Partidos da Oposição atacam "propaganda" de Sócrates

“Propaganda” e afastamento da “realidade” são algumas das fórmulas que a Oposição, da esquerda à direita, encontra para desmontar a mensagem de Natal do primeiro-ministro. Se José Sócrates faz a defesa da austeridade como “o único caminho que protege” Portugal, o BE antecipa um acentuar do “desastre” e o PCP espera um país mais desigual. O CDS-PP lamenta o "auto-elogio" e o PSD diz que "se omite a realidade".

RTP /
"Quero que saibam que este é o único caminho que protege o país e que defende o interesse nacional", afirmou Sócrates Mário Cruz, Lusa

O primeiro-ministro gastou ontem menos de oito minutos numa mensagem de Natal pautada por palavras como “confiança” e “determinação”. Isolou indícios “animadores” de recuperação da economia, “em particular com o bom crescimento das exportações”. Reconheceu, também, que “a crise deixou as suas marcas, que ainda aí estão”. Adiante, insistiu na tese de que “todos os governos europeus tiveram este ano de fazer ajustamentos nas suas estratégias e tiveram de adoptar medidas difíceis e exigentes, de modo a antecipar a redução dos seus défices”.

José Sócrates partiu então para uma apologia das medidas de austeridade inscritas no Orçamento do Estado para o próximo ano: “O único caminho que protege o país e que defende o interesse nacional”.

“O que está em causa é o financiamento da nossa economia, a protecção do emprego, a credibilidade do Estado português e o próprio modelo social em que queremos viver. Tenho plena consciência do esforço que está a ser pedido a todos os portugueses, mas quero que saibam que este é o único caminho que protege o país e que defende o interesse nacional, caminho que temos de percorrer com determinação, para que possamos, finalmente, virar a página desta crise e garantir um futuro melhor para a nossa economia e para todos os portugueses”, sustentou.

"Tudo é culpa da crise internacional"
Para os partidos à esquerda dos socialistas, o discurso de Sócrates foi do irrealismo ao “alijar de responsabilidades”, sem se deter verdadeiramente em problemas concretos como o desemprego e até mesmo a desconfiança crónica dos mercados. À direita, a reacção do CDS-PP surge em tom semelhante, incidindo sobre um "auto-elogio que a realidade nem sequer consente".

"O primeiro-ministro aproveitou o Natal para um auto-elogio que a realidade nem sequer consente e para propaganda, que é exactamente aquilo de que Portugal não precisa", atalhou o eurodeputado do CDS-PP Nuno Melo.

José Sócrates, acentuou, "começa por invocar todas as dificuldades, mas curiosamente, numa mensagem que é de Natal, não tem uma única palavra em relação aos que mais sentem essas dificuldades, que por acaso são os desempregados e os pensionistas, entre outros". "Depois, tudo é factor externo, tudo é culpa da crise internacional", criticou Nuno Melo.

“A insistência”
Também o líder do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda chumba em toda a linha a mensagem de José Sócrates. José Manuel Pureza critica, à cabeça, “a insistência” do primeiro-ministro na ideia de que a sua via política “é a única capaz de fazer o país retomar a confiança dos mercados financeiros internacionais”.

“Só o primeiro-ministro e o Governo é que acreditam nisso, porque o que está o primeiro-ministro a dizer é que é receita única um caminho que nos levou a esta situação de afundamento e de desastre da economia portuguesa”, disse à Lusa o deputado bloquista, para logo rebater a “confiança” manifestada por Sócrates com o exemplo do recente corte do rating da dívida soberana e da banca do país: “Significa que a convicção de que só por aqui é que recuperamos a confiança dos mercados é totalmente falsa”.

O que é expectável em 2011, prosseguiu José Manuel Pureza, “é mais desemprego, é recessão, é decrescimento”. É por isso que o BE conclui que “a realidade é uma coisa e o discurso do primeiro-ministro é outra completamente diferente”.

“Cínica hipocrisia”
O líder parlamentar do PCP não hesita: “Foi uma mensagem de propaganda do Governo na qual o primeiro-ministro tentou alijar as suas responsabilidades e as do Governo na situação que o país vive, procurando enviá-las para outras instâncias como a crise internacional”.

Em declarações à agência Lusa, Bernardino Soares criticou Sócrates por insistir na defesa de uma via que “vai continuar a favorecer os mais ricos e poderosos, a afundar o país do ponto de vista económico e a acentuar as desigualdades”, lembrando os “cortes nos salários, prestações sociais e subsídio de desemprego”.

Na sua tradicional mensagem de Natal, o chefe do Governo deu destaque ao acordo obtido em sede de concertação social, sem a chancela da CGTP, para uma actualização faseada do salário mínimo para ao longo do próximo ano, que começará em Janeiro com um aumento de apenas dez euros. “Cínica hipocrisia”, reage Bernardino Soares.

“O primeiro-ministro referiu-se ainda, de uma forma que só pode qualificar-se de cínica hipocrisia, ao que chamou o entendimento para o aumento do salário mínimo nacional, quando do que se trata é de adiar o aumento do salário mínimo para 500 euros, que estava acordado desde 2006, procedendo a um verdadeiro roubo de 15 euros aos trabalhadores”, frisou o dirigente comunista, salientando, em seguida, o facto de o primeiro-ministro não ter dito “uma palavra” sobre o desemprego.

Mensagem "omite a realidade"
O PSD, pela voz do secretário-geral Miguel Relvas, foi o último dos partidos da Oposição a comentar a mensagem de Natal do primeiro-ministro, que acusou, em declarações à Antena 1, de "omitir a realidade" do país aos portugueses.

Miguel Relvas diz que Sócrates se demite da responsabilidade pelo que se passa no país, fazendo um "discurso e uma mensagem em que omite de facto a realidade para que não tenha que assumir a responsabilidade a que chegámos".

"Este discurso é um discurso que é um mero exercício retórico igual ao de 2008 e 2009 e em 2010 a realidade é que não é a mesma", referiu Miguel Relvas.

Questionado sobre o tipo de mensagem e de discurso que gostaria de ouvir, o secretário-geral do PSD respondeu que esperava "um discurso em que o realismo e a verdade estivessem de mãos dadas em que se assumam as situações e as políticas de austeridade, em que se olhe também a esta praga social que é o desemprego e que se apontem caminhos e propostas que visem ultrapassar as circunstâncias com que hoje estamos confrontados".

PS refere que mensagem foi realista

Depois de o secretário-geral do PSD ter afirmado que a mensagem de Natal do primeiro-ministro se limitou a um "exercício de retórica", Fernando Medina, porta-voz do PS, contrapôs que a intervenção de José Sócrates "foi tudo menos isso".

"Tratou-se de um exercício substantivo de ação política, identificando os caminhos para fazer face à actual situação do país", considerou Medina, que completou a sua análise referindo que o discurso de José Sócrates caracterizou-se pelo seu "realismo e, em simultâneo, ficou marcado pelo apelo que fez à mobilização dos portugueses".

"Realismo, em primeiro lugar, porque o primeiro-ministro salientou que Portugal, assim como os restantes países europeus, enfrenta uma situação complexa; um discurso de mobilização, em segundo lugar, porque apresentou com clareza os caminhos que devemos colectivamente trilhar", sustentou o secretário de Estado.
PUB