Sócrates circunscreve combate eleitoral a “dois partidos”

José Sócrates isolou ontem a direcção social-democrata no ponto de mira dos socialistas, sustentando que "só há dois partidos que podem ganhar as eleições e duas pessoas que podem ser primeiro-ministro". Na Grande Entrevista da RTP, o primeiro-ministro devolveu a Manuela Ferreira Leite a acusação de "asfixia democrática" e afirmou que "a verdade está a vir ao de cima" no processo Freeport.

RTP /
"O facto de discordar do Presidente da República não pode ser visto como um braço-de-ferro", argumentou José Sócrates RTP

A bipolarização do combate político para as eleições legislativas sobressaiu em quase todas as respostas do secretário-geral socialista na entrevista à RTP. Para José Sócrates, o PSD de Manuela Ferreira Leite é, a par do PS, um dos partidos em condições de formar governo após o escrutínio de 27 de Setembro. Daí que a estratégia do primeiro-ministro para a recta final da contenda comece desde já a privilegiar o esforço de separação ideológica entre as duas forças capazes de captar votos ao centro.

Traçar uma linha de separação entre as lideranças socialista e social-democrata foi uma preocupação constante de José Sócrates ao longo da Grande Entrevista. Com Manuela Ferreira Leite, argumentou o secretário-geral do PS, o PSD "está muito à direita, talvez como em nenhum outro momento da sua história"

Quanto à líder dos sociais-democratas, Sócrates descreve-a como "uma mulher que tem valores políticos que são valores ultrapassados e que não correspondem ao Portugal moderno": "Não é apenas quando diz que o casamento é para procriação. É também na oposição crispada e agressiva que faz quando nós decidimos fazer uma alteração à lei do divórcio".

Repetindo um dos estribilhos desenhados para o arranque da pré-campanha, o chefe do Governo cessante defendeu que PS e PSD protagonizam "duas visões muito diferentes do Mundo, duas visões e dois sistemas de valores políticos diferentes". O eleitorado, insistiu, é chamado a sufragar "duas pessoas diferentes e dois programas diferentes".

Listas do PSD

Durante a Grande Entrevista, José Sócrates não hesitou em evocar o processo de formação das listas de candidatos do PSD às legislativas, acusando Manuela Ferreira Leite de ter afastado vozes discordantes por "delito de opinião".

O secretário-geral do PS foi mesmo ao ponto de dizer que Pedro Passos Coelho "não está nas listas porque pensa de maneira diferente".

"Eu tenho nas listas do PS pessoas que discordam de mim", sublinhou Sócrates, evocando os casos de João Soares, cabeça-de-lista por Faro, e de Manuel Alegre, que "foi convidado e decidiu não aceitar".

"Cooperação institucional sem falhas"

Questionado sobre as posições de Belém na aproximação do termo da legislatura, José Sócrates disse crer que o Presidente da República "não permitirá que ninguém utilize a sua figura institucional em seu favor", acrescentando que "cada um deve pedalar a sua bicicleta".

Por parte do Governo, afiançou, tem havido uma "cooperação institucional sem falhas" com Cavaco Silva.

"O facto de eu discordar do Presidente da República não pode ser visto como um braço-de-ferro. É normal em democracia. Não temos o mesmo entendimento sobre a matéria que diz respeito ao divórcio litigioso, nem sobre outras. Não vem nenhum mal ao Mundo. O mais importante é que haja uma cooperação institucional sem falhas", insistiu o primeiro-ministro.

Processo Freeport

Sobre o processo Freeport e as notícias que apontam para a possibilidade de não ser convocado a depor, Sócrates disse acreditar que "a verdade vem sempre ao de cima". E voltou a alegar que a "única participação" que teve no licenciamento do complexo comercial de Alcochete se limitou "a uma única reunião".

"Dei orientações aos serviços para que se cumprisse a lei escrupulosamente, uma nova avaliação de impacto ambiental e nada mais do que isso. Repito: esse empreendimento foi aprovado garantindo todas as regras ambientais, a lei foi cumprida escrupulosamente e se houve alguém que referiu o meu nome essa referência foi abusiva, ilegal e ilegítima", frisou o líder socialista, recordando o licenciamento do Freeport de Alcochete em 2002, quando detinha a pasta do Ambiente no Governo de gestão de António Guterres.

A uma questão sobre as razões pelas quais nunca pediu à Procuradoria-Geral da República para ser ouvido no âmbito do processo, José Sócrates reagiu: "Não devo nada ao Ministério Público nem tenho nenhum problema de consciência. Era só o que faltava".

Contestação dos professores

Na entrevista à RTP, o primeiro-ministro admitiu que o Governo poderia ter sido mais sensível às reivindicações da classe docente. Sócrates reconheceu mesmo que a equipa de Maria de Lurdes Rodrigues no Ministério da Educação falhou na forma de comunicar os objectivos da avaliação de desempenho.

"Talvez não tivesse havido, e reconheço isso sem problemas, suficiente delicadeza no tratamento da nossa relação com os professores. E porventura falhámos aí, nessa forma de nos explicarmos, nessa relação", disse José Sócrates.

"Deixar criar a ideia de que nós fizemos isso contra os professores é tão infantil. Nunca esteve no nosso espírito, pelo contrário. Nós sempre tivemos a maior das preocupações em que isso não acontecesse dessa forma. Se isso aconteceu, eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para o corrigir", acrescentou.

Sócrates abordou também a situação da economia portuguesa, para repetir que "Portugal está longe de ter saído da crise". Ainda assim, não deixou de dizer que o país "já está a crescer desde o segundo trimestre".

PUB