Presidenciais. Candidatos querem Portugal como "primeira potência mundial", como um "país mais justo" e com maior poder de compra

Vieira explicou as suas propostas "metafóricas", Pestana posicionou-se numa esquerda "diferente" e Correia defendeu casas para todos os portugueses. As eleições são já no dia 18 de janeiro.

Joana Raposo Santos - RTP /
Foto: Filipe Ligeiro - RTP

Os candidatos presidenciais André Pestana, Humberto Correia e Manuel João Vieira estiveram esta segunda-feira em debate na Antena 1. A reforma laboral, a habitação, a saúde ou o ataque dos EUA à Venezuela foram alguns dos temas em debate entre os três candidatos.

André Pestana foi o primeiro a intervir, frisando que quer “representar uma esquerda claramente diferente, mais democrática”.

“Quem me conhece sabe que eu sou claramente de esquerda, só que não me quero confundir com a esquerda que a maioria das pessoas associa, seja a esquerda do antigo bloco de leste, de regimes ditatoriais, seja a esquerda associada a governos do Partido Socialista”, explicou.

Questionado sobre o que seria diferente em Portugal se fosse presidente, respondeu que a sua candidatura é “a única que defende claramente acabar, por exemplo, com os subsídios milionários aos partidos políticos”.

O candidato exemplificou com o Chega, PS e PSD, que “todos os anos vão receber mais de cinco milhões de euros, sem contar com os milhões que já recebem para as suas campanhas eleitorais megalómanos” e sem contar com “salários e ajudas de custo”.

André Pestana insistiu que acabaria com “este país a duas velocidades, de ter cidadãos de primeira e de segunda”, e assegurou que “há condições e há dinheiro para que todos os que trabalham em Portugal possam trabalhar e viver em dignidade”.

Humberto Correia respondeu, por sua vez, que é “a pobreza de muitos portugueses” que o leva a candidatar-se a Belém. “A diferença que eu posso fazer é que eu conheço talvez melhor os problemas do povo português”, considerou.

“Porque eu estou na rua e estou em contacto com eles há mais de 20 anos”, afirmou o independente. “Comunico com as pessoas todos os dias, e o maior problema do povo português é a habitação. A minha missão é resolver o problema da habitação”.

O único caminho é, para este candidato, aumentar a habitação social. “O Estado tem de construir e alugar a preço acessível”, explicou, passando a defender que as rendas sejam proporcionais aos metros quadrados das casas.

Manuel João Vieira
afirmou que “o país precisa de mais espontaneidade” e vincou que a sua inexperiência “é a mais alta qualificação para governar”.

“Acordo para as coisas com um olhar diferente cada dia. Acho que quando me demitisse teríamos uma verdadeira democracia, em que o presidente da Assembleia da República assumiria as minhas funções, conforme está estabelecido na legislação”, afirmou.

“É preciso uma nova atitude em relação ao país. O interior do país está a ser despovoado. Nós temos uma proposta que é a construção de Vieiropolis, uma construção no centro geodésico do país, que é uma cidade para um milhão de pessoas. Temos de deslocar a população que está toda no litoral”.
 
Presidente deve tomar partido em casos de injustiça?
André Pestana acredita que o chefe de Estado “tem de tomar partido” nos casos que interferem, por exemplo, com “as condições de trabalho, as condições de vida da maioria da população”.

“Ao contrário do que temos tido, eu não serei um presidente da República calado com medidas, por exemplo, que têm ocorrido nas últimas décadas e prejudicado a grande maioria da população”, assegurou, acusando Marcelo Rebelo de Sousa de ser cúmplice da reforma laboral do Governo de Luís Montenegro.

Humberto Correia considerou que “o presidente tem de estar ao lado dos portugueses e, sobretudo, ao lado de quem trabalha”.

“A melhor forma de combater a pobreza é incentivar os ricos a criar emprego”, mas “tem de haver um equilíbrio”, defendeu, acrescentando que a maioria dos portugueses não tem condições económicas para poder ir de férias ou investir em cultura. Manuel João Vieira vincou que a sátira “pode ser disruptiva” em relação ao “discurso formatado pelos mais diversos fatores políticos”. “Acho que essa disrupção é necessária neste momento”, asseverou.

Manuel João Vieira acredita que o presidente “deve fazer aquilo que a sua consciência lhe ditar”, sendo “ágil e elástico” e podendo indeferindo decretos e leis ou dissolver a Assembleia da República quando assim entender.

Os poderes do presidente são para o presidente usar. Claro que não imoderadamente, não 'à maluca', mas eu sou por uma democracia hiperpluralista”, explicou.
Sistema político precisa de ser reformado, abanado ou ridicularizado?
André Pestana acredita que precisa, no mínimo, de ser “abalado”, já que “temos uma saúde, educação, justiça, habitação, salários” para ricos e outra para pobres. “É preciso um abanão”, enfrentando os privilégios da minoria que “tem estado a viver acima das nossas possibilidades”, defendeu.

