Michel Barnier: "Temos de reconstruir tudo" depois do Brexit

por RTP

O chefe das negociações da União Europeia para o Brexit esteve em Lisboa para participar na Web Summit e reunir com a classe política e os parceiros sociais portugueses. Em entrevista exclusiva à RTP, deixou vários avisos: diz que um "no deal" ainda é possível e afirma que o pós-Brexit se pode revelar muito complicado com tudo o que é preciso "reconstruir".

Michel Barnier, bem-vindo ao programa “Europa Minha”. Está em Portugal a convite da Web Summit. Tenho a impressão que várias profissões receiam aquilo que vai acontecer com o Brexit. Quais são os seus medos?


O meu medo é que não se consiga chegar a um acordo para uma separação ordenada, um divórcio ordenado, se me permite. É esse o medo. Desde há três anos, com a minha equipa, em nome da União Europeia - em nome de Portugal, da Alemanha, da França, de todos os países da União Europeia - juntamente com o Parlamento Europeu, trabalhamos para uma saída ordenada. É esse o meu mandato. E conseguimos, com o novo governo britânico de Boris Johnson, elaborar um acordo equilibrado para uma saída ordenada do Reino Unido. Lamentando ao mesmo tempo essa saída, porque somos muitos a lamentar o Brexit.


Trabalha arduamente há três anos nesse processo. O que o surpreendeu mais?


Para ser franco... Que o parlamento britânico - onde havia uma maioria de apoio ao governo - não tenha conseguido encontrar um voto positivo para aprovarem o acordo que fizemos com o governo britânico. Fiquei surpreendido com isso.


Pensa que hoje em dia os outros Estados-membros e os partidos eurocéticos, por exemplo, perceberam que é muito difícil sair da União Europeia?



Não tentei provocar essa consequência ou esse resultado. Sempre trabalhei com um grande respeito pelo Reino Unido. Tenho uma grande admiração pelo país. Não esqueço o que lhe devemos, a sua solidariedade. Sei que existe aqui uma relação histórica entre Portugal e o Reino Unido, respeitei tudo isso. Nunca fui agressivo. E temos de continuar a trabalhar com o mesmo estado de espírito para chegarmos a um acordo e, sobretudo, ultrapassar o Brexit. O Brexit não é um destino, é uma escolha política com muitas consequências.


No dia seguinte ao referendo, falava-se em França do Frexit, na Suécia do Suexit, mas isso agora acabou.


Sim, já não ouço a Le Pen, nem qualquer dirigente italiano falar de uma saída da União Europeia. É possível sair-se da União europeia. A União Europeia não é uma prisão, mas quando se sai, é preciso tomar a decisão, assumir as consequências. E é isso que os britânicos têm dificuldade em fazer hoje em dia. Ninguém, nem mesmo o Farage, foi capaz de me demonstrar, de me provar, a mais-valia do Brexit. Porque é uma decisão com muitas consequências negativas. No Brexit só se perde. Para quem sai - que decide sair e que é livre de sair - há muitas consequências que têm de ser bem explicadas. Uma das lições do Brexit é que se deve dizer a verdade aos cidadãos. Há que falar às pessoas e dizer-lhes a verdade. Há que respeitar os cidadãos.


Mas se já não se fala de Frexit em França pensa que houve, mesmo assim, coisas positivas que emanaram de todo este processo?


Há também as lições do Brexit. Porque é que tantos britânicos votaram contra a Europa? O que significa isso como cólera social, como medo, como aspiração a ser melhor protegido pela Europa, ter empregos no seu país? Há que ouvir atentamente essas lições. Isso é um sentimento popular que existe em muitas regiões, sem dúvida também em Portugal, mas no meu país, em França, na Bélgica, na Holanda, existe a expressão do mesmo sentimento. Na União Europeia, os novos dirigentes da Europa - Ursula von der Leyen que vai assumir funções, e que é uma mulher dinâmica -; Elisa Ferreira, que terá uma posição muito importante no seio da futura Comissão... Todos esses novos responsáveis devem tirar lições [do Brexit] e mudar um determinado número de políticas que têm de ser mudadas. 


