Morreu Varela Gomes, figura histórica da resistência à ditadura

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Morreu esta segunda-feira o coronel João Varela Gomes. Durante a guerra colonial, então com o posto de capitão, foi o primeiro a pegar em armas contra a ditadura de Salazar; e foi, no 25 de Novembro de 1975, o último a depor as armas quando chegava ao fim a "Revolução dos cravos".

Na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, o então capitão Varela Gomes dirigiu com Manuel Serra a operação de tomada do quartel do Regimento de Infantaria 3, em Beja.


A operação foi organizada com os cuidados conspirativos possíveis e houve quem lhe chamasse o "golpe de Beja". Mas ela não era o produto de laboratório de uma decisão voluntarista, e sim a expressão militar do sobressalto que vivia o país - primeiro, com a campanha eleitoral de Humberto Delgado, em 1958; depois com o início da guerra colonial, em 4 de Fevereiro de 1961.

Em entrevista à RTP, Varela Gomes assumiu o "cepticismo intelectual" que existia até à campanha de Delgado, sublinhando que esse cepticismo foi estilhaçado pelo entusiasmo popular em torno da campanha.

Humberto Delgado tinha passado pela experiência de pôr na rua centenas de milhares de pessoas ao visitar o Porto. com a sua imensa popularidade, e apostava que, tendo um quartel, podia a partir daí para sublevar o país inteiro. Varela Gomes recorda como esse esquema, na altura, parecia viável.

O ano de 1961 é com frequência designado como o annus horribilis para a ditadura de Salazar: tomada do paquete Santa Maria (Janeiro), revolta independentista em Angola (Fevereiro), intentona de generais incluindo o ministro da Defesa (Abril), condenação de Portugal na ONU, eleições (Novembro), tomada de Goa pela União Indiana (Dezembro).

A "cascata de acontecimentos", recordou Varela Gomes em entrevista de 1975 à RTP, criou a ilusão de que "o fascismo tinha os dias contados". Tratava-se de uma ilusão: faltavam ainda 13 anos para o 25 de Abril.

Varela Gomes afirma que não foi o "autor do golpe de Beja", e atribui o mérito da autoria a Manuel Serra. No que lhe diz respeito, assume-se simplesmente como dirigente operacional da revolta. E nessa qualidade, admite, não deveria ter sido ele a empreender a prisão do segundo comandante do quartel, major Calapez Martins. Daí resultou ser ferido com gravidade e ser derrotada a revolta logo na sua fase inicial.

Recordando o médico Ludgero Pinto Basto, Varela Gomes lembrou em entrevista à RTP Memória que ficou a dever-lhe a vida, a ele e a Carlos George, depois de ser ferido na Revolta de Beja.

Uma equipa médica foi enviada de Lisboa para tratar os feridos que houvesse do lado governamental - na circunstância o subsecretário da Defesa, Jaime Fonseca, abatido por "fogo amigo" da GNR. Verificado o óbito do membro do Governo, a equipa médica ia ser despachada de volta para Lisboa pela PIDE, mas o seu chefe, Sabido Ferreira, fez valer as instruções que trazia de Carlos George e de Ludgero Pinto Basto: só deixar Beja quando tivesse tratado também os feridos do lado dos insurrectos.

Maria Eugénia Varela Gomes recordou em entrevista à RTP em 1975 como teve a notícia do fracasso da revolta e dos ferimentos sofridos pelo marido. Partiu para Beja, na companhia do irmão e do pai, atravessando um Alentejo que mais parecia um país ocupado. Mas recorda também, nesse ambiente opressivo, como foi sempre amparada por gestos de solidariedade e simpatia da população.

À porta do hospital, a polícia recusava-se a dizer-lhe se o marido estava vivo ou morto, e Maria Eugénia insistiu até obter uma resposta. Em finais de Janeiro, Maria Eugénia (entretanto detida) recebeu a primeira carta de João Varela Gomes, que este, ainda a fazer uma convalescença difícil, tardara vários dias a escrever - a lápis.

