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Governo não sabe de nada e banco desmente

Governo não sabe de nada e banco desmente

O gabinete do primeiro-ministro não comentou o alegado oferecimento de informação aos Estados Unidos por parte do presidente do BCP, antes se centrando no conhecimento do Governo sobre as actividades daquele banco no Irão. E, dessas actividades, o Governo nega qualquer conhecimento. Na oposição, levantam-se dúvidas e pedem-se esclarecimentos adicionais.

RTP /
Alegadamente, o Governo estava completamente no escuro sobre os contactos iranianos do BCP José Coelho, Lusa

Segundo uma fonte do gabinete do primeiro-ministro, citada pelo diário Público, José Sócrates "não tem, nem nunca teve, conhecimento de qualquer actividade comercial do BCP no Irão". Um outro desmentido oriundo da área do Governo refere-se a um aspecto diferente: o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, actualmente em Bruxelas, negou conhecer o alegado oferecimento do presidente do BCP, Carlos Santos Ferreira, para transmitir aos Estados informações sobre o sistema financeiro do Irão.

Segundo a agência Lusa, Amado comentou: "Não tive conhecimento. Ouvi falar disso pela primeira vez ontem à noite". e acrescentou: "Eu não tenho que me pronunciar sobre o que os chefes de missão acreditados em Lisboa decidem valorizar na relação que fazem com as instituições e os agentes privados". Há portanto um matiz considerável entre os desmentidos de Amado e de Sócrates: o chefe da diplomacia nega conhecer um oferecimento aos Estados Unidos, o primeiro-ministro nega conhecer sequer alguma actividade do BCP no Irão.

BCP desmente ideia "falsa e fantasiosa"

Ora, o BCP admite em comunicado ter realizado uma viagem ao Irão, a convite da Embaixada desse país em Lisboa, da qual não terá resultado qualquer acordo comercial. E admite igualmente ter feito "diligências junto de entidades europeias e americanas para avaliar a situação e perspectivas da evolução das sanções diplomáticas e económicas que vigoram nas relações com o Irão".

O que o mesmo comunicado do BCP desmente categoricamente é "a simples ideia de partilha de informação [com os Estados Unidos, sobre o Irão]", contida em telegrama da Embaixada norte-americana, de 11 de Fevereiro deste ano e hoje citada pelo diário espanhol El Pais. E desmente-a como "falsa e fantasiosa". O banco justifica também os seus contactos com o irão, reivindicando para si próprio um "comportamento exemplar, na tentativa de conciliar o interesse das missões empresariais portuguesas com as restrições diplomáticas impostas pelas Nações Unidas ao Irão, país com o qual Portugal mantém relações diplomáticas".

Banco de Portugal não comenta telegrama

Conhecimento dos contactos do BCP com o Irão, tinha-o também o Banco de Portugal, que admite ter sido "previamente informado pelo Banco Comercial Português de uma visita de uma delegação daquela instituição a Teerão". O Banco de Portugal terá advertido o BCP sobre as "medidas restritivas [em vigor] contra o Irão, designadamente os procedimentos específicos a observar pelas instituições financeiras nas suas actividades com entidades financeiras sedeadas no Irão".

Mais conhecedor do que Sócrates sobre os contactos iranianos do BCP, o Banco de Portugal é, porém, tão omisso como o primeiro-ministro sobre o telegrama da Embaixada norte-americana e sobre o oferecimento de espionagem económica aí imputado ao presidente do BCP.

Embaixada dos EUA cala-se, Portas aplaude silêncio

O "chefe de missão acreditado em Lisboa", a que aludia Luís Amado, era neste caso o embaixador dos Estados Unidos e o documento em causa o seu telegrama de 11 de Fevereiro. E esse "chefe de missão" não comentou a publicação do telegrama no El Pais, porque, segundo afirma a Embaixada em nota enviada à agência Lusa, "por uma questão de política interna, o Departamento de Estado não comenta documentos alegadamente derivados de uma fuga de informação".

Também a Embaixada do Irão, contactada telefonicamente pelo site da RTP, se escusou para já a emitir qualquer comentário.

No mesmo sentido, o líder do CDS-PP observou que "a correspondência diplomática é reservada ou secreta porque visa defender o interesse dos Estados" e com esse fundamento recusou tecer outras considerações sobre o telegrama.

Mas acrescentou, em resposta a uma jornalista: "Assim como a senhora não gostaria que violassem a sua correspondência e eu não gostaria que um dia violassem a correspondência das embaixadas portuguesas, também não vou contribuir com uma única palavra para discutir aquilo que é uma violação da correspondência diplomática de outro país". E rematou: "Se eu disser uma palavra sobre o conteúdo, estou a ser cúmplice ou mesmo a patrocinar aquilo que eu considero que é um atentado contra a segurança do Estado".

BE admite "quebra de confidencialidade"

Longe da posição de Paulo Portas, o Bloco de Esquerda reclama do Banco de Portugal uma explicação sobre as negociações entre o BCP e o Irão e, por outro lado, admite que o alegado oferecimento de informações aos Estados Unidos possa configurar um crime: "Atendendo a que a disponibilidade demonstrada pelo presidente do Millenium/BCP junto do governo dos Estados Unidos violaria grosseiramente o dever de confidencialidade devido pelas instituições bancárias, podendo configurar crime, ao abrigo das disposições legais em vigor, importa um esclarecimento cabal sobre esses documentos".

O comunicado do BE assinado pelo deputado Jorge Costa anuncia ainda a entrega de um requerimento daquele partido na Assembleia da República, colocando várias questões entre as quais sobre a resposta do Banco de Portugal "às pretensões do BCP".

PSD e PCP querem esclarecimentos

O dirigente da bancada parlamentar social-democrata, Miguel Macedo, prometeu em entrevista à TSF que não irá aceitar o silêncio de Carlos Santos Ferreira, o presidente do BCP: "Considero relevante, disse, aquilo que o senhor presidente do BCP tiver a dizer sobre esta matéria, que necessita de explicação [considerando] a sua importância e dimensão".

Por seu lado, o líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, considerou que as revelações do El Pais, baseadas em informação ainda não publicada no site de Wuikileaks, "a confirmarem-se, são bastante graves e exigem um esclarecimento que deve ser prestado pelo próprio banco, de forma cabal, mas também pelo Governo".

Cabe além disso, segundo Bernardino Soares, uma particular responsabilidade ao Banco de Portugal, porque é ele "o regulador do sector financeiro e não pode alhear-se de toda esta questão e não pode deixar de dizer aos portugueses se foi ou não envolvido neste processo, que conhecimento teve dele e que apreciação faz da matéria que está agora a vir a público".
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