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Morreu Almeida Santos, pedra angular do PS

Morreu Almeida Santos, pedra angular do PS

Morreu na última noite, pouco antes das 0h00, António Almeida Santos. O histórico socialista tinha 89 anos. O corpo ficará em câmara ardente na Basílica da Estrela, mas, por indicação deixada pelo presidente honorário do PS, não haverá serviço religioso.

Paulo Alexandre Amaral - RTP /
António Cotrim - Lusa

De acordo com fonte familiar, Almeida Santos sentiu-se mal depois do jantar, tendo ainda sido assistido, mas acabaria por falecer em sua casa, em Oeiras.Almeida Santos foi presidente da Assembleia da República e ministro de Estado do Governo liderado por Mário Soares (1983/1985).

O presidente honorário do PS faria 90 anos a 15 de fevereiro, mas tinha já um historial de problemas cardíacos, com duas cirurgias cardiovasculares.

A sua morte foi lamentada por vários amigos, socialistas e personalidades da vida política portuguesa. Uma das vozes que entretanto se ouviram foi a de Mário Soares.

O antigo Presidente da República e fundador do Partido Socialista lamentou a morte do amigo através de uma mensagem enviada à agência Lusa: "Mário Soares está profundamente triste com a morte do seu amigo Almeida Santos".
"Um dos obreiros da descolonização"
António Costa foi apanhado pela notícia à chegada a Cabo Verde, onde realiza por estes dias a sua primeira visita de Estado. À Lusa, o primeiro-ministro disse que foi com “enorme choque” que recebeu “a notícia da morte de Almeida Santos”.

Trata-se da “perda de um grande amigo, de um camarada”, lamentou António Costa já na Praia, para quem Almeida Santos “foi um homem extraordinário, um grande legislador, que construiu o Estado de Direito a seguir ao 25 de Abril de 1974. Um grande combatente pela liberdade e um dos obreiros da descolonização”.O primeiro-ministro enviou “um abraço a todos os socialistas, que estão neste momento a sofrer com muita pena, mas também à sua mulher, filhos e netos. É uma amizade que eternamente manteremos com António de Almeida Santos”.

“Estou perante a perda de uma grande amigo, de um camarada, alguém com uma extraordinária vitalidade. Ainda no domingo todos o pudemos ver a discursar no apoio à candidatura presidencial de Maria de Belém”, declarou o primeiro-ministro.

Almeida Santos foi “um homem extraordinário, um dos grandes legisladores que construiu o Estado de Direito democrático após o 25 de Abril de 1974, um dos obreiros da descolonização e um homem que ao longo de toda a sua vida pública, como deputado, como membro do Governo, presidente da Assembleia da República, ou presidente do PS, deu sempre tudo do melhor que sabia e tinha ainda tanto para dar à democracia e às ideias em que acreditava”.

"É com enorme tristeza que soube do seu falecimento. António Almeida Santos era das pessoas que nos levava a acreditar que havia vida eterna na terra. Era um miúdo quando comecei a ouvir Almeida Santos a falar na televisão e fez parte do meu crescimento e de toda a minha formação. É com profunda tristeza que o vejo partir", acentuou o líder do executivo.
Almeida Santos , 1926-2016
António Almeida Santos nasceu em Cabeça, Seia, e passou a infância em Vide, terra do pai. Entrou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, para em 1950 concluir a licenciatura em Direito. Dos tempos da academia ficou-lhe o fado, sendo intérprete do canto e da guitarra de Coimbra.

Três anos depois, em 1953, estabeleceu-se como advogado em Moçambique, na cidade de Lourenço Marques, atual Maputo. Aí viveu durante duas décadas, desempenhando como um dos mais importantes defensores dos presos políticos.

Em contacto com o nacionalista Filipe Mussongui Tembe Júnior – Filipana – integrou a defesa pela autodeterminação de Moçambique.

Filipe Pinto, Marcelo Sá Carvalho - RTP

Almeida Santos esteve ainda no Grupo dos Democratas de Moçambique e foi candidato, por duas vezes, às eleições para a Assembleia Nacional, em listas da Oposição Democrática. A Administração Colonial anulou a candidatura em ambos os casos.

