Santana Lopes apresenta-se para "unir" com fortes críticas a Rui Rio

por RTP
Tiago Petinga - Lusa

Pedro Santana Lopes apresentou este domingo a sua candidatura à liderança do Partido Social Democrata. O ex-primeiro-ministro diz que aprendeu que “a legitimidade do voto não se herda” e que não quer um “partido sem memória”. Santana elogiou Passos Coelho, atacando os que “viraram a cara” ao partido e “foram dar o braço aos adversários políticos” e sugere debates com Rio por todo o país. Promete ainda "intransigência" e "determinação" contra a "frente de esquerda".

Na apresentação da candidatura à liderança social-democrata, Pedro Santana Lopes relembrou a frase que disse em 2005: “Vou andar por aí”. “Hoje estou aqui e vim para clarificar. Quero unir, como diz o lema de campanha, mas quero unir depois de clarificar”, afirmou.

“Aprendi em 2004 e 2005 que a legitimidade do voto não se herda, conquista-se. Por isso também estou aqui”, disse, numa referência à sua ascensão ao cargo de primeiro-ministro sem ter ido a votos na sequência da partida de Durão Barroso para a Comissão Europeia.

Santana Lopes prometeu não falar do passado, mas aqui por referir-se a ele várias vezes. “Não vou comparar as causas da dissolução do Parlamento nessa altura com os factos e os acontecimentos que se seguiram: uns conhecidos na época, outros conhecidos mais tarde e outros admitidos posteriormente e à espera de julgamento”, disse logo nos primeiros minutos do discurso.
Passos e a "Salvação nacional"

No discurso de mais de 50 minutos, Santana Lopes defendeu que os sociais-democratas devem honrar a sua história. “Somos um partido decente, que honra a sua história e património, os seus feitos, os seus momentos melhores e menos bons”, afirmou. Estava dado o mote para elogiar o trabalho de Pedro Passos Coelho: “um trabalho de salvação nacional”, classificou Santana.

“Alguém quer um partido sem memória, sem respeito por si mesmo? Penso que não”, respondeu, numa primeira crítica ao adversário. Santana Lopes prometeu que manterá “o que sempre disse” e que não alterará o discurso por ser candidato à liderança do PSD.

“Nunca fui para a Aula Magna fazer sessões com o Bloco de Esquerda ou com Mário Soares”, atacou. “Nunca fui para Associação 25 de abril ouvir elogios de Vasco Lourenço na altura em que o partido salvava Portugal da bancarrota”, prosseguiu.

“Nunca fui dizer que, cito, ‘a democracia está mais difícil, estamos a caminho de uma ditadura corporativa’ e fazer coro com os grandes adversários do meu partido. Nunca o fiz”, continuou numa postura ofensiva contra Rui Rio.

Santana Lopes afirmou que quer unir e que não quer que “o meu partido se entregue nas mãos daqueles que, quando mais precisou dos militantes, lhe viraram a cara ou foram dar o braço aos seus adversários políticos”.
"Não estou só presente quando preciso"
O candidato à liderança do PPD-PSD – como faz sempre questão de se referir ao partido – recordou o seu percurso de social-democrata, nomeadamente a conquista da Câmara Municipal de Lisboa em 2001.

Fez também referência direta a Rui Rio, recordando que este conquistou a câmara do Porto nesse mesmo ano. Mas fez questão de sublinhar a vitória de Lisboa. “Foi no momento em que ganhámos a câmara de Lisboa que António Guterres chegou ao pé das televisões e das rádios e veio dizer que ‘vou embora que vem aí o pântano’ porque o PPD-PSD alcançou essa grande vitória”, afirmou.

Pedro Santana Lopes referiu-se aos “combates difíceis” que travou e respondeu ao “terrorismo nas redes de comunicação nova” que assinalam que não vence eleições há 16 anos. “A poucas me tenho candidato. Em 2005 quem ganharia a eleição com um golpe de estado pela frente e, em 2009, enfrentei o presidente da Câmara de Lisboa só com dois anos de mandato”, afirmou.

“Quando o partido precisa de mim, regra geral, estou presente. Não estou presente só quando eu preciso do partido”, afirmou, merecendo o aplauso de quem se encontrava no centro de congressos de Santarém.

