Sondagem. Portugueses culpam socialistas e esquerda pela crise política, mas PS pode vencer legislativas

por Andreia Martins (texto), Sara Piteira (gráficos) - RTP
A proposta de Orçamento do Estado para 2022 foi chumbada na Assembleia da República no passado dia 27 de outubro. Pedro Nunes - Reuters

A última sondagem da Universidade Católica reflete o impacto político da recente crise provocada pelo chumbo do Orçamento do Estado para 2022, na semana passada, e subsequente dissolução da Assembleia da República. Com eleições antecipadas entretanto marcadas para 30 de janeiro, a estimativa aponta para a vitória do PS nas urnas, ainda que sem maioria absoluta e ainda que os portugueses citem o partido e o primeiro-ministro como principais culpados pela situação atual, logo seguidos pelos antigos parceiros da Geringonça. Sobre a atuação de Marcelo Rebelo de Sousa, uma fatia significativa dos inquiridos considera que o Presidente da República deveria ter permitido a apresentação de uma nova proposta orçamental pelo atual Governo.

Esta é uma primeira leitura do panorama político-partidário depois do terramoto que se abateu sobre Portugal na semana passada, com o chumbo do Orçamento do Estado para 2022. A sondagem da Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e jornal Público, realizada entre 29 de outubro de 4 de novembro, analisa vários parâmetros do espetro político nacional, desde a Assembleia da República ao Governo, passando pela atuação do Chefe de Estado.
PS à frente, CDS-PP em último

Em relação às intenções de voto, uma grande maioria dos inquiridos (77%) responde que votaria “de certeza” em novas eleições legislativas. Ainda que estes números não permitam prever um valor para a abstenção, apenas 4% das pessoas que aceitaram participar nesta sondagem responderam que não votariam “de certeza”. De resto, 11 por cento responde que votaria “em princípio” e 5 por cento não sabe.

Quanto às intenções diretas de voto, o PS conta com 26 por cento (era de 24 por cento em maio de 2021), o que se traduz numa estimativa de 39 por cento nos resultados eleitorais (era de 38 por cento antes do verão). Ou seja, falha a maioria absoluta mas garante um melhor resultado do que o que foi obtido nas últimas legislativas.

De notar que este valor – a estimativa de resultados eleitorais - é obtido através do cálculo da percentagem de intenções diretas de voto em cada partido em relação ao total de votos válidos, excluindo abstenção e respostas inválidas. Neste caso, são apenas consideradas as inclinações dos inquiridos que adiantam ter “certeza” de que vão votar.

Surge depois o PSD, com 17 por cento de intenção direta de voto (o mesmo que em maio de 2021), com uma estimativa de 30 por cento nos resultados eleitorais (mais dois por cento por comparação aos últimos meses).


Em terceiro, o Bloco de Esquerda surge com 4 por cento de intenção direta de voto (era de 3% em maio de 2021), que se traduz numa estimativa de 7 por cento nos resultados eleitorais, ligeiramente inferior em relação ao último valor registado, de 8%.

Apesar de ter perdido na intenção direta de voto e na estimativa de resultados eleitorais, o Chega surge em quarto nesta sondagem, com uma estimativa de 5 por cento nos resultados eleitorais. Segundo esta sondagem, também a CDU e Iniciativa Liberal, que surgem depois, deverão obter resultados semelhantes.

Surgem depois o PAN, com 3 por cento na estimativa da Católica e só depois o CDS-PP, com 2 por cento dos votos.
Esquerda devia ter aprovado OE2022, dizem inquiridos

A sondagem da UCP versa também o período político conturbado vivido nas últimas semanas e há uma grande maioria dos inquiridos (68%) considera que a rejeição do Orçamento do Estado na Assembleia da República foi negativa para o país. Apenas 23 por cento consideram que essa rejeição foi positiva e 9 por cento respondem "não sabe" ou "não responde".

Importa também olhar para as respostas obtidas quanto ao comportamento e votação dos vários partidos, nomeadamente à esquerda. Há 55 por cento e 53 por cento dos inquiridos a considerarem que o Governo “fez bem” em rejeitar as propostas do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda, respetivamente.

