Leitão e Cotrim acusam comunicação social de alimentarem polémica sobre acusações de assédio. "Vocês têm noção do que fizeram à minha vida?"

Depois de uma ação de campanha, em Santo Tirso, os jornalistas posicionaram-se, como sempre, para ouvir o candidato, mas foi Cotrim de Figueiredo quem marcou o ritmo do momento.

Oriana Barcelos /

Foto: Oriana Barcelos

"Antes das vossas perguntas queria fazer uma declaração", disse o liberal, já em direto nas televisões. E assim começaram as hostilidades da Iniciativa Liberal com os jornalistas - uma animosidade que continuou à noite, no jantar de campanha, com a presidente do partido.

No encontro com os apoiantes, em Matosinhos, os maiores aplausos talvez tenham pertencido a Mariana Leitão, a líder da Iniciativa Liberal. E as reações mais efusivas aconteceram quando a líder partidária falou dos jornalistas. "É lamentável que a comunicação social, em busca de polémicas gratuitas, se tenha demitido de fazer o seu trabalho mais básico, ao ponto de a calúnia fácil, mesmo sobre matérias graves, sem qualquer tipo de evidências ou provas, passar a ser tomada como facto consumado", disse Mariana Leitão, com aclamação da assistência.

Dois apoiantes do candidato liberal à Presidência da República, contagiados pelas palavras da líder do partido, não contiveram a vontade de, também eles, comentarem o trabalho das rádios, jornais e televisões que estão a acompanhar a agenda de Cotrim de Figueiredo. "Escreva isso bem escrito", atira um dos apoiantes; "atenção, isto é assédio", diz outra, enquanto toca numa das jornalistas que estão sentadas à mesa, a trabalhar. 

A hostilidade no jantar de campanha foi reflexo da declaração de Cotrim de Figueiredo, à tarde, em direto nos canais noticiosos. O candidato liberal centrou todas as atenções na comunicação social, acusou os jornalistas de serem cúmplices do que chamou de "assassinato de caráter" - o dele. Durante quase 15 minutos, Cotrim de Figueiredo acusou os jornalistas de prestarem um mau serviço à democracia, de trabalharem mal. "Vocês têm ideia do que é que fizeram à minha vida?", perguntou.

Em causa, a acusação de assédio que está, pelo menos desde domingo, a circular nas redes sociais. Segunda-feira, na Covilhã, João Cotrim de Figueiredo foi confrontado com as perguntas da comunicação social - que decidiu não ignorar a fotografia de uma publicação, feita no Instagram, que visava o candidato. Nessa publicação, que chegou aos jornalistas nesse dia à tarde, uma ex-assessora do grupo parlamentar da Iniciativa Liberal acusa o candidato de proferir afirmações consideradas impróprias. 

A equipa do candidato foi avisada de que o assunto seria tema, e as perguntas foram feitas depois, com o candidato a negar todas as acusações, com o rascunho da resposta na mão. O liberal viria a admitir, na terça-feira, que já sabia da partilha da denúncia nas redes sociais. Foi assim que justificou, aliás, as declarações que fez sobre eventuais cenários da segunda volta na corrida Belém, quando disse que não excluiria ninguém - nem Ventura. "Foi um dia difícil", reconheceu Cotrim, na altura.

Hoje, Cotrim de Figueiredo deixou de falar apenas em campanhas "sujas", e atirou aos jornalistas, acusando-os de o encostarem à parede e de o obrigarem, nesse dia, a dar uma resposta em público, sem terem procurado ouvir a outra parte. A Antena 1 tentou. A alegada vítima só hoje decidiu pronunciar-se, por escrito, através da Agência Lusa, o que trouxe, mais uma vez, o assunto a lume.

O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal não gostou da insistência no assunto, "quatro dias". "Não sei que raio de jornalismo é este", afirmou Cotrim de Figueiredo, voltando, ele próprio, a pôr o assunto na agenda. E voltou a fazê-lo, à noite, no jantar de campanha. "Por isso eu digo, com emoção e serenidade, mas sem rodeios, olhando-vos nos olhos, a campanha suja, feita de insinuações e de ruído, que questiona sem verificar e acusa sem provar não funciona e não vai funcionar", exclamou o candidato liberal, sem ser questionado por ninguém.

Na reta final da campanha a Belém, Cotrim de Figueiredo não consegue descolar-se das polémicas que marcaram a semana. E agora procura na comunicação social um novo adversário. 
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