Com dezenas de insurrectos de Beja, João Varela Gomes viria depois a ser julgado no Tribunal Plenário. Diante dos juízes, pronunciou um discurso combativo e emitiu o voto de "que outros triunfem onde nós fomos vencidos". Foi condenado a seis anos de prisão - a pena mais pesada depois da de Manuel Serra.Durante a revolução
Após o 25 de Abril, foi reintegrado no Exército com o posto de coronel e começou por dirigir a comissão para o desmantelamento da PIDE e da Legião. A sua acção, excessivamente enérgica para o gosto da Junta de Salvação Nacional, levou um dos membros desta, general Silvino Silvério Marques a convocá-lo para uma reunião que era, na realidade, uma cilada. Quando se apresentou à reunião foi detido.

Alguns dos capitães do 25 de Abril reagiram então energicamente - em primeiro lugar, Diniz de Almeida, que chegou a ter peças de artilharia apontadas para o palácio presidencial, com a intimação de que Varela Gomes fosse imediatamente libertado. Spínola atribuiu a responsabilidade do incidente a Silvério Marques e mandou libertar Varela Gomes.

O militar antifascista ganhava a prova de força por ser libertado, mas via-se também afastado da comissão para sanear os pides. Em breve iria tornar-se o chefe efectivo da 5ª Divisão do Estado Maior - embora nunca tenha sido o seu chefe nominal.

No 11 de Março de 1975, aviões da Força Aérea e uma força de páraquedistas vindos de Tancos atacaram o Ralis, em Lisboa, causando um morto e vários feridos. Mas o Ralis não se rendeu, ganhou tempo e era preciso usar esse tempo para enfrentar o golpe.

Na 5ª Divisão, o coronel Varela Gomes ligou para a Presidência da República e para o Copcon, a pressioná-los para tomarem medidas e foi recebendo respostas evasivas. Decidiu então tomar medidas por sua conta: mandar uma mensagem para todas as unidades apelando à resistência, emitir através da rádio e da televisão um apelo à mobilização popular.

Viria depois a ser acusado de "usurpação de funções" por ter tomado essas medidas perante a iminência de uma guerra civil. Em entrevista de 2015 à RTP - uma das últimas que concedeu - assumia ter cometido uma "usurpação revolucionária".

Em 25 de Abril de 1975, dia das eleições constituintes, Varela Gomes encontrava-se em Cuba, no âmbito de uma missão que aí fora enviada, e cujos objectivos explicou no regresso, de forma condensada, em intervenção que foi captada pela RTP.

Jorge Golias, hoje coronel, à data um dos mais destacados capitães de Abril, fazia parte da delegação. Em Outubro de 2017 relatou em entrevista à RTP vários aspectos fundamentais dessa visita, bem como a composição do grupo enviado e o papel que Varela Gomes desempenhava, à cabeça da delegação.

Juntamente com o embaixador português, José Fernandes Fafe, Varela Gomes organizou na Embaixada uma comemoração do primeiro aniversário do 25 de Abril. Aí estiveram como convidados Fidel e Raul Castro. Foi nessa circunstância que teve com Fidel a reunião documentada na foto - uma das duas que tiveram lugar com o líder cubano.


Foto de José Paulo Fafe

Durante mais de duas semanas que durou a visita da delegação, Raul Castro, então a segunda figura da hierarquia do Estado, acompanhou-a a par e passo. À delegação portuguesa atribuía-se uma importância considerável, reflectindo o significado que em Cuba se reconhecia ao processo revolucionário português.

Jorge Golias refere esse acompanhamento de alto nível, mas também um outro, por parte de agentes da segurança cubana, que os membros da delegação consideraram excessivo e desnecessário. Entre todos, relata ainda, foi Varela Gomes quem teve reacções mais veementes contra a presença policial.


Dois temas do intercâmbio com Cuba, que Varela Gomes refere na intervenção gravada pela RTP, foram objecto de especial preocupação da Embaixada norte-americana em Lisboa: "a formação ideológica nas Forças Armadas cubanas e a organização da população para tarefas de defesa da revolução".

Nas semanas seguintes a Embaixada norte-americana empreendeu diligências junto da 5ª Divisão, para esclarecer se não estaria a realizar-se uma doutrinação de carácter comunista dentro das Forças Armadas.