Depois de 12 de dezembro, se não houver um governo maioritário, quais serão os riscos? 


Espero que haja uma maioria para o Reino Unido, desde logo, e depois também para avançar [no processo]. E nós fizemos um acordo com o novo governo, um acordo equilibrado. Se o governo britânico, se o Reino Unido continua a querer sair da União Europeia, de forma ordenada, esse acordo é o único possível.


Mas diz também que ainda há o risco, talvez, de ausência de acordo…


Há sempre um risco. No dia 31 de janeiro, o limite do novo período de templo suplementar que os britânicos solicitaram - e os dirigentes europeus aceitaram conceder mais esse tempo, esse novo adiamento - tem de haver um acordo ratificado. Há aí um primeiro risco de uma saída sem acordo, o que seria muito grave. Desde logo para o Reino Unido, mas também com consequências para nós. E depois há outro momento… Se houver um acordo, se o Reino Unido sair, não é o fim da história. Há que encontrar uma nova negociação para restabelecer uma relação económica e comercial. E há aí uma nova negociação, que vou encetar muito rapidamente: assim que os britânicos ratificarem o acordo. Temos de resolver essa questão até finais de 2020, e aí há um segundo risco de não haver acordo e, como tal, devemos estar muito atentos e mobilizados.


Ainda manifesta preocupação quanto à Irlanda do Norte… Se não houver acordo, quais são realmente os riscos?



Na Irlanda não se trata só de comércio e mercadorias, trata-se de homens, mulheres, da paz… Há vinte anos terminou na Irlanda um conflito muito grave entre o Sul e o Norte, os nacionalistas e os republicanos. Esse conflito provocou quatro mil mortos… Portanto essa paz que foi restabelecida é muito frágil e depende, em especial, da ausência de fronteiras na ilha da Irlanda. No meio da ilha não há fronteiras. Há que preservar essa situação.


Falemos do futuro. Ursula von der Leyen pediu-lhe que continuasse as negociações com o Reino Unido. Quais são portanto, para si, os grandes desafios? O que é necessário reconstruir? Utiliza muitas vezes esta palavra: "reconstruir"…


Temos de reconstruir tudo. Tudo, uma vez que o Brexit consiste em sair de tudo. O Reino Unido sai da União Europeia, das instituições, do Parlamento, da Comissão, sai do mercado único - os consumidores e as empresas britânicas já não estarão no mesmo ecossistema dos consumidores ou das empresas portuguesas - e sai da união alfandegária. É preciso reconstruir tudo. É esta negociação que teremos de começar; a nova presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, exigiu-me que estivesse preparado. A equipa está pronta, a Comissão está pronta, para trabalhar em nome do Conselho Europeu, dos 27 governos, e em nome do Parlamento Europeu. E atentaria também nos parlamentos nacionais, nos sindicatos, com que de novo me encontrei aqui em Lisboa, no patronato, nas empresas. É preciso que todos estejam juntos do lado da Europa. Vamos ter que entabular negociações comerciais equilibradas, sem taxas, sem contas, sem dumping; teremos de negociar pela pesca e pelos pescadores; em prol da cooperação entre as universidades; uma cooperação policial e judicial; uma cooperação a nível da defesa e da segurança…


E há uma surpreendente unidade europeia, desde há três anos, durante estas negociações. Pensa que isso irá continuar depois do Brexit, ou haverá, por exemplo, países que vão sofrer mais? Como Portugal, a Holanda, a Irlanda… Haverá divergências?


Nós sabemos que há países que estão mais expostos do que outros. Claro, e pela proximidade, a Irlanda desde logo… Falei disso. A Holanda, a Bélgica, Portugal, que tem essa relação económica, turística. Os produtos agrícolas portugueses que vão para o Reino Unido, nomeadamente os produtos frescos; os turistas britânicos que vêm em tão grande número a Portugal, algo que podemos compreender… e os cidadãos portugueses que vivem e trabalham no Reino Unido. Tenho tudo isso em conta, escuto toda a gente - e é por isso que prossigo as minhas visitas a cada capital… Sim, penso que todos têm interesse e vontade de permanecer unidos.


Muito bem. Muito obrigada.


Eu é que agradeço.