Vinho canalizado e Ferraris. Manuel João Vieira candidata-se a Belém pelo "direito inalienável à felicidade" dos portugueses

Pode ser considerado um polímata das artes, dada a abrangência da carreira artística, e traz os próprios talentos e humor para o campo político. Músico, artista plástico e professor universitário, Manuel João Vieira volta a candidatar-se à Presidência da República, com o tom satírico que lhe é característico e ideias, no mínimo, extravagantes - como garantir um Ferrari a cada português ou "vinho canalizado" em todas as casas. Sem deixar de chamar a atenção para questões sociais e problemas do país, assume-se como o candidato que luta pelo direito à felicidade.

O músico e vocalista dos Ena Pá 2000 anunciou pela quinta vez a candidatura a Belém e com as já conhecidas propostas insólitas que visam expor o "absurdo da política". Manuel João Vieira volta à corrida pela Presidência da República devido ao "crescimento do fascismo".

Algumas das medidas que propõe nesta candidatura são repetidas, mas nesta destaca que a felicidade é “um tema importantíssimo” e “não foi falado por nenhum candidato em nenhuma das eleições”.

“Os portugueses têm o direito inalienável à felicidade. A primeira coisa que farei quando for eleito é inscrever lapidarmente na Constituição Portuguesa o direito dos portugueses à felicidade”, afirma no vídeo de tempo de antena da campanha à Presidência da República.

O candidato de 63 anos prometeu já que só desiste “se for eleito” e mantém no programa a intenção de haver vinho canalizado em todas as habitações e fontes de bagaço nas ruas, patinadoras russas para todos os homens e dançarinos cubanos para as mulheres e, garantidamente, um Ferrari para cada cidadão.

Manuel João Vieira explicou, numa intervenção na Antena 1, que algumas das suas propostas, como Ferraris para todos os portugueses ou vinho canalizado são “metafóricas”.

“Portugal não é um país pobre. Portugal está em 14.º lugar no que diz respeito às reservas de ouro no mundo. O que eu quero é explicar às pessoas que o miserabilismo não interessa. Temos de olhar para a frente, temos de querer mais, temos de ser mais ambiciosos e dar um salto em frente. É preciso mudar o sistema para um sistema mais positivo”.


Entre as propostas, e numa questão importante como a imigração que tem estado na ordem do dia e do discurso de extrema-direita, Manuel João Vieira propôs tratamentos para clarear a pele de quem a tem mais escura e tratamentos para a escurecer a pessoas mais claras, de forma a “uniformizar” o tom de pele de todos os que vivem em Portugal.

“Se fazemos menos portugueses, virão mais não-portugueses para aqui”, pelo que “temos de fabricar mais portugueses de uma maneira biológica”. Além disso, o Estado português paga cursos a estudantes que depois se veem forçados a sair do país: “E depois não temos médicos cá. Acho que isso é patético. Dizem muitas vezes que eu estou a gozar com esta situação, mas eu acho que quem está a gozar são as pessoas que a criaram”.

Manuel João Vieira tinha já anunciado candidaturas às eleições presidenciais de 2001, 2006, 2011 e 2016, com ideias igualmente extravagantes. A nova candidatura do "Candidato Vieira" reuniu 12.500 assinaturas entregues no Tribunal Constitucional, um número acima do mínimo exigido de 7.500.
“Mais alta qualificação para governar”
Foi professor universitário, artista plástico, músico, fundador do grupo Ena Pá 2000 e é conhecido pelo tom satírico. Manuel João Vieira acredita ser o único candidato capaz de ajudar Portugal "a dar o salto".

O direito à Habitação, numa altura em que a crise neste sector tem sido muito abordado por todos os candidatos, é uma das prioridades do artista. Para Manuel João Vieira o Estado deve garantir “este direito a todos os portugueses”.

Num debate na Antena 1 com outros candidatos, quando o tema era Habitação Manuel João Vieira afirmou que “o país precisa de mais espontaneidade” e vincou que a sua inexperiência “é a mais alta qualificação para governar”.

“Acordo para as coisas com um olhar diferente cada dia. Acho que quando me demitisse teríamos uma verdadeira democracia, em que o presidente da Assembleia da República assumiria as minhas funções, conforme está estabelecido na legislação”, afirmou.

