.

“A UE tem uma capacidade económica neste território que não tem comparação e, por isso, se a UE tivesse uma articulação para a diplomacia para a paz conseguiria resultados diferentes de outros interlocutores”, considera a antiga líder bloquista.

Já António Tânger Corrêa considera que uma das soluções para o conflito entre Kiev e Moscovo pode passar pela “integridade territorial total da Ucrânia e uma cooperação que assegura à Rússia uma cintura de segurança feita pela própria Ucrânia”.

O cabeça de lista às europeias pelo Chega é, no entanto, contra a cedência de territórios ucranianos à Rússia, considerando que isso “levaria a uma paz mal feita”.

“É preciso apoiar a Ucrânia para não ir para a mesa das negociações numa posição de inferioridade”, argumentou.
Investimento em Defesa

Pedro Fidalgo Marques, do PAN, considera que é necessária uma maior integração da União Europeia, com uma “resposta multinacional”, sem que haja um “exército europeu”.

“Temos de reforçar a nossa segurança mas numa ótica integrada, não vale a pena estarmos todos a fazer o mesmo”, reforçou.

Para Catarina Martins, a Europa “só não tem independência estratégica porque não quer” e “gasta mais em defesa em percentagem do PIB do que a Rússia e a China”. Critica de novo o “eurocinismo” que “utiliza a Ucrânia para o caminho que sempre quis”.

A bloquista rejeita que sejam elementos externos como Donald Trump a impor os termos da discussão. “A paz tem de ser a missão para a União Europeia”, vincou. 

Neste ponto, Pedro Fidalgo Marques do PAN sugeriu a taxação de lucros excessivos com uma contribuição extraordinária por parte da indústria de defesa “para combater todos os danos que a guerra provoca”.

Por sua vez, Tânger Corrêa considerou que o investimento de 2 por cento do PIB em defesa “é o mínimo” e que estar equipado “é uma forma dissuasão”. Defendeu um investimento público-privado na indústria de defesa e não vê a Rússia como a maior ameaça para a Europa.

“Neste momento Putin está bastante ocupado com o conflito na Ucrânia”, afirmou.

Sobre a importância da defesa, o antigo diplomata veiculou a teoria de que os japoneses não invadiram os Estados Unidos durante a II Guerra Mundial por receio de uma “população civil armada”. 

Catarina Martins foi altamente crítica desta ideia, considerando que é “irresponsável” e própria de uma “política criminosa”.
Alargamento da UE
O alargamento da União Europeia a outros países, nomeadamente a Ucrânia, foi outro dos temas em debate na noite desta quarta-feira.

Para Francisco Paupério, é preciso “olhar para o alargamento como a continuação de um projeto europeu de paz e solidariedade”.

No caso do alargamento do bloco a leste e aos Balcãs, o cabeça de lista do Livre considera que pode “criar uma estabilidade europeia”. No caso da agricultura, “obviamente que vai transformar a agricultura europeia, mas possivelmente até vai contribuir para a questão da segurança e independência alimentar que nós queremos”, defendeu.

O candidato do Livre considera ainda que todos os candidatos devem seguir o mesmo ritmo no processo de entrada na UE. “A democracia e Estado de direito têm de estar salvaguardados e não podemos acelerar por questões geopolíticas”, afirmou.

Pedro Fidalgo Marques defende que o alargamento da UE “nunca deve ser encarado como um problema” e que o fim da entidade será “quando nos fecharmos sob nós próprios”.

“É um processo que tem de ser ponderado mas nunca fechando a porta a países que precisam”, asseverou.

“Temos de olhar com uma perspetiva de termos novas culturas, novos povos”, defendeu o cabeça de lista do PAN às europeias, considerando, no entanto, que é necessária uma reorganização da instituição.

Catarina Martins defende que um alargamento requer uma mudança nas políticas, nomeadamente dos tratados.


“Os tratados são impossíveis de utilizar quando há uma crise. É preciso mudar tratados”, defendeu a antiga líder bloquista, lembrando que a UE não respeitou nenhum tratado na altura da compra conjunta de vacinas para a covid-19.

António Tânger Corrêa disse discordar do presidente francês quando afirmou que a Europa é mortal porque as instituições podem morrer.

O cabeça de lista do Chega discordou ainda do candidato do Livre relativamente aos processos de entrada dos países na UE, defendendo que “cada país é que vai ditar a velocidade da sua adesão à UE”.
Transição climática
No campo da transição climática, Francisco Paupério disse que o que distingue o Livre do PAN “é que o Livre separa a justiça social de justiça ambiental e nos assumimos de esquerda”.

“O que nos difere do PAN é esta visão mais integrada e sistémica do ambientalismo, em que não podemos separar as pessoas, a parte social, os problemas das pessoas”, explicou.

Pedro Fidalgo Marques, por sua vez, observou que muitas das medidas apresentadas pelo Livre no campo da transição climática são medidas que o PAN já defendeu.

Nas questões que dividem o Livre do PAN, Pedro Fidalgo Marques destacou a questão do aeroporto, lembrando que o Livre concordou com a solução de Alcochete, ao contrário do PAN.

Tânger Corrêa disse considerar-se ambientalista e afirmou mesmo que o Chega “é o primeiro a preservar o ambiente”
porque é “o partido mais votado no mundo rural e não há ninguém que trate melhor do ambiente do que o mundo rural”.

Catarina Martins defende que sem transição climática não há criação de riqueza e deixou um desafio ao Livre: “Em vez de estar nos Verdes, o Livre poder estar verdadeiramente na esquerda e fazermos parte de uma aliança”.

Em resposta, Francisco Paupério disse que o Livre “está muito feliz nos Verdes europeus porque tem três pilares basilares que é a democracia, ambiente e direitos humanos e essas são as prioridades dos verdes”.
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