Em ambos os casos, 30 por cento consideram que o Executivo “deveria ter aceitado” as propostas dos antigos parceiros de “Geringonça”. Na avaliação do voto à esquerda, 60 e 61 por cento dos inquiridos consideram que PCP e Bloco de Esquerda, respetivamente, “deveriam ter deixado passar o orçamento”. Por outro lado, 29 por cento considera, em ambos os casos, que tanto PCP como BE “fizeram bem” em rejeitar a proposta do Governo.

Em resposta à pergunta sobre se há algum partido a beneficiar com o chumbo do OE2022, a amostra está dividida: 47 por cento dizem que sim, mas 46 por cento consideram que nenhuma força política ganha com esta situação.

Entre os inquiridos que veem partidos que saem beneficiados, 22 por cento respondem que é o PSD que terá ganhos, 16 por cento o Chega e 12 por cento o PS.


Na hora de apontar culpados pela atual crise política no país, a maioria (37%) refere que são o PS e o primeiro-ministro, logo seguidos pela esquerda parlamentar (31% responderam BE e CDU). Há ainda 5 por cento que respondem “PSD” e outros 4 por cento que vêm Marcelo Rebelo de Sousa como o principal responsável.

Já sobre a questão da data para as eleições, a maioria dos inquiridos (55%) considera que estas devem acontecer "o mais cedo possível", enquanto 41% defendem que a data deve dar tempo para que todos os partidos tenham as respetivas lideranças resolvidas.

De realçar que o inquérito foi realizado ainda antes do anúncio do Presidente da República na última quinta-feira, confirmando a marcação das legislativas para 30 de janeiro.
Atuação do PR gera alguma divisão

Precisamente em relação à atuação do Presidente da República, a maioria dos inquiridos admite que Marcelo Rebelo de Sousa poderia ter permitido a apresentação de uma nova proposta orçamental.

Perante o chumbo, há 53% de inquiridos que considera que o PR deveria “permitir ao Governo a apresentação de um novo Orçamento”, enquanto outros 42% defendem que o Presidente deveria “dissolver a Assembleia da República e convocar eleições antecipadas”, via esta que acabou por ser seguida pelo atual Chefe de Estado.


Não obstante, a maioria dos inquiridos (51%) considera que Marcelo Rebelo de Sousa “esteve bem” nesta crise e mais 10% diz mesmo que esteve “muito bem”. No entanto, outros 25% consideram que o Chefe de Estado “esteve mal” e 7% dizem mesmo que o Presidente “esteve muito mal” neste processo.

Por fim, ainda quanto à atuação de Marcelo, 54 por cento dos inquiridos responde que o Presidente da República “fez bem” em anunciar que dissolveria a Assembleia da República caso o Orçamento fosse chumbado. Porém, há 38 por cento de inquiridos a considerar que o Chefe de Estado “fez mal” em fazer esse aviso de forma antecipada. 

Ficha Técnica
Este inquérito foi realizado pelo CESOP – Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e Público entre os dias 29 de outubro e 4 de novembro de 2021. O universo alvo é composto pelos eleitores residentes em Portugal. Os inquiridos foram selecionados aleatoriamente a partir duma lista de números de telemóvel, também ela gerada de forma aleatória. Todas as entrevistas foram efetuadas por telefone (CATI). Os inquiridos foram informados do objetivo do estudo e demonstraram vontade de participar. Foram obtidos 878 inquéritos válidos, sendo 42% dos inquiridos mulheres, 29% da região Norte, 23% do Centro, 33% da A.M. de Lisboa, 6% do Alentejo, 4% do Algarve, 3% da Madeira e 2% dos Açores. Todos os resultados obtidos foram depois ponderados de acordo com a distribuição da população por sexo, escalões etários e região com base no recenseamento eleitoral e nas estimativas do INE. A taxa de resposta foi de 43%. A margem de erro máximo associado a uma amostra aleatória de 878 inquiridos é de 3,3%, com um nível de confiança de 95%.
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