João Soares demite-se após promessa de bofetadas a cronistas

| Política

João Soares na tomada de posse do XXI Governo Constitucional, a 26 de novembro de 2015
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O ministro da Cultura apresentou esta sexta-feira a António Costa a demissão das suas funções, invocando razões de solidariedade com o Executivo. João Soares não resistiu à polémica aberta por um post que escreveu no Facebook, a prometer “salutares bofetadas” aos cronistas do Público Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente.

“Torno público que apresentei esta manhã ao senhor primeiro-ministro, António Costa, a minha demissão do XXI Governo Constitucional. Faço-o por razões que têm a ver com a minha profunda solidariedade com o Governo e o primeiro-ministro, e o seu projeto político de esquerda”, escreveu João Soares numa nota enviada à agência Lusa.

No mesmo texto, o ministro demissionário sublinha “o privilégio que representou” o facto de ter integrado o Governo socialista.“Se ofendi alguém, peço desculpa”, havia já declarado na quinta-feira João Soares.

“E ter trabalhado com o primeiro-ministro, a quem agradeço a confiança. Demito-me também por razões que têm a ver com o meu respeito pelos valores da liberdade. Não aceito prescindir do direito à expressão da opinião e palavra”, enfatiza o antigo presidente da Câmara de Lisboa.

Na última noite, o próprio primeiro-ministro saíra a público para pedir desculpa a Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente, os cronistas a quem João Soares prometera “salutares bofetadas”.


“Tanto quanto sei o doutor João Soares já pediu desculpa aos visados pela forma como se expressou. Eu pessoalmente quero também expressar publicamente desculpas a duas pessoas, a Augusto M. Seabra, por quem tenho particular estima, e a Vasco Pulido Valente, por quem tenho consideração”, reagiu António Costa, à entrada para um espetáculo no Teatro da Comuna, em Lisboa.

E acrescentou: “Obviamente já recordei aos membros do Governo que, enquanto membros do Governo, nem à mesa do café se podem deixar de se lembrar que são membros do Governo e portanto devem ser contidos na forma como expressam as suas emoções”.
“A minha intenção não foi ofender”
Palavras de António Costa que acabaram por escancarar a João Soares as portas de saída do XXI Governo Constitucional.“Nos próximos dias entregarei ao senhor Presidente da República um nome de uma personalidade que substitua o doutor João Soares”, perspetivou António Costa.

Já depois de conhecido o pedido de demissão, ao início da tarde desta sexta-feira, o primeiro-ministro quis “agradecer” a “colaboração” e a “energia” do antigo autarca enquanto membro do Executivo.

“Naturalmente respeito e aceito a avaliação que ele fez das condições que tinha para prosseguir no exercício destas funções”, afirmou Costa.

Antena 1

Na véspera, em nota igualmente remetida à Lusa, o ainda ministro da Cultura afiançava que não fora sua intenção “ofender”. “Se ofendi alguém peço desculpa”, escreveu.

“Sou um homem pacífico, nunca bati em ninguém. Penso que a liberdade de opinião não pode ser confundida com insultos e calúnias pessoais, atentatórias da honra e do bom nome de cada um”, continuava João Soares, para alegar que se limitara a redarguir a um “ataque pessoal insultuoso, com uma figura de estilo de tradições queirosianas”.
“Não foi uma surpresa”
Entretanto ouvidos pela Lusa, os cronistas visados no post de João Soares dividiram-se entre “alguma” e nenhuma surpresa com o desfecho do caso.

Augusto M. Seabra foi quem manifestou “alguma surpresa”, embora considerando a que a decisão do ministro foi “a mais saudável” e “a melhor do ponto de vista ético”. Já Vasco Pulido Valente estimou que Soares “não tinha outra saída”, pelo que “não foi uma surpresa”.

Na passada quarta-feira surgiu na edição eletrónica do jornal Público um artigo de Augusto M. Seabra com o título “Tempo velho na cultura”. O texto que conduziria à polémica resposta no Facebook advertia para “uma situação de emergência” no sector tutelado por João Soares.

“Que um governante se rodeie de pessoas de confiança é óbvio. Mas no caso do gabinete de Soares trata-se de uma confraria de socialistas e maçons”, escrevia o cronista e programador cultural, que repudiava decisões de Soares como a nomeação de Elísio Summavielle, "um velho apparatchik”, para o lugar de António Lamas no Centro Cultural de Belém.

Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir. Não me cuzei com a...

Publicado por João Soares em Quarta-feira, 6 de Abril de 2016
Já Vasco Pulido Valente havia assinado no início de março um artigo em que declarava não ter por João Soares “qualquer respeito nem como homem, nem como político”.

Também escrevendo sobre a substituição de António Lamas, Vasco Pulido Valente sustentava que o governante “podia ter chamado discretamente o presidente do CCB para o demitir, alegando, como está no seu direito, falta de confiança política ou pessoal”.

“Mas João Soares preferiu fazer do incidente um espetáculo público. Ameaçou o dr. Lamas, exibiu os seus poderes (que lhe vêm exclusivamente do cargo) e no fim ainda se foi gabar para a televisão. Não se percebe o motivo de toda esta palhaçada, excepto se pensarmos que ele é no governo um verbo-de-encher e que o PS o atura por simples caridade”, rematava.

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