Mas, para além dessa inquirição directa e frontal, realizavam-se sobretudo diligências de bastidores para enfrentar o alegado perigo de se criar em Portugal uma "Cuba da Europa". Assim, paralelamente às diligências citadas, o embaixador Frank Carlucci enviava um telegrama ao seu chefe em Washington, Henry Kissinger, manifestando preocupação sobre a eventualidade de a 5ª Divisão pôr em prática as ideias que Varela Gomes trouxera de Cuba, com a possível criação de Comités de Defesa da Revolução segundo o modelo cubano.

Em Portugal, Varela Gomes era alvo de uma política de ostracização que chegava ao ponto de tentar negar-lhe um lugar entre as duas centenas de membros da Assembleia do MFA. Essa tentativa, até agora desconhecida, foi revelada à RTP por Jorge Golias.

Com efeito, o Centro de Sociologia Militar da 5ª Divisão, dirigido por Varela Gomes, levava a cabo um esforço considerável para desenvolver uma rede de contactos com comissões de trabalhadores ou com unidades colectivas de produção na zona de intervenção da reforma agrária.

Desse modo, dava-se um passo em frente relativamente às campanhas de Dinamização Cultural da CODICE, também integrada na 5ª Divisão: onde inicialmente se procurava combater o atraso e proteger contra o caciquismo as populações mais pobres do interior, agora passava a haver da parte do MFA uma actividade orientada para os sectores mais dinâmicos da revolução - trabalhadores industriais em fábricas nacionalizadas, ou assalariados rurais em herdades ocupadas.


A delegação militar que a RTP acompanhou em Junho de 1975 realizou, nesse âmbito, uma visita à Comissão de Trabalhadores da Mague, de Alverca, em vésperas de ser nacionalizada; e uma outra à Unidade Colectiva de Produção (UCP) "Pedro Soares", em Montemor-o-Novo - iniciativas, ambas, que pareciam confirmar os receios do embaixador norte-americano.

Mas, ao contrário do que receava a Embaixada dos EUA, Varela Gomes opunha-se a um projecto de "Poder popular" que obliterasse a importância dos partidos políticos. Jorge Golias, que elaborou o primeiro rascunho do Documento-Guia para a Aliança Povo-MFA, recorda que ele próprio pretendia valorizar essa importância dos partidos, mas viu a sua intenção inicial desvirtuada por uma pressão antipartidária.

Tanto Jorge Golias, na sua entrevista à RTP, como Diniz de Almeida, na extensa colectânea que publicou sobre o tema, confirmam a oposição de Varela Gomes às veleidades de dissolver os partidos nos órgãos de "poder popular".


Em debate realizado nos anos 90 com o socialista Alfredo Barroso, num programa da RTP Memória, Varela Gomes enalteceu a frontalidade do historiador Luís Trindade, ao classificar o 25 de Novembro como uma "contra-revolução" e lançou aos vencedores do 25 de Novembro um desafio: "Assumam-se contra-revolucionários!".

Por outro lado, fez notar, com ironia, que alguns desses vencedores se acham agora engolidos pela engrenagem da direita, e protestam contra os efeitos depois de terem promovido as causas - uma farpa para Alfredo Barroso, presente no debate, e para Mário Soares.

Finalmente, na sua última entrevista, em Outubro de 2015 (vd. artigos relacionados), Varela Gomes relatou à RTP algumas iniciativas que tomou no dia 25 de Novembro e que tinham escapado aos próprios autores do Relatório do 25 de Novembro, nomeadamente aquela que consistiu em enviar, já no dia 26, uma delegação a Tancos para se inteirar da disposição que pudessem ter os páraquedistas para resistir ao estado de sítio.

Aí relata também a sua passagem à clandestinidade, para escapar ao mandado de captura emitido contra ele, a saída do país com identidade falsa, o embarque em Espanha com destino a Cuba e a partida de Cuba para Angola, no início de 1976. E relata também o seu regresso a Lisboa, em Setembro de 1979, com a lei da Amnistia já aprovada pelo parlamento, mas ainda não promulgada pelo presidente da República, Ramalho Eanes.

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