Mau tempo troca as voltas a Ventura com mira quase sempre apontada ao Governo
A depressão Kristin, que afetou o país na última semana, levou o candidato presidencial André Ventura a adaptar a campanha e a trocar os ataques ao adversário por críticas ao Governo na gestão da crise.
Nos primeiros dias, enquanto Seguro amealhava apoios de notáveis à direita, Ventura ensaiava uma nova separação de águas. Trocou em parte a ideia de um bloco socialista contra outro não socialista - que defendeu na noite eleitoral - por uma luta entre o povo, representado pela sua candidatura, e as elites "à direita, à esquerda e ao centro", que procurou colar ao candidato apoiado pelo PS.
"Nunca tanto isto foi uma luta do povo contra as elites", afirmou, considerando também que está em causa um movimento contra si, e não tanto de apoio a António José Seguro.
O candidato presidencial acusou Seguro de estar "refém do sistema de interesses" e de não ter capacidade de decisão, depois de o adversário o ter acusado de ser "um risco para a democracia".
Num contexto de crise, Ventura lançou alguns ataques ao atual chefe de Estado, mas teve quase sempre a mira apontada ao Governo, criticando a falta de preparação, a resposta e os apoios assegurados pelo executivo de Luís Montenegro, distribuindo críticas a vários ministros: "Parece que é um desfile de membros do Governo a ver qual deles afronta mais as pessoas, qual deles goza mais com as pessoas".
Durante uma ação de campanha pela zona afetada, Ventura recuperou a frase do antigo primeiro-ministro Passos Coelho -- "que se lixem as eleições" -, repetindo ao longo dos vários dias que, perante a tempestade, só lhe interessava estar junto das pessoas e que os votos não o preocupam, numa altura em que as sondagens apontam para uma vitória folgada do adversário.
Numa campanha em que poucas vezes se ouviu a palavra "vitória", Ventura, que é também líder do partido Chega, atirou para o pós-eleições: "Depois do dia 08 de fevereiro não haverá mais outra conversa de direita, nós seremos a direita".
Com a passagem da tempestade e os efeitos que teve, em especial no Centro, o candidato decidiu adaptar a campanha ao momento que o país atravessa, com uma agenda que é dada a conhecer aos jornalistas apenas ao final da tarde ou noite do dia anterior.
A primeira mudança aconteceu logo um dia após a passagem da depressão, com o candidato a decidir fazer uma ação de campanha em Leiria, onde ouviu críticas de aproveitamento político por parte de munícipes e, mais tarde, do presidente da Câmara.
Perante os efeitos do mau tempo, o líder do Chega trocou os habituais comícios, jantares e arruadas por visitas curtas a locais afetados e ações a que chamou de "sessões de esclarecimento", em que falou para apoiantes.
Ventura chamou também a comunicação social para o filmar e fotografar a carregar bens destinados às populações afetadas para uma carrinha -- gesto que repetiu mais uma vez, quando estava em campanha no Norte do país. Além da recolha de bens, também se filmou a dobrar lonas para as redes sociais, onde publicou um vídeo da retirada de `outdoors` da sua campanha que seriam dados às vítimas da intempérie.