António Santos, autor de um diário das trincheiras

Os poucos soldados alfabetizados serviam muitas vezes de secretários aos seus companheiros e escreviam-lhes as cartas para casa. O cabo António Santos fez mais do que isso: escreveu também um precioso diário de guerra, que relata o seu quotidiano nas trincheiras e, depois, no cativeiro, quando caiu em mãos dos alemães.

António Pereira dos Santos
DR
| Portugal na I Grande Guerra

Gil Santos, entrevistado pela RTP para o documentário "Portugueses nas trincheiras", é neto de António Pereira dos Santos, combatente da Primeira Guerra Mundial, prisioneiro das tropas alemãs depois de La Lys (9 de Abril de 1918) e autor do diário que aqui se toma como referência.


Pergunta: Gil Santos, comecemos pelo processo de incorporação do seu avô. Como é que ele foi chamado às fileiras?


Resposta: Ele foi incorporado no Batalhão de Infantaria 19 da cidade de Chaves em Abril de 1917. Portanto fez o serviço militar, a instrução, até ficar pronto, a 28 de Julho foi promovido a 1º cabo. A 12 de Agosto teve curiosamente o primeiro castigo da vida enquanto militar, porque, enquanto cabo da guarda, deixou passar um rancho para ser vendido cá fora e apanhou uns dias de castigo. Depois a 29 de Agosto, foi mobilizado para a Primeira Guerra Mundial, portanto para a Flandres, para França.

P: E não teve mais instrução específica para a guerra, além dessa em Chaves?

R: Ele teve a instrução normal no Batalhão de Infantaria 19 em Chaves. Não teve, pelos contactos que tive com ele e pelas histórias que ele me contava, uma instrução especial para aquela guerra.

Efetivo mobilizado por unidade

Batalhões de infantaria
Nº da unidade Local Nº de oficiais Nº de praças pré
1 Lisboa 46 678
2 Lisboa 21 693
3 Viana do Castelo 22 743
4 Faro 19 660
5 Lisboa 17 660
8 Braga 26 782
9 Lamego 22 758
11 Évora 18 692
12 Guarda 13 780
13 Vila Real 20 771
14 Viseu 16 773
15 Tomar 24 878
17 Beja 30 637
20 Guimarães 21 725
29 Braga 21 770
30 Bragança 25 577

Artilharia
Grupos Nº de oficiais Nº de praças pré
1º Grupo 31 664
2º Grupo 33 708
5º Grupo 24 744
6º Grupo 24 686


P.: Como é que ele foi embarcado para França?

R. Ele só foi a 29 de Agosto, incorporado em dois pelotões, que fizeram um percurso sui generis até Lisboa. Foram a pé de Chaves para Mirandela, para apanharem o comboio para Bragança, para incorporarem com o 30 de Bragança, com a Infantaria 30 de Bragança. E depois fizeram a viagem de comboio para Lisboa, e embarcaram em Lisboa num vapor que os levou então na viagem dos três dias até Brest na Bretanha Francesa.



P: Há uma parte do diário do seu avô que é muito interessante e que eu pedia que nos contasse também, sobre a separação dele da família.

R.: Por aquilo que eu percebi ele não teve oportunidade de se despedir da família, ou melhor, não teve conhecimento da incorporação antes de se despedir da família. E quando chegou ao planalto do Brunheiro, antes de chegar à aldeia donde era natural, Amoina Nova, do concelho de Valpassos, onde moravam os pais, ele pediu ao aspirante para poder visitar a sua família e despedir-se dos manos, das manas e dos seus amigos e da sua família.

O aspirante temeu que ele fugisse e ofereceu alguma resistência à possibilidade de ele ir despedir-se dos pais, mas acedeu e então disse-lhe: "Olha, eu deixo-te ir agora à noite, mas amanhã de manhã às oito horas estás em Mirandela para seguires connosco para Bragança".

P.: Custou-lhe cumprir a palavra dada?


