Portugueses sentiram a angústia "debaixo dos pés"

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Dezenas de portugueses residentes em Londres foram afectados pelos ataques terroristas de quinta-feira e, apesar de todos terem saído ilesos, os que estavam próximos dos locais dos ataques sentiram as explosões e a angústia demasiado perto.

João Lei, um economista de Santa Maria da Feira, residente em Londres há apenas sete meses, foi um dos que sentiu um dos violentos estrondos "mesmo debaixo dos pés".

Em declarações à Agência Lusa, este jovem de 26 anos, que vive em frente da estação de metro de Aldgate, contou que se preparava para sair de casa quando sentiu "um enorme abanão no prédio todo".

No princípio, João não podia imaginar o que estava a acontecer e por isso seguiu "a vida de todos os dias", caminhando até Liverpool Street, onde fica o edifício onde trabalha.

"Sempre que chove faço este percurso de metro, mas quinta- feira, como estava bom tempo, fui a pé", explicou.

No final do dia, depois de assistir a horas de transmissões televisivas com as informações dos atentados, o português conseguiu furar a barreira de segurança, entrar em casa, sentar-se no sofá e, tal como descreveu, "pensar em todos os +ses+ desse dia. Se tivesse saído mais cedo, se tivesse chovido...".

Perguntas que lhe marcaram a memória, mas que não diminuem outra lembrança de medo, sentido essa manhã, quando ouviu as primeiras confirmações dos atentados e, como todos os londrinos, tentou contactar os amigos.

"Queria falar especialmente com um dos meus melhores amigos, que vive em Liverpool Street, e que todos os dias faz o percurso do metro que explodiu. Foi horrível porque durante muito tempo não conseguia. O telefone não funcionava", explicou.

Quase uma hora depois, o amigo, também ele português, acabou por responder: "tinha saído na noite anterior, para beber uns copos, e por isso acordou mais tarde. Perdeu o metro habitual, imagine-se...".

Minutos antes de João deixar Aldgate, pelo seu próprio pé, Fernando Albino, advogado, também emigrante em Londres, saia da mesma estação vindo da outra ponta da cidade.

"Utilizei o metro para ir trabalhar, como sempre, e saí na estação de Aldgate. A diferença para os outros dias é que assim que entrei no café em frente à estação, onde vou sempre, ouvi aquela enorme explosão. Um som muito forte e abafado", explica com a precisão de quem já passou muitas horas a descrever a feliz coincidência a familiares e amigos.

Ainda sem perceber o que se passava, Albino dirigiu-se para o escritório onde trabalha, poucos metros ao lado, sendo que mesmo nesse momento, conta, "o único vestígio era o fumo que saía da ventilação do metropolitano".

Dentro do escritório não esperou muito até que o pior se confirmasse: "Os altifalantes de emergência da empresa começaram a transmitir a mensagem de que havia um alerta de bomba, pelo que todos os funcionários foram mandados para o centro do andar e foram fechadas as janelas".

"Dou-me agora conta da sorte que tive, porque provavelmente vim no metro mesmo à frente do que explodiu", concluiu, antes de prometer "andar de metro hoje, amanhã e sempre, para não ceder a esta intimidação selvagem".

Miguel Braga, outro emigrante português que vive em Londres há três anos, explica que só não sentiu a explosão porque "felizmente não estava em casa".

"Mas os meus vizinhos contam que sentiram o estrondo do autocarro como se tivesse dentro de casa, o que é bastante normal porque só vivemos a 100 metros de Tavistock Place", onde aconteceu o único atentado fora do metropolitano.

Em Londres há um movimento contínuo de ambulâncias e carros de emergência, mas, mesmo assim, conta, "as pessoas com quem falei disseram-me que a violência da explosão foi de tal ordem que todos pensaram imediatamente num ataque terrorista".

As consequências dos ataques acabaram por afectar Miguel de uma forma mais ligeira, quando tentou ir almoçar a casa e a polícia lhe barrou o caminho, dizendo que só seria possível passar o controlo de segurança se mostrasse um documento comprovativo da morada.

No final de tudo, desabafa, "com problemas destes podemos todos bem".

Os atentados de Londres fizeram mais de 50 mortos e 700 feridos, 100 dos quais ainda estão hospitalizados, 22 em estado grave, segundo o último balanço da polícia londrina.

JC Fim/Lusa


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