Após o 25 de Abril de 1974 regressa a Portugal, dando início a uma longa carreira política: de acordo com a listagem da Wikipédia, seria ministro da Coordenação Interterritorial dos I, II, III e IV Governos Provisórios e ministro da Comunicação Social do VI Governo Provisório; ministro da Justiça, no I Governo Constitucional, altura em que aderiu ao Partido Socialista; e foi ministro-adjunto do primeiro-ministro, no II Governo Constitucional.

Teve um papel determinante na revisão constitucional de 1982, que erradicou o Conselho da Revolução; foi ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares, no Governo do Bloco Central, de 1983 a 1985; liderou o PS nas legislativas de 1985, averbando frente a Cavaco Silva uma das maiores derrotas dos socialistas.

Foi conselheiro de Estado (1985-2002), presidente da Assembleia da República e presidente do PS (1992-2011), tendo sido um dos mais próximos colaboradores de Mário Soares.

A 25 de Abril de 2004 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e a 6 de junho de 2008 a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.
O construtor da democracia
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, destacou o trabalho de Almeida Santos na construção de algumas das “traves mestras” da primeira legislação democrática, destacando a força das suas palavras e das suas convicções.

Santos Silva, que acompanha o primeiro-ministro na visita oficial a Cabo Verde, falou aos jornalistas à chegada à capital do país, Praia: “Devem-se a António de Almeida Santos algumas das traves mestras que constituíram a primeira legislação democrática. Assinalo a sua participação muito importante no processo de descolonização, mas, muito antes disso, foi também um combatente pela liberdade, um grande advogado e um jurista insigne”.

O MNE português abordou ainda a fase Moçambique, uma das mais controversas da vida de Almeida Santos, lembrando que o presidente honorário do PS “se distinguiu pelas suas propostas de descolonização pacífica”.

“Depois do 25 de Abril de 1974, como membro do Governo, como deputado e como presidente da Assembleia da República, deu sempre o melhor de si à causa pública. Tive a oportunidade de trabalhar com ele como deputado, quando Almeida Santos era presidente da Assembleia da República, mas, naturalmente, também, aprendi com o seu exemplo no PS. A força da sua palavra e a força das suas convicções vão fazer-nos muita falta”, acrescentou Augusto Santos Silva.
O resistente antifascistaDomingos Abrantes
A democracia portuguesa “perdeu um dos seus construtores. Endereço as minhas condolências ao PS, algo que o PCP não deixará de fazer. Como conheci pessoalmente Almeida Santos, aproveito para endereçar as minhas condolências à sua família pela sua morte”.

O dirigente histórico comunista e membro do Conselho de Estado lamentou a morte de Almeida Santos, que classificou como “um resistente antifascista” que deu um contributo para a institucionalização da democracia em Portugal.

“Almeida Santos deu um contributo quer à resistência antifascista, quer à construção da democracia”, declarou Domingos Abrantes também a partir da cidade da Praia, onde está a convite do Governo de Cabo Verde para a inauguração do Museu do Campo de Concentração do Tarrafal.

Almeida Santos “foi um oposicionista ao Estado Novo e um democrata. Naturalmente, lamentamos a perda de um resistente. Com as suas caraterísticas próprias deu uma contribuição para a institucionalização da democracia portuguesa”.
O mundo não fica igual
A última intervenção pública de Almeida Santos aconteceu durante o fim-de-semana numa ação de campanha de Maria de Belém Roseira na Figueira da Foz.

Frederico Moreno - Antena 1

Sabida a notícia, a candidata socialista decidiu suspender todas as iniciativas da sua candidatura até ao funeral do dirigente do PS. Sublinhou ainda que o mundo não fica igual quando pessoas como António Almeida Santos morrem.

“Era uma pessoa com uma sabedoria e uma serenidade extraordinárias. Com uma inteligência absolutamente fantástica. Pessoas destas fazem sempre uma enorme falta quando desaparecem e o mundo não fica igual”, declarou à SIC Notícias.

Maria de Belém lamenta o desaparecimento do camarada e amigo: pessoas da craveira de Almeida Santos “fazem sempre falta e são absolutamente insubstituíveis. Era um grande amigo, um grande democrata, um grande vulto da política nacional. Era uma pessoa muito serena, muito firme, muito pura, muito bondosa e sempre disponível para ajudar e participar em tudo em que ele pudesse acrescentar alguma coisa e acrescentava sempre”.

c/ Lusa
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