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Roy Calne: "A Medicina é uma vocação, não é um negócio"

Roy Calne: "A Medicina é uma vocação, não é um negócio"

Realizou o primeiro transplante hepático bem-sucedido em todo o mundo, logo em 1987, e foi prémio Lasker, uma das mais prestigiantes distinções na Medicina. Roy Calne chega a Portugal para participar na iMed Conference e inspirar os médicos de amanhã, lembrando que o ramo “não é um negócio”.

Andreia Martins - RTP /
Foto: iMed Conference

Foi pioneiro na área da transplantação e investigou sobretudo os métodos de imunossupressão dos órgãos, uma realidade que permite melhorar a qualidade de vida e salvar milhões de pessoas todos os dias.

Por ocasião da iMed Conference, que arranca esta quinta-feira em Lisboa, entrevistamos Roy Calne via e-mail. O cirurgião equipara os mais recentes avanços médicos na área da transplantação, que seguem “de mãos dadas” com outras mudanças na Medicina, nomeadamente novos tratamentos para o cancro e a inovação trazida pelas cirurgias endoscopias. 

De todos os órgãos que conseguiu transplantar com sucesso, entre coração, intestinos, pulmões, o investigador destaca a concretização do transplante hepático como o maior feito da sua equipa de cirurgia, que foi aliás o primeiro a nível mundial. 

“De todos os transplantes que fizemos, o fígado foi para nós o mais importante, com uma técnica com grande dificuldade em ser melhorada”, conta.  

Roy Calne é membro da Royal Society e foi professor de Cirurgia na Universidade de Cambridge por mais de três décadas. Em 2012, o médico e professor de 85 anos partilhou com Thomas Starzl o Prémio Lasker, uma das distinções mais prestigiantes na área da Medicina nos Estados Unidos, e que premiou precisamente o sucesso na área da transplantação. 

Sobre os prémios recebidos ao longo da carreira, o especialista desvaloriza e diz que, por exemplo o Lasker, não trouxe uma grande consciencialização pública. “Na verdade, um amigo meu confundiu Lasker com Alasca, e disse na altura que seria muito interessante viajar até ao Alasca para receber o prémio – muito longe de Nova Iorque, onde o prémio foi realmente apresentado”, lembra o médico e investigador.  “Tivemos muitas deceções”
Roy Calne prefere enfatizar a extrema importância do trabalho da sua equipa nas “técnicas cirúrgicas e a abordagem clínica, especialmente no pós-tratamento”, mas sobretudo os estudos que vão no sentido de reduzir de forma segura a probabilidade de rejeição dos órgãos, através da imunossupressão, interesse central dos seus estudos desde 1959 até à atualidade. “Tivemos muitas deceções, mas também alguns sucessos”, diz-nos o investigador. 

Quando lhe perguntamos sobre os maiores desafios atuais da Medicina, Roy Cane lembra os problemas que encontra na área da transplantação: “A escassez de doadores de órgãos e o stress que esta questão coloca na ética médica são os maiores problemas”. A imunossupressão é uma prática comum na transplantação e consiste em fazer reduzir a atividade do sistema imunológico de forma deliberada, de forma a reduzir os riscos de rejeição do novo órgão.

Numa visão mais ampla, o médico destaca o tratamento dos vários tipos de cancro e ainda ultrapassar as dificuldades em prestar assistência médica nos Países em Desenvolvimento como “objetivos prioritários”. 

Desde sempre conjugou a carreira de investigador, médico e professor, uma atuação multidisciplinar que Roy Calne só valoriza. “Tive o privilégio de ensinar excelentes alunos, que sempre contribuíram com ideias novas e interessantes”, confessa.  

Em Portugal, Roy Calne quer deixar alguns conselhos aos mais novos: “A minha principal mensagem para os jovens estudantes é que estejam sempre cientes que a Medicina é uma vocação, não é um negócio. Devem ouvir os seus pacientes e resistir a todas as tentações de pressões comerciais”. 

Já sobre o percurso de investigador, que também consta no seu currículo, o médico avisa: “Se querem seguir o ramo de investigação devem manter-se com ambição, mas devem saber que a investigação é sempre difícil e pode ser repetitivamente desapontante”.  
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