Em Angola existe a "psicose dos golpes de Estado" - Rafael Marques

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Rafael Marques, que vai divulgar na Internet o livro do prisioneiro de consciência angolano Domingos da Cruz, afirma que as acusações contra os ativistas detidos em Luanda são uma "psicose" que perdura em Angola desde o "golpe de Nito Alves".

"Esta psicose dos golpes tem que ver com a participação ativa do Presidente (José Eduardo dos Santos) no processo do `fraccionismo`,porque o Presidente fez parte das reuniões de conspiração com o Nito Alves e sabia perfeitamente que a intenção não era dar um golpe de Estado, até porque o Nito Alves já tinha sido expulso do MPLA, e outros também. Como dariam um golpe se já não tinham poderes?", questiona Rafael Marques, referindo-se diretamente aos acontecimentos de 27 de maio de 1977, que provocou uma purga interna que se saldou em milhares de mortos.

O levantamento de Luanda, dois anos após a independência da República Popular de Angola, foi apontado pelo MPLA como um "golpe de Estado" liderado pelos "fraccionistas" Nito Alves, que tinha sido destituído do cargo de ministro do Interior em 1976, e José Van-Dúnem, marido da ex-militante do PCP, Sita Valles, que foi executada na sequência dos acontecimentos do 27 de maio.

Antes do alegado "golpe", Nito Alves e José Van-Dúnem -- igualmente executados -, tinham sido afastados dos cargos que ocupavam no Comité Central do MPLA, quando José Eduardo dos Santos era vice-primeiro-ministro.

"Quando se perceber a história do 27 de maio e de como José Eduardo dos Santos chegou ao poder nós perceberemos porque, até hoje, ele tem este mesmo estratagema para reforçar o seu poder político e eliminar as vozes internas que se multiplicam contra o seu poder", acrescenta Rafael Marques, sublinhando que em 2015 a "teoria do golpe de Estado" volta a prevalecer.

"Ele (José Eduardo dos Santos) passou mais uma mensagem interna, no seio do seu próprio partido, no seio das Forças Armadas, da Polícia Nacional, usando estes jovens como danos colaterais, porque acusá-los de tentativa de assassinato do Presidente e de outros membros dos órgãos judiciais só cabe na cabeça de indivíduos altamente responsáveis", acusa o jornalista e ativista, autor do livro "Diamantes de Sangue".

Segundo Rafael Marques, igualmente envolvido num processo judicial em Angola relacionado com a edição do seu livro "Diamantes de Sangue", acusar os 15 jovens "de terem qualquer capacidade para montar um golpe, nem sequer chega a ser ridículo. É um insulto ao aparato militar e de informações que durante esses anos o próprio governo foi criando e desenvolvendo".

"É a obsessão do poder em criar inimigos como fonte de renovação do medo que impõe na sociedade e, desta vez com a atuação incipiente dos partidos da oposição, estes jovens foram apontados, indivíduos como eu, porque são inimigos do poder", conclui Rafael Marques, que participa a partir de domingo do Movimento Mundial para a Democracia, na Coreia do Sul, onde vai apelar à libertação dos prisioneiros de consciência angolanos.

 

 

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