Portugueses na Frente

Mesmo antes do Contingente Português ter sido enviado para a Flandres, dezenas de portugueses foram combater na frente de guerra. A maioria pelos aliados mas nem todos, como lhe contamos neste novo Postal da Grande Guerra.

Irmãos Gouveia - Ilustração Portuguesa
Hemeroteca de Lisboa
| Portugal na I Grande Guerra


Ao acompanhar o evoluir dos combates, a maioria dos jornais (republicanos) tratava os portugueses que combatiam nas fileiras dos aliados como heróis.
É o caso de George Bleck, filho de Joseph W.Bleck, cônsul da Grécia em Lisboa, que “milita em Inglaterra com o posto de tenente ganho em combate” e cuja partida de Portugal no final de 2015, após uma visita, merece atenção por o jovem abdicar “dos prazeres que a sua posição social lhe garantiu para r para o campo da batalha cônscio de cumprir o seu dever”.

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O recado aos filhos da nação é claro.

Quase um ano depois, mais um caso. O de três irmãos da Madeira, os Gouveia, o mais novo aviador em Inglaterra, a quem o pai dedica um postal.

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Os combates faziam naturalmente vítimas mortais mas apenas um caso surge mencionado, o de Oliveira Palma, morto por uma bala “sérvia”, depois de ter estado presente em várias frentes de batalha.

Surge ainda o caso de um soldado alistado nas forças francesas que, em 1916, escreve ao pai e aos irmãos, preocupado por poder ser considerado um desertor. A carta é publicada pela Capital, assim como outra correspondência a contar a história do jovem soldado.


Heremoteca de Lisboa

Accacio Trindade, que estudava no segundo ano de Engenharia em Paris quando se alistou, refere ao pai em 1916 que em breve irá enviar um certificado do regimento para justificar a sua ausência à conscrição nacional e não ser considerado desertor. 

Mas Paris regurgitava de portugueses, que viveram o início da Grande Guerra de forma apaixonada e crítica ao mesmo tempo. É o caso de Carlos Franco, artista, que envia alguns desenhos da frente à revista do Século, Ilustração Portuguesa.

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Também pela capital francesa andavam Mário de Sá Carneiro, Aquilino Ribeiro ou João Chagas.

Este último, “jornalista, escritor, crítico literário, político, diplomata e conspirador”, é em 1914 ministro de Portugal em França e representa os interesses de Portugal entre os aliados em Paris. 
  

Hemeroteca Digital

O seu diário está digitalizado pela Biblioteca Nacional e pode ser lido na íntegra em http://purl.pt/25015/3/ , sendo um documento fascinante sobre o evoluir do conflito e o ambiente “asfixiante” que se vivia em Paris no início da guerra. 

Em agosto, por exemplo, o avanço dos alemães em França parece imparável e todos “se perguntam”: “onde está o exército francês?” João Chagas conclui páginas depois que “os franceses não estavam preparados”.


Artilharia francesa - Hemeroteca de Lisboa

A mesma conclusão tem Aquilino Ribeiro, mas é por isso apelidado de ‘germanófilo’ – o pior insulto em Portugal naqueles dias, apesar de republicano, maçónico e anarquista desde a juventude. 


Aquilino Ribeiro - Biblioteca Nacional

O escritor publicará em 1934 o seu diário “É a Guerra”, misturando ensaio e crónica de jornalismo. O seu testemunho dos dois primeiros meses da Guerra em Paris entre 1 de agosto e 26 de setembro revela uma cidade sombria, cheia de refugiados, ’multidão fúnebre, ensimesmada no couce de féretros invisíveis’, que passeia ‘com tédio e melancolia, falando a uma voz, como se cada qual voltasse do cemitério de acompanhar o seu morto’.



Mas nem todos os portugueses, ao contrário do que a propaganda do Governo português fazia crer, combatiam pelos aliados.

Sua Alteza Real, o príncipe D. Miguel, alistara-se com os filhos no exército austríaco onde tinha o posto de general. E para que não restassem dúvidas quanto aos seus motivos, escreveu uma carta aos portugueses.

Carta D. Miguel - Hemeroteca de Lisboa

“Como filho de um rei que vos amou ao extremo e como verdadeiro e bom patriota, vos peço. Não vos deixeis arrastar a ir colher a morte inglória e a vossa própria desgraça pelas ambições pessoais d’aqueles que incompetentemente vos governam”, apela.

Dos vencidos não rezam as histórias. Se portugueses houve que seguiram D. Miguel, o seu exemplo não surge nas páginas dos jornais.

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