R.: Ele foi-se despedir dos pais e o pai fez questão de o acompanhar a cavalo até Mirandela. Estamos a falar de cerca de 35 a 40 quilómetros de Amoina Nova a Mirandela. Fizeram a viagem de noite, chegaram às oito da manhã, e fizeram a despedida sobre a ponte no rio em Mirandela. O pai abriu a carteira - também está no diário - e disse: "Olha meu filho, eu não sei para onde é que vais. Leva o dinheiro que quiseres, porque é capaz de te fazer falta". E então ele, com as lágrimas nos olhos, deu um abraço ao pai e despediu-se.

E quis deitar-se ao rio, mas depois os seus camaradas espalharam-no - é o termo que ele utiliza, "espalharam-no" -, foram dar uma volta por Mirandela e embarcaram para Bragança. Depois, em Bragança estiveram cerca de 10 dias, em preparação. Foram fardados e depois tomaram o comboio para a Régua e depois no sentido Porto, Lisboa.



P.: Quando o pai lhe diz que não sabe para onde ele vai, o que é que isso significa exactamente?

R.: Significa que provavelmente o pai sabia que ele ia para a guerra, mas tinha a secreta esperança que isso ainda não acontecesse. E o meu avô combatente, para descansar o pai, disse-lhe: "Não, pai, eu vou para Bragança, mas não vou para a guerra, se calhar vou ficar por lá".

Evidentemente, nós estamos a falar de uma aldeia recôndita, num planalto transmontano, isolada, estamos a falar do ano de 1917, em que não havia rádio, televisão, jornais, em que as pessoas não sabiam ler nem escrever. As notícias chegavam, ou muito tardiamente, ou muito enviesadas.

P.: Que significado é que ele atribuía ao diário que fez?


R.: Eu vivi com ele até aos 20 anos, convivi com as suas histórias. Ele, o diário que escreveu a contar a sua vida enquanto militar tinha muito gosto em emprestar a toda a gente. O livro andava sempre por fora de casa, sempre com a recomendação que voltasse - e voltou - intacto.

Ele tinha muito orgulho naquele livro. E tinha enfim uma esperança que alguém um dia pegasse nele e o pudesse divulgar e pudesse divulgar a sua história. Ele apostou em mim, portanto eu tenho quase que um compromisso com o meu avô de enfim trazer a público esse sofrimento que ele teve na Primeira Guerra Mundial.

P.: Como é que foi o embarque, e como é que foi a viagem?

R.: Ele embarcou em Lisboa, no vapor. Conta que apanharam dois sustos nesses três dias do caminho até Brest, porque havia um submarino alemão que apareceu e portanto o barco ficou na iminência de ser bombardeado. Havia dois couraçados a acompanhar esse navio, mas por graça de Deus, como ele diz, não aconteceu nada.

Depois, mais à frente também, obrigaram-nos, como ele diz no diário, a "pôr umas cortiças ao peito". Mas também, por Deus querer, nada aconteceu.



P.: O que queria ele dizer com isso de pôr as cortiças ao peito?


R.: Aconteceu que tocaram os alarmes e eles levavam aquilo a que se chama hoje salva-vidas. Naquela altura, seriam cortiças - a cortiça bóia e portanto seriam os coletes salva vidas daquela altura, e portanto puseram ao peito.

Ele também conta que sofreu muitos enjoos e há uma coisa curiosa que ele diz:  "Então eu só comi cebola e azeitonas, foram as minhas refeições durante esses três dias de viagem". Azeitonas e cebola que ele comprava no próprio navio, com certeza com o dinheiro que o pai lhe deu.

Chegou lá como muitos outros, bastante doente. Estamos a falar de uma pessoa que teria visto pela primeira vez o mar nessa viagem, aliás como muitos outros, o mar era uma coisa complicada. Uma viagem de 3 dias para a guerra devia ter sido de facto uma viagem muito atribulada, muito complicada.

