Procuradoria-Geral da República instaura inquérito
A Procuradoria-Geral da República decidiu instaurar um inquérito sobre os quatro casos de cegueira ocorridos após intervenções cirúrgicas na clínica I-Qmed de Lagoa, no Algarve, indicou nas últimas horas o gabinete de Pinto Monteiro. O delegado de Saúde do Algarve, Francisco Mendonça, minimiza a ausência de licenciamento da unidade e prefere focar-se no facto de as quatro infecções terem acontecido “no mesmo dia”.
A Ordem dos Médicos tem já em curso um inquérito e um processo disciplinar ao oftalmologista e director clínico da I-QMed, assim como a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS), que está a investigar o caso de Lagoa desde o final de Julho. A actividade da clínica é alvo de uma suspensão cautelar.
Até ao momento, não foi formalizada qualquer queixa junto das autoridades judiciárias. Mesmo assim, indica agora uma nota da Procuradoria-Geral da República, "foi determinada a abertura de um inquérito" ao "caso ocorrido na clínica I-QMed de Lagoa".
Investigações na Holanda
De acordo com a imprensa, o médico Franciscus Versteeg é suspeito de ter estado na origem de problemas oftalmológicos de vários doentes holandeses. O Diário de Notícias adianta esta quinta-feira que os inspectores de Saúde da Holanda estavam a investigar o oftalmologista há vários meses, depois de três dos seus doentes, operados na clínica holandesa Eye-Q-Vision, em Amstelveen, perto de Amesterdão, terem apresentado queixa. As autoridades sanitárias holandesas estão a colaborar com a IGAS e admitem, "na pior das hipóteses", suspender o médico.
Em declarações ao Diário de Notícias, a porta-voz da estrutura Inspectie voor de Gezondheidszorg adiantou que as queixas apresentadas na Holanda se "deveram a problemas de más práticas relacionados com a cirurgia". A clínica, noticia ainda o jornal, continua de portas abertas e o médico oftalmologista está a trabalhar. "As queixas referem-se apenas ao médico e não à clínica. Se identificarmos irregularidades que não estejam apenas relacionadas com o oftalmologista, então reavaliaremos a situação. Pelo que pudemos apurar, a clínica está a trabalhar de acordo com as regras", explicou a fonte ouvida pelo Diário de Notícias.
As habilitações de Versteeg estão também a ser escrutinadas pela Sociedade Holandesa de Oftalmologia.
O Jornal de Notícias avança, por sua vez, que o oftalmologista é suspeito de ter causado graves problemas a um total de 14 doentes holandeses, que recorreram aos serviços da I-QMed de Lagoa, atraídos pelo baixos preços ali praticados. Os doentes, adianta o diário, contraíram lesões permanentes nas córneas por falhas no laser. Foi à Real Associação Holandesa de Medicina, revela ainda o Jornal de Notícias, que chegaram as 14 queixas de maus procedimentos clínicos em Portugal.
Responsáveis "abalados"
O especialista holandês foi ouvido pela IGAS na tarde de domingo, numa inquirição que decorreu por mais de seis horas. Em comunicado publicado esta semana na página da I-QMed na Internet, os responsáveis pela clínica dizem-se "abalados" com o caso e garantem estar a colaborar com as autoridades sanitárias para perceber como é que os quatro doentes agora internados em Lisboa contraíram infecções oftalmológicas.
"A cirurgia que deveria proporcionar boa visão, mas pode eventualmente terminar em fraca visão ou até mesmo cegueira, naturalmente provoca uma forte reacção física e psicológica. Além da frustração do próprio paciente, fortes reacções a nível familiar serão normais. Temos noção destes aspectos e naturalmente sentimo-nos fortemente abalados pela condição dos pacientes", assinalam os responsáveis no comunicado. O site da I-QMed apresenta também uma cronologia das diligências que a clínica efectuou desde 2003, o ano da sua abertura, para a legalização junto das autoridades.
O delegado de Saúde do Algarve desvaloriza a ausência de licenciamento da clínica de Lagoa, afirmando tratar-se de uma "questão formal". Citado pela agência Lusa, Francisco Mendonça sublinha que "o que não é habitual é que no mesmo dia haja quatro doentes infectados".