Regressou ao ataque para afirmar que nunca andou a “patrocinar movimentos para derrotar os candidatos do meu partido ou para os substituir por independentes ou adversários de forças políticas”, num dos momentos do discurso em que mais elevou a voz. É por isso que Santana Lopes diz que é preciso "clarificar".
Contra a "frente de esquerda"
Com o ataque feito à concorrência interna, Santana Lopes dirigiu-se depois ao atual Governo. O ex-primeiro-ministro disse não querer falar em “geringonça”, termo que “envolve algum carinho”. “Para mim eles são uma frente de esquerda com os comunistas e a extrema-esquerda, da qual o PS se aproveita para governar com um programa que não é o seu”, atacou.

O candidato acredita que cabe ao PSD preparar uma alternativa a uma maioria parlamentar “anacrónica”. “É mau para o nosso país. Há que mostrar aos portugueses que há melhor e bem melhor”, promete.

Nesta missão, Santana quer “um PSD cada vez mais PPD”, o que implica “respeito pelas nossas origem, identidade, ideologia e programa” mas também por um partido “cada vez mais popular, próximo das pessoas”.

O ex-primeiro-ministro defendeu que é preciso adotar políticas que estimulem o crescimento económico, pedindo que Portugal não se limite “às folhas de Excel”.

“Temos de ser capazes de ter uma política fiscal atrativa, de incentivar a coesão territorial, de favorecer a captação de talento”, afirmou. Santana prometeu ainda combater “o esquecimento” com os mais idosos, os cuidados continuados e os cuidados paliativos. “Nós falaremos. Traremos esse tema para ponto principal da agenda política”, prometeu.
PSD "nasceu para ganhar"
O PSD de Santana promete “não ceder” nas questões da dignidade do ser humano. Com este Governo, “quem sabe talvez aos 15 ou 14 anos, as crianças e os jovens poderão tomar decisões fundamentais gravíssimas sobre as suas vidas, sobre a integridade do seu ser, prejudicando todos os princípios e valores em que acreditamos”.

Santana Lopes garantiu ainda que o problema de Portugal não são os portugueses mas o modelo de crescimento e algumas “elites políticas e económicas” que “como hoje em dia se vê e eu denunciei em 2004 e 2005 trataram deles próprios e não trataram de Portugal e dos portugueses”.

Agora candidato, Santana promete percorrer o país todo. Apesar de dizer que não desafia ninguém porque “diz-se que aqueles que vão à frente não desafiam”, sugere que haja debates entre candidatos em todas as distritais. O primeiro-ministro disse ainda que tem orgulho em Marcelo Rebelo de Sousa, elogiando a sua intervenção na sequência dos incêndios da última semana.

Santana Lopes insistiu que o PSD “nasceu para ganhar” e não “para ser moleta”. O candidato anotou que é favorável a pactos de regime e garante que “verão um sorriso nos meus olhos” quando houver boas notícias para Portugal. Na defesa da suas ideias e do partido, Santana prometeu intransigência e determinação contra a "frente de esquerda”.
Diretas a 13 de janeiro

Pedro Santana Lopes tinha anunciado a 10 de outubro que é candidato à liderança do PSD nas eleições diretas marcadas para 13 de janeiro. A confirmação foi feita pelo ex-ministro no espaço de debate televisivo que partilha com o socialista António Vitorino na SIC Notícias.

"Hoje é um dia de boas noticias, Portugal ganhou e eu sou candidato à liderança do PPD/PSD", afirmou, minutos depois de Portugal se ter apurado para o campeonato do mundo de futebol do próximo ano, na Rússia.

Além de chefe de Governo, Santana Lopes foi líder do PSD, presidente das câmaras da Figueira da Foz e de Lisboa e desempenhou, até sexta-feira, as funções de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Desde que se apresentou como candidato à liderança, Santana Lopes ganhou apoio de figuras do partido como Rui Machete, Miguel Relvas, Carlos Carreiras ou Carlos Costa Neves, da distrital de Lisboa e do presidente da distrital do Porto, a título pessoal, bem como de autarcas de vários pontos do país.

Rui Rio é, até agora, o outro candidato na disputa pela liderança do PSD e fez a sua apresentação pública a 11 de outubro, em Aveiro. O PSD vai a votos em eleições diretas no dia 13 de janeiro, com o Congresso a realizar-se entre 16 e 18 de fevereiro em Lisboa.

O calendário foi acertado depois de Pedro Passos Coelho ter anunciado que não se recandidataria à liderança social-democrata na sequência do resultado do PSD nas eleições autárquicas de 1 de outubro.
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