Então chegaram a Brest, dia 11 ou 12 de Setembro de 1917. Em Brest tiveram apenas um dia e uma noite. Começou logo aí a miséria. Chegado a Brest, teve os primeiros contactos com o cenário de guerra.

P.: Não teve de esperar o desembarque dentro do navio?

R.: Ele, antes de partir, tinha estado dois dias parado ainda no Tejo, à espera que o barco partisse. Desta vez, esteve algum tempo mas não muito. Creio que não chegou a um dia à espera de ser desembarcado. Pronto, foi desembarcado, ficaram lá e esteve em contacto com o primeiro cenário de guerra.

Começou aí a fome, foram distribuídas então cinco bolachas a cada um e um pouco de marmelada. No dia seguinte embarcaram no comboio com destino à Flandres, portanto às zonas de acantonamento. Seguiram, e passados três dias desembarcou em Boulogne-sur-Mer, que era exactamente a estação de desembarque dessas tropas, e seguiu a pé.

Ele queixa-se muito do peso da mochila. Durante 12 quilómetros seguiu para Ambleteuse, que foi o acampamento onde ele esteve cerca de três meses.

P.: Como era a vida em Ambleteuse?


Ambleteuse era uma vila que se situava na costa, portanto eles tinham praia. Ele não refere nada. Por outras leituras ficamos a saber que era um campo bastante grande, onde havia até regras para utilização da praia. Ele aí, diz ele no diário que se safou da instrução, porque era quarteleiro.

Conta também algumas das manobras que faziam para conseguir alimentos. Eles iam à vila e compravam pão, quando algum conseguia licença, comprava o pão que podia e vinha carregado para valer a todos os seus camaradas.

P.: E não encontravam dificuldades para se abastecerem por essa via?


R.: Aí punham-se dois problemas, que era o problema da língua, que lhes era estranha, e o problema da moeda que era aceite a moeda portuguesa nessa altura. Mas eles ultrapassaram isso e de facto nessa altura o que lhes valia para a fome era exactamente aquilo que conseguiam na vila de Ambleteuse.

Depois o comandante apanhou um dos seus camaradas carregado de pão, e a partir daí é que foi, como ele diz, fome de veras. Porque a partir daí proibiu as saídas, e eles tiveram então muitas dificuldades de facto, porque a comida era-lhes muito estranha e era pouca.

A comida era fornecida pelos ingleses. Houve algumas adaptações, mas não era muito do agrado dos portugueses.

P.: Quando foi de Ambleteuse para as trincheiras?

R.: A 20 de Novembro ele saiu então de Ambleteuse, apanhou o comboio novamente em Boulogne-sur-Mer e marchou marchou para Neuve Chapelle, portanto frente de combate. Chegou às 11 da noite do dia 21 de Novembro de 1917 à Frente.

Andaram perdidos toda a noite, alguns já, caíam para o lado, com as mochilas muito pesadas, e portanto chegaram a Neuve Chapelle e  ele foi incorporado nesse. Na noite seguinte foi para a primeira linha. E sofreram um dos grandes bombardeamentos. Aí é que de facto tomou o primeiro contacto com a realidade da guerra.

P.: Como é que era o quotidiano dele nas trincheiras? O que é que ele descreve?

R.: Descreve muitas coisas relativas à fome por um lado, ao frio por outro e à miséria digamos assim, ao bombardeamento, e às patrulhas.

Ele relata-as: fez quatro ou cinco patrulhas na terra de ninguém. Aí refere-se ao medo - ao medo que ele tinha de ser morto, ao medo de ser feito prisioneiro, portanto ele faz alusão a esse medo várias vezes. Mas a fome foi sempre o grande problema dele.

P.: Esses relatos concentram-se todos no diário dele?


R.: Ele contou-me várias histórias, que se passaram enquanto ele esteve nas trincheiras. Contava-as sempre que podia, às pessoas que privavam com ele depois na aldeia.

