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Incêndios de Pedrógão. As consequências da tragédia e o "choque" na relação entre Marcelo e Costa

Incêndios de Pedrógão. As consequências da tragédia e o "choque" na relação entre Marcelo e Costa

Foi um dos momentos mais trágicos da história da democracia portuguesa. A 17 de junho de 2017, o incêndio que ainda hoje marca a vida de milhares de pessoas, fazia mais de 60 vítimas mortais, mas representava também o início de um caminho de "tensão" nas relações entre o Governo socialista liderado por António Costa e o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

João Alexandre - Antena 1 /
Foto: Nuno André Ferreira - Lusa

Nas horas e nos dias seguintes, foram-se adensando as dúvidas sobre a forma como tinha corrido a resposta e o socorro às populações, mas também as certezas de que muito havia para explicar no sistema de emergência.

No terreno, ao lado da Ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa - e quando o tempo ainda era de acorrer às populações -, o presidente da República segurava o Governo. "O que se fez foi o máximo que se poderia ter feito", dizia o Chefe de Estado, enquanto apelava à união dos portugueses e guardava para mais tarde todas as críticas: "Já temos muitas frentes pela frente. Não vamos juntar mais frentes".
Uma semana depois da tragédia, presidente da República e primeiro-ministro exigiam esclarecimentos sobre as falhas nas comunicações e na rede SIRESP. No parlamento, Constança Urbano de Sousa pedia, de forma emocionada e voz embargada, a compreensão dos deputados: "Claro que seria muito mais fácil demitir-me. E, correspondendo à vontade de alguns, que consideram que uma demissão seria, no fundo, a solução". Por seu turno, também perante os deputados, António Costa admitia o peso dos acontecimentos. "Se querem ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas. E, se não o fiz antes, não é por não sentir menor peso na minha consciência".

Nas semanas que se seguiram, foram dezenas as deslocações ao terreno - nos vários concelhos afetados, sobretudo na zona centro do país - acompanhadas por pedidos de estudos e auditorias. E, era em agosto que uma visita à região juntava Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, ainda antes de estalarem as maiores polémicas relacionadas com os donativos feitos para a reconstrução de habitações.

"Penso que é útil que quem de direito esclareça aos portugueses que só uma parte dos fundos é gerida pelo Estado e que toda a outra parte é gerida por outras entidades", sublinhava Marcelo, que apelava, à época, a que a tragédia não fosse usada durante as eleições autárquicas de outubro e se fizesse um "pacto durante três semanas".

Nas entrelinhas, um recado ao primeiro-ministro, ao Governo do PS e à oposição poucas semanas antes de ser conhecido o relatório final sobre os incêndios do início do verão - que indicava falha humana e fragilidades na organização da Proteção Civil. "Portugal aguarda as consequências que o Governo irá retirar", insistia Marcelo Rebelo de Sousa, numa afirmação lida, na altura, como mais uma exigência de demissão da ministra com a pasta da Administração Interna.Um Governo em campo e um presidente da República "chocado" com a falta de respostas
Depois da tensão crescente provocada pelas trágicas consequências dos incêndios do início do verão, a 15 de outubro de 2017, ou seja, quatro meses depois, Portugal voltava a ser assolado por uma vaga de incêndios intensificada pela passagem do furacão Ophelia. Na avaliação da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, o dia era mesmo identificado como "o pior do ano em matéria de incêndios florestais", e levaria à morte de mais 50 pessoas - a fazer subir para mais de uma centena o número total de vítimas desde os grandes incêndios junho.

No olho do furacão, o Governo de António Costa e, mais uma vez, as falhas no socorro às populações. A partir de Oliveira do Hospital - e com muitos jornalistas, autoridades e autarcas presentes numa das zonas mais afetadas -, Marcelo Rebelo de Sousa apontava o dedo ao Governo e não deixava nada por dizer.

"O Presidente exige que o Governo tire todas, mas todas as consequências da tragédia"
, afirmou o Chefe de Estado, que, após a opção de censura apresentada pelo CDS-PP, acrescentava que o parlamento deveria "clarificar se quer ou não manter em funções o Governo".

Segundo Marcelo, em mais um recado ao Executivo socialista, era a "condição essencial" para, em caso de resposta negativa, se "evitar um equívoco", e de, no caso de resposta positiva, "reforçar o mandato para as reformas inadiáveis". No mesmo sentido, do presidente da República - ainda a meio do primeiro mandato -, a garantia de que o Palácio de Belém iria estar mais do que atento ao tema.

"É um dos testes decisivos ao cumprimento do mandato que assumi. Impõem-no milhões de portugueses, mas, sobretudo, os mais de cem portugueses que tanto esperavam da vida no início do verão de 2017 e que não chegaram ao dia de hoje", dramatizou.

Poucas horas depois das duras críticas do Presidente da República, António Costa confirmava a demissão da ministra da Administração Interna e, nas páginas dos jornais, escrevia-se que o Governo teria ficado "em choque" com as posições de Marcelo. "Chocado ficou o país com a tragédia vivida. Um país que, naturalmente, esperou uma palavra dirigida às vítimas e que espera, com urgência, a reparação", dizia o Presidente, em resposta aos jornalistas.

E, para o Governo e António Costa, um novo recado sobre a forma como teria sido encarado todo o processo de resposta as populações.

"Quem olha para a realidade na base de um destino especulativo não entendeu e não entende nada do que se passou em Portugal nas últimas semanas", lamentava Marcelo, na fase final de um dos episódios que, defenderam vários analistas, terá deixado marcas na relação entre Belém e São Bento.

Outros, viram no momento apenas um pico de crispação, sem feridas por sarar - foi o que garantiram fontes próximas e até conselheiros de Estado. No final de um ano que, quase uma década depois, ninguém esquece, e que fez António Costa declarar-se como um "otimista" capaz de uma total "cooperação institucional" e perante as questões colocadas na praça pública por um presidente da República que assegurava nada ter de hostil para com o Governo.

"Não tinha nada a ver com nada de tático ou de estratégico ou de pessoal. Não. Era o que eu verdadeiramente senti e sinto. Ou isto serve para mudarmos mesmo de vida ou, então, o que é que andamos a fazer aqui", questionava o presidente da República.
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