Humberto Correia defendeu que apenas é preciso “impor o cumprimento da Constituição, sobretudo do artigo 65 sobre a habitação”, que defende o direito de todos os portugueses a uma habitação condigna.

Manuel João Vieira explicou que algumas das suas propostas, como Ferraris para todos os portugueses ou vinho canalizado são “metafóricas”.

“Portugal não é um país pobre. Portugal está em 14.º lugar no que diz respeito às reservas de ouro no mundo. O que eu quero é explicar às pessoas que o miserabilismo não interessa. Temos de olhar para a frente, temos de querer mais, temos de ser mais ambiciosos e dar um salto em frente. É preciso mudar o sistema para um sistema mais positivo”, afirmou.
Portugal deve alinhar-se sem reservas com a UE e a NATO?
No campo da política externa, André Pestana vincou que quem lidera a NATO neste momento é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “claramente um agressor”.

O candidato a Belém condenou o ataque do norte-americano à Venezuela, falando em “atropelos atrás de atropelos” ao direito internacional, abrindo “um precedente gravíssimo porque parece o regresso ao faroeste, à lei da bala”.

Pestana disse ainda que vai participar esta segunda-feira às 18h00, em Lisboa, na manifestação convocada por várias organizações contra o ataque de Washington contra Caracas. Os três candidatos disseram ser contra o aumento do investimento na defesa.

Já Humberto Correia defendeu que Portugal “não pode sair nem da NATO nem da União Europeia” e frisou que “a Europa tem de se unir” caso Donald Trump venha a intervir na Gronelândia.

“Trump não pode invadir a Gronelândia”, defendeu. Quanto à Venezuela, “pode nos próximos dias haver uma guerra civil”, pelo que apelou ao Governo português que se prepare e antecipe medidas para o caso de haver “um banho de sangue” nesse país, já que a comunidade portuguesa que lá se encontra teria de ser resgatada rapidamente.

Manuel João Vieira falou numa “mudança total no sistema de forças” e nas convenções internacionais, com o ataque à Venezuela a representar, para este candidato, “um desprezo absoluto pela ONU e por outras instituições”.

O candidato alertou que os Estados Unidos podem, “qualquer dia, invadir os Açores”, pelo que “Portugal tem de se preparar em termos militares de uma forma inteligente”.
“Cada cidadão que tossisse iria para a ilha da Madeira ter aulas de ioga”
André Pestana alertou para a falta de recursos humanos na saúde e destacou a ausência de carreiras atrativas neste setor, algo que disse acontecer também na educação.

“Tem de se ir buscar o dinheiro de algum lado”, declarou, lembrando que “os cinco maiores bancos em Portugal tiveram lucros diários de mais de 14 milhões de euros” e propondo que contribuam com esses lucros para melhorar os salários. André Pestana defendeu a legalização da eutanásia, Humberto Correia apoiou um referendo e Manuel João Vieira propôs “uma espécie de prostituta psicóloga em cada esquina” para avaliar o estado psicológico das pessoas.

Humberto Correia concordou que “a saúde passa pela educação” e afirmou que “se as pessoas não consumirem venenos sem necessidade, pouco precisam de hospitais”.

O candidato Manuel João Vieira disse que “devia ser proibido estar doente” e que seria possível “acabar definitivamente com a doença” não só através da prevenção, como com um sistema que monitorizasse a saúde de cada cidadão desde a infância.

“Cada cidadão que tossisse iria para a ilha da Madeira ter aulas de ioga, ou uma coisa assim”, propôs. Portugal precisa de imigrantes?
André Pestana realçou que os próprios empresários e patrões já destacaram a necessidade da imigração e quis “desconstruir o discurso da extrema-direita”, lembrando que os imigrantes vieram para o país ocupar o espaço de milhares de jovens que saíram devido às más condições económicas.

Humberto Correia, que já foi emigrante em França, afirmou que “a França tirou milhões de portugueses da miséria” e vincou que “hoje Portugal não pode viver sem imigração”.

“Mas, ao mesmo tempo, o povo português não pode ser absorvido pela imigração. Tem de haver um equilíbrio. E é preciso repor o SEF novamente nas fronteiras”, defendeu.

O candidato Manuel João Vieira disse, por sua vez, que “se fazemos menos portugueses, virão mais não-portugueses para aqui”, pelo que “temos de fabricar mais portugueses de uma maneira biológica”.

Afirmou ainda que o Estado português paga cursos a estudantes que depois se veem forçados a sair do país. “E depois não temos médicos cá. Acho que isso é patético. Dizem muitas vezes que eu estou a gozar com esta situação, mas eu acho que quem está a gozar são as pessoas que a criaram”, vincou.

Por fim, Pestana disse querer ser lembrado como “alguém que nunca se calou perante as injustiças”, enquanto Correia disse não ter nada a perder se vencer as eleições. Vieira disse ser “ao mesmo tempo inútil, perigoso e ridículo”, mas acha que é “a única esperança deste país”.

André Pestana quer um “país mais justo”, Humberto Correia promete “mais poder de compra” e Manuel João Vieira quer Portugal como “a primeira potência mundial”.

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