Eu vivi com ele até aos 20 anos como já disse, e como sabe em Trás-os-Montes, onde ele vivia, há dois momentos solenes: a sesta nas tardes de Verão, depois de almoço; e os serões no Inverno. Quando ia alguém fumar, eu, enquanto miúdo, aquilo mexia um bocado comigo e estranhava um bocado.

P.: A que se devia essa estranheza?


R.: Ele metia-se sempre com as pessoas que fumavam, dizia: "Olhe, vou-lhe contar uma história, e o senhor vai deixar de fumar. Eu fui combatente da Primeira Guerra, e estava uma noite na primeira linha. E na primeira linha havia umas vigias, mais altas que os parapeitos da trincheira, para se fazer a vigia para o campo do inimigo. Então um camarada meu estava de vigia no turno de 2 horas e apeteceu-lhe fumar um cigarro e pediu a outro camarada para o substituir e desceu à trincheira e fumou o seu cigarro. Antes de acabar o cigarro subiu 2 degraus e deu a última puxada no cigarro, já num nível superior ao parapeito da fronteira".

E depois ele dizia uma expressão muito interessante: "E, como vocês sabem, o fogo de noite é como a cal de dia: vê-se a centenas de quilómetros. Então os alemães deram conta que ali estavam tropas na primeira linha e começaram um bombardeamento e nessa noite, morreram 6 camaradas. Então eu a partir daí nunca mais fumei".

P.: Não estavam com ele outros conterrâneos de Chaves?

R.: Na primeira incorporação do 19 foi mobilizado um capitão, médico, 41 anos, muito conhecido em Chaves, Adelino Fernandes, que ele conhecia de ouvir falar porque era uma pessoa proeminente na cidade de Chaves.

Então ele conta também esta história que é muito interessante. Ele estava na linha C, num abrigo, quando se deu um grande bombardeamento sobre a primeira linha. Estavam bastantes camaradas feridos, e os maqueiros não davam vazão a tanto ferido e foi preciso chamar alguns médicos para ajudarem esses feridos.

Ele viu que esse capitão médico, com a pressa, vinha desprevenido. Estava muito frio, e ele vinha sem capote, e com as botas todas esburacadas. Quando o viu passar, chamou-o: "Meu capitão, faça favor - o meu capote, e as minhas botas". Ofereceu-lhe o capote e as botas, para ele levar. Ele esteve lá, resolveu os problemas que tinha a resolver e quando regressou veio ter com o primeiro cabo António Santos, meu avô, e pediu-lhe os dados dele, todos.

Quando soube que era de Chaves, identificou-se como sendo de Chaves também e pronto, a partir daí nunca mais teve contacto com ele, senão quando em casa depois já da guerra lhe apareceu um recado do Dr. Fernando Chaves para ir ter com ele à Casa de Saúde, que ainda existe hoje, em Santo Amaro em Chaves.

Então o filho era médico, apresentou-o ao filho e contou-lhe a história e disse: "Este senhor tem aqui na nossa Casa de Saúde um tratamento privilegiado. As consultas dele e da família nunca serão pagas nesta Casa de Saúde". E assim foi, ficou muito amigo. Tanto assim que eu próprio nasci nessa Casa de Saúde, quiçá por causa disso.

P.: O que é que ele recorda do moral e da disciplina das tropas das trincheiras?


R.: Ele refere muitas vezes a desmoralização dos próprios camaradas e o roulement, que até determinada altura se faz de seis em seis dias. As tropas da primeira linha eram substituídas, iam para a retaguarda descansar seis dias. Os seis dias de descanso eram muito curtos para aquilo que eles precisavam.

