Sócrates alega em carta que está preso para prejudicar o PS

José Sócrates completa esta quinta-feira nove meses de prisão preventiva. Data que o ex-primeiro-ministro assinala com uma carta enviada ao Jornal de Notícias e à SIC. No texto, levanta o que considera ser uma “legítima suspeita”: a tese de que a Operação Marquês teve “como verdadeira motivação” impedir os socialistas de vencerem as legislativas.

Carlos Santos Neves - RTP /
José Sócrates afirma manter uma “legítima suspeita” de que passou os últimos meses em prisão preventiva para impedir o PS de vencer nas urnas Reuters

A carta redigida no Estabelecimento Prisional de Évora tem a data de 15 de agosto. Mas apenas foi revelada na última noite. Na véspera de José Sócrates completar nove meses de prisão preventiva.“A Justiça cometeu mesmo neste caso um erro monstruoso”, escreve Sócrates.


O texto flui por dois cursos paralelos. Sócrates ataca as diligências desenvolvidas pelo Ministério Público de um ponto de vista judicial. Mas também num plano que alega ser eminentemente político. A menos de dois meses das legislativas, a voz – embora transcrita – do ex-governante socialista passa a pairar sobre a pré-campanha.

“Ao fim destes longos nove (9) meses, creio que é tempo de todos tirarem uma conclusão: fui preso sem que existissem quaisquer provas contra mim. A interpretação mais benigna, embora ainda assim intolerável, é a de que me prenderam ‘para investigar’. Mas há outra. À medida que o tempo passa cresce a legítima suspeita de que este processo tem como verdadeira motivação condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS”, escreve o ex-primeiro-ministro já no último trecho da carta.

Para rematar que “isso não compete à justiça, mas à política”.

Ao longo da missiva, José Sócrates insiste em reclamar inocência. E sustenta que os seus nove meses de prisão deveriam “suscitar uma reflexão no país, no sistema de justiça e em todos aqueles que acreditam nos valores fundamentais do Estado de Direito sobre o que aconteceu”.
“De uma teoria para outra”

Sócrates aborda em pormenor as suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal que recaem sobre si, acusando o Ministério Público de ter construído um processo “saltitão”, no qual “a investigação saltita de uma teoria para outra de cada vez que a anterior esbarra contra a verdade”.

“Bem vistas as coisas, a investigação já ‘acreditou’ em tudo e no seu contrário”, escreve.

O antigo secretário-geral socialista reprova, nomeadamente, o facto de ser suspeito da prática de crimes de corrupção a uma escala internacional: em Portugal, Angola, Venezuela, “talvez na Argélia, de novo em Portugal mas no Algarve (oscilando aqui entre o PROTAL, umas operações urbanísticas nunca identificadas do Empreendimento de Vale do Lobo e um empréstimo concedido pela Caixa Geral de Depósitos, a que sou totalmente alheio) e, ao que parece, está agora em trânsito para o Brasil”.

“Já ‘acreditaram’ também que ela aconteceu nas PPP rodoviárias, na Parque Escolar, no TGV e até no Aeroporto que nunca foi feito, embora sem nunca esclarecer com que intervenção minha nem indicar em concreto o acto que consideram ilícito”, continua José Sócrates.

“Finalmente e sempre segundo a ‘fezada’ da investigação, o ‘agente corruptor’ começou por ser o conjunto das empresas do Engº Carlos Santos Silva, a seguir foi o Grupo Lena, mas evoluiu depois, sem pestanejar, para promotores turísticos e imobiliários com interesses no Algarve, explorando agora novas oportunidades no filão do mercado brasileiro”, acentua.
“Incrível leviandade”
Sócrates escreve mesmo que o “enorme desnorte da investigação” deixa patente que “todo este processo foi, desde o início, uma enorme precipitação e uma incrível leviandade”.José Sócrates condena a atenção da justiça à venda do seu apartamento da Rua Braancamp, em Lisboa, a um antigo procurador do Paquistão.

Relativamente aos 23 milhões de euros alegadamente mantidos na Suíça em nome de Carlos Santos Silva, presumível testa de ferro do esquema que lhe é imputado, o ex-primeiro-ministro considera a tese “absurda”.

“Vejamos: então se eu tivesse milhões de euros escondidos na Suíça, a que podia ter acesso fácil, direto e discreto, ia trazer o dinheiro todo para Portugal, colocando-o aqui sob o nome de terceiros e arriscando-me a perdê-lo para sempre ou sujeitando-me, até ao fim da vida, à sua boa vontade e cooperação para conseguir aceder, sempre por esquemas complicadíssimos, a essa ‘minha’ fortuna?”, pergunta.

Sócrates questiona ainda o Ministério Público sobre a sua ausência “na lista de nomes relacionados com as contas na Suíça que as autoridades helvéticas enviaram em resposta à carta rogatória”, acusa a investigação de se esforçar “imenso” por “esconder” os pedidos de empréstimos que fez em 2014 à Caixa Geral de Depósitos e assinala que “dezenas e dezenas de buscas” não terão permitido encontrar “nenhum documento” a dar-lhe “acesso a essas contas e ao dinheiro nelas existentes”.

“Na verdade, se a investigação pôde provar alguma coisa foi exatamente o contrário das suas ‘teses’ – que o dinheiro não é, nem nunca foi meu. É por isso que disse e reafirmo: a este processo absurdo não faltam apenas os factos e as provas, falta também um mínimo de lógica”, conclui.
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