“É preciso uma nova atitude em relação ao país. O interior do país está a ser despovoado. Nós temos uma proposta que é a construção de Vieiropolis, uma construção no centro geodésico do país, que é uma cidade para um milhão de pessoas. Temos de deslocar a população que está toda no litoral”.

Para este candidato a sátira “pode ser disruptiva” em relação ao “discurso formatado pelos mais diversos fatores políticos” e não tem dúvidas de “que essa disrupção é necessária neste momento”.

Na ótica de Manuel João Vieira, o chefe de Estado “deve fazer aquilo que a sua consciência lhe ditar”, sendo “ágil e elástico” e podendo indeferir decretos e leis ou dissolver a Assembleia da República quando assim entender.

“Os poderes do presidente são para o presidente usar. Claro que não imoderadamente, não 'à maluca', mas eu sou por uma democracia hiperpluralista”
, explicou.

Ideia já defendida numa entrevista à RTP, na qual explicou que devíamos “ter vários parlamentos, vários governos, tudo ao mesmo tempo”. Exemplo de cenário que o candidato vê como reflexo da “confusão completa que está dentro dos portugueses”.

Manuel João Vieira critica repetidamente o facto de o país ser “dominado pela União Europeia”, que é “dominada pelos Estados Unidos”. E “Portugal tem que começar a olhar, por um lado, para lá de si próprio”.

É preciso dar “o salto” e “esse salto só pode ser dado com o candidato Vieira”.

“Exatamente por não ter experiência governativa, acho que sou o candidato para dar esse salto”, adiantou na altura.

E apesar de ser a Assembleia da República que tem de legislar, o candidato e artista plástico acredita que ao presidente da República “compete paternalizar e chatear, aborrecer de morte os ministros e os primeiros-ministros, para que cumpram determinadas ações que são importantíssimas para Portugal”.

Se fosse eleito Manuel João Vieira prometia cantar um hino que o próprio compôs, além do hino nacional.

“E faria uma coisa muito importante: um fado nacional”, afirmou nessa entrevista, enumerando outras medidas como abrir portas do Palácio de Belém para os portugueses irem comer leitão.
Humor 'nonsense' em Belém
Manuel João Gonçalves Rodrigues Vieira nasceu a 17 de outubro de 1962, em Lisboa. É um conhecido dos portugueses por ser um artista multifacetado com uma carreira que abrange música, artes plásticas, teatro, cinema, literatura e ensino.

É o filho mais velho do pintor português João Rodrigues Vieira e ficou mais conhecido como  músico e vocalista de bandas como Ena Pá 2000, Irmãos Catita e Corações de Atum, onde combina música com humor e teatro. Tem contribuído para a cultura portuguesa com atuações teatrais, vídeos e até uma série de ficção inspirada no universo artístico, intitulada “Um Mundo Catita”. E criou e interpretou personagens diversas em palco, com nomes como Lello Universal, Orgasmo Carlos, Lello Minsk ou Élvis Ramalho.

Manuel João Vieira produziu trabalhos que exploram tradições musicais portuguesas com um toque irónico, como por exemplo, um álbum que recupera o fado humorístico.

Figura conhecida do entretenimento há várias décadas, estudou Ilustração na Fundação Calouste Gulbenkian e licenciou-se na Faculdade de Belas Artes de Lisboa em 1988, seguindo o exemplo do pai. A sua obra tem uma componente teatral e fantástica e está presente em coleções de instituições como o Museu de Serralves e outras fundações culturais.

O artista dá ainda aulas em instituições superiores de artes em Portugal, nomeadamente na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha (IPLeiria) e noutras universidades, como a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em cursos relacionados com teatro, artes performativas e design.

É o atual proprietário do bar Titanic sur Mer no Cais do Sodré e autor de livros como “Só desisto se for eleito”, “6=0” e “Portugal Alcatifado – canções anormais”.

Manuel João Vieira é uma figura singular do panorama cultural português que se tem candidatado várias vezes à Presidência da República Portuguesa desde 2001. Mas só agora em 2025 conseguiu pela primeira vez recolher as assinaturas necessárias para que a candidatura seja formalmente admitida no Tribunal Constitucional.