Ele fala da desmoralização dos colegas,das saudades da família, de Portugal, da comida. E curiosamente no seu diário - e é extenso o diário - não fala em nenhum nome de nenhum camarada senão uma única vez. Quando estava em Ambleteuse, no aquartelamento, a fome foi-lhe superada muitas vezes, por um amigo, Manuel Carpinteiro, de Vilaranda, que é uma aldeia muito próxima da sua. Estando esse amigo seu com os sargentos. roubava os sargentos para o meu avô poder comer. Foi uma coisa curiosa.

Ele tinha a patente de primeiro cabo, provavelmente por saber ler e escrever. Por exemplo, nas patrulhas de reconhecimento ele ia colocar os praças lá e depois voltava. Ele fala várias vezes na desmoralização, por causa da fome, por causa do frio, por causa dessa miséria até da própria doença como se deduz agora.

P.: Como é que ele descrevia a ofensiva alemã em 9 de Abril, conhecida como "batalha de La Lys"?

R.: Ele contava que a 1ª Divisão retirou da frente no dia 7 de Abril, e havia uma ordem de serviço para retirar a segunda divisão a partir de 9 e 10 de Abril. O meu avô fazia parte da 2ª Divisão, estava incorporado no Batalhão de Infantaria de Viana do Castelo Nº3 que estava nessa noite. A 4ª Companhia desse batalhão, à qual ele pertencia, estava de reserva em Levanti.

Ele conta no seu diário, que o bombardeamento começou pelas 4h15 da manhã. Diz que a meio da noite estavam a descansar e foram chamados para as primeiras linhas, onde estavam a ser fortemente bombardeados.

P.: Por onde começou o bombardeamento?


R.: O bombardeamento começou exactamente pela retaguarda, para acabar com as comunicações, e no percurso até à primeira linha ele refere que já só chegou quase meia companhia.

O bombardeamento continuou durante toda a noite, ele diz que não se via nada, só cheirava a pólvora e não se via um palmo à frente do nariz. Foi uma noite, como ele diz no diário, de grande "nevoeira", portanto o nevoeiro não os deixava ver ele não sabia onde estava, não havia comunicações. Ele refere isso: não era possível chegarem reforços, porque as comunicações que se faziam para a retaguarda não chegavam, os verylight eram lançados mas não eram vistos por causa do nevoeiro.

P.: Como reagiu a tropa portuguesa a essa ofensiva?


R.: Durante toda a manhã eles foram retirando da linha A para a linha B e até a linha C, e foi por volta das 11 horas que eles deram conta que os homens estavam muito perto. Os alemães vinham em tenaz, ele e meia dúzia de camaradas que estavam com ele começaram a ouvir os alemães de um lado e de outro a queixarem-se, lamentos em alemão dos feridos, portanto viu que os alemães estavam muito perto já.

Aí refere o problema: se subiam acima do parapeito, eram trucidados pelas balas dos inimigos. Então deixaram-se ficar muito amarradinhos na vala até que os alemães chegassem. Os alemães chegaram, apontaram as baionetas, ele levantou as mãos e disse: "Nós somos bons prisioneiros".

P.: Em que momento do dia é que isso aconteceu?

R.: Ele diz que foram feitos prisioneiros por volta das 11 horas da manhã. Seguiram para o lado alemão e começou o fogo, diz ele que a partir aí do meio dia, uma hora. Muito fogo da parte dos soldados dos aliados.

Ele diz também aí que só depois é que viram todo o fogo que fizeram, teve proveito, havia muitos soldados mortos e feridos e passaram o dia todo a transportar mortos e feridos. Os feridos para a padiola como ele diz, feridos para os hospitais de campanha, para as enfermarias. E os mortos eram enterrados nas crateras das granadas e dos morteiros.

Foi uma noite, terrível, ele dedica alguns poemas, algumas quadras, a essa noite. Diz até que os alemães eram como os judeus a crucificar Nosso Senhor. E quando chegaram de facto experimentou aí então a primeira parte da miséria de ser prisioneiro, que depois se estendeu de 9 de Abril até ao fim da guerra a 11 de Novembro de 1918, não é. 

P.: Até quando é que ele viveu, e em que estado físico e estado psicológico?

R.: Ele nasceu em 1895 e morreu em 1976, já depois do 25 de Abril. Morreu lúcido. Eu assisti às últimas duas horas da sua vida. Foi uma coisa que me tocou muito, porque ele viveu essas duas horas como se na trincheira estivesse. Eu acredito que ele passou nessas duas horas o filme da batalha de La Lys toda. Foi uma morte agitadíssima, em que ele falava, em que ele gesticulava em que ele sofria como se estivesse na noite de 9 de Abril.

Foi um homem que nunca teve, que eu lhe conhecesse, nenhum tipo de doença, não tinha problemas de pulmões. E muitas vezes foi sujeito aos gases tóxicos e usou máscara concerteza muitas vezes, aliás como está no seu diário.

P.: E a guerra não lhe deixou traumas de natureza psicológica?


R.: Depois da guerra ele viveu em função sempre do medo que a guerra provocava em si. Em casa do meu avô não podia nunca faltar lenha e portanto em Março nós fazíamos o corte da lenha do carvalho negral e enchíamos os palheiros de lenha para o resto do ano todo.

Tinha que ter um grande moroso de batatas, como se diz em Trás-os-Montes, e quando ele visse que a galheira só tinha uma única broa de pão de centeio, coziam-se cerca de 15. Ele não podia ver a galheira só com um único pão. Portanto ele viveu sempre com o medo da fome.

P.: Além desse medo da fome e do frio havia também nele algum medo mais em geral da guerra, das guerras que houve enquanto ele viveu?

R.: Eu nasci em 1957 mas ele deve ter vivido a Segunda Guerra Mundial, duma maneira muito especial, porque a guerra dizia-lhe a ele aquilo o que não dizia às pessoas que lhe eram próximas.

Eu vi sempre em casa do meu avô, o que é raríssimo numa aldeia como aquela, o "Primeiro de Janeiro" - com 5 a 6 dias de atraso, mas chegava lá. O meu avô distraía-se à lareira a ler o jornal, lia o jornal sempre que podia e sempre que ele lhe chegava. Sentava-se no escano, que é aquele banco transmontano, sempre com o capote de guerra, que ele usou na guerra e que fez questão que o acompanhasse de mortalha.

Ele recebia esses jornais e lia, eu não me lembro na minha família alguém que lesse o jornal como ele o fazia. E portanto presumo que o medo da guerra estivesse sempre presente e tivesse vivido o período da Segunda Guerra Mundial de uma maneira muito especial. A guerra colonial começou já ele já tinha uma certa idade e isso já lhe passou um bocadinho ao lado.

P.: Uma última pergunta: manteve contacto ou fazia referências a outras pessoas como o tenente coronel Craveiro Lopes, como o tenente Afonso do Passo, como o Hermenegildo Labinho, que estiveram também prisioneiros na mesma altura?

R.: Não, eu nunca ouvi o meu avô falar em nomes de comandantes, a não ser desse capitão Adelino Fernandes e no "Milhões". O "soldado Milhões", doía-lhe muito referirem-se ao "soldado Milhões" como faziam. E sabe porquê? Porque o meu avô dizia: "Como é que é possível, alguém ser um herói de guerra quando matou mais portugueses que alemães?".

É interessante porque ele diz que no 9 de Abril quando foi feito prisioneiro, perguntava: "Mas que raio de fogo é este que vem do nosso lado?". Ele diz que naquele nevoeiro, naquela confusão, o fogo sabe-se lá bem de quem era. Mas ele atribuiu esse fogo ao "soldado Milhões" que dizia ele que matou tantos portugueses como boches, e portanto tinha-lhe raiva. Tinha-lhe mesmo ódio e ouviu falar muitas vezes, muito mal do "soldado Milhões" exactamente por causa disso. Naturalmente que não teria uma razão logicamente, mas que se referia a isso assim, referia.

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