António Santos: saga de um prisioneiro, da Flandres à Prússia Oriental

Gil Filipe Santos é bisneto do cabo António Santos, que foi prisioneiro dos alemães na Primeira Guerra Mundial. A entrevista sobre o prisioneiro é complementar da de Gil Santos, neto de António Santos e pai de Gil Filipe Santos, publicada na semana passada, que se concentra sobretudo na sua vida de combatente.

| Portugal na I Grande Guerra

A entrevista reflecte a realidade dos campos destinados a soldados e sub-oficiais, diferente da dos campos destinados aos oficiais .


Pergunta: Como foi o percurso do cabo António Santos até ao primeiro lugar de cativeiro?

Resposta: A primeira noite, a noite de 9 para 10 de Abril, foi passada em cenário de guerra, ele conta que foram colocados num lamaçal cercados por uma cerca de arame farpado. Diz que era como se guarda os animais no monte.

P. Como foram tratados nesses primeiros momentos de cativeiro?

R.: Foram sentados todos lado a lado e aí foram despojados dos seus bens. Tudo o que interessava aos soldados alemães era-lhes retirado. E conta que eles de facto tentavam iludir os soldados, guardando os objectos que mais valor tinham para eles, os seus relógios, os seus bens pessoais, e depois trocavam esses bens por alimentos, tentavam corromper os próprios soldados alemães.

Esta primeira noite é passada completamente ao relento. Estamos a falar de homens que há 24 horas que não comem nada e recebem a primeira refeição no caminho para a cidade francesa de Lille, no dia seguinte.

P.: Que recordações nos deixou ele sobre essa passagem em Lille?

R.: A cidade de Lille estava já sob o domínio alemão desde o início da guerra e portanto os próprios civis franceses eram eles próprios como que prisioneiros dos alemães. Então, à chegada dos prisioneiros portugueses, os civis franceses juntavam-se em multidões tentando encorajar os próprios soldados e atirando-lhes pedaços de comida, que era o que eles aproveitavam para comer nessas alturas. Obviamente que estas acções eram reprimidas pelos soldados alemães.

Eles passam a primeira noite num quartel em Lille, e depois seguem para a cidadela de Lille, para uma fortaleza que servia como uma espécie de entreposto na distribuição dos prisioneiros portugueses para os diferentes campos de concentração alemães. Passam cerca de três dias em Lille e seguidamente recebem ordem de marcha para o primeiro campo na Alemanha.

No caminho para a estação de comboio (eles viajaram de comboio), no caminho para essa estação, ele conta casos verdadeiramente comoventes dos seus compatriotas e dele próprio. Obviamente que tentavam furar as fileiras dos soldados alemães e nos campos agrícolas em volta tentavam retirar todos os alimentos, para assim conseguirem sobreviver.

P.: Como foi então essa viagem de comboio?


R.:  Eles apanham o comboio com destino à Alemanha e viajam em carruagens sem o mínimo de condições. Ele diz até diz que eram carruagens de transportar animais, portanto sem o mínimo de condições de higiene e de segurança.

E então fazem o caminho, o caminho longo de dois dias e duas noites, passando por Bruxelas até a Alemanha. Na Bélgica eles não chegam a sair do comboio, ficam o tempo todo dentro do comboio. São novamente incentivados pelos civis belgas e alimentados por eles.

P.: E da chegada à Alemanha, que memórias registou o cabo António Santos?


R.: Quando entram na Alemanha, ele apercebe-se de que o seu destino ia mudar. Ele nota grande hostilidade por parte dos próprios civis alemães, agora em vez de os incentivarem, obviamente que os insultavam, em vez de lhes atirarem pão atiravam pedras à carruagem.

Ele chega então ao campo de prisioneiros, que fica a norte da cidade de Colónia, um campo muito grande, com muitas infra estruturas muito bem organizado, e que tinha inclusivamente até um jornal publicado pelos prisioneiros franceses.

Aqui, eles eram alimentados basicamente com uma alimentação à base de pão, água e de caldos com ingredientes de origem muito duvidosa. Há até relatos - que não são dele, que são de outros prisioneiros - que dizem que as poucas vezes que comiam carne, era carne de foca e provavelmente o focinho, porque tinha grandes pêlos, portanto isto mostra bem o tipo de alimentação que eles recebiam.

P.: Como faziam os prisioneiros portugueses para se defenderem dessas carências, especialmente na alimentação?  E que apoios tinham?


R.: O que ele valoriza muito é a acção dos franceses, em todos os campos onde ele esteve. Os franceses partilhavam com os mais necessitados os bens alimentares e os bens de primeira necessidade, principalmente com os portugueses, com os italianos, com os russos, que eram os que viviam em piores condições.

Em termos de dia, a dia ele fazia enfim o trabalho como carpinteiro que era a sua arte, participava em todos aqueles trabalhos de manutenção do campo. Mas não era nada forçado digamos assim, ninguém lhe pedia contas pelo trabalho que ele fazia. Ele também relata que praticava ginástica, praticavam esgrima e tinham outro tipo de instrução.

P.: A descrição parece indicar um regime prisional bastante benigno ...

R.: É neste ambiente que ele passa os primeiros 23 dias do seu cativeiro. Esteve neste campo 23 dias. E ao fim do vigésimo terceiro dia, recebe ordem de marcha para outro campo situado a cerca de 1.200 quilómetros deste primeiro no campo de Sagan que fica na actual Polónia.

Faz esta viagem novamente de comboio, e diz que nessa primeira, numa estação ferroviária, ele recebe a primeira refeição digna desse nome, portanto 23 dias depois de ter sido feito prisioneiro. Este campo era um campo mais pequeno que o anterior, ele viajou para lá juntamente com outros cerca de 35 compatriotas.

Mais uma vez ele louva o trabalho e a disponibilidade dos franceses em alimentá-los e em ajudá-los e relata também episódios curiosos sobre a maneira como eles conseguiam estas ajudas por parte dos outros prisioneiros. Estas acções obviamente eram reprimidas pelos soldados alemães.

P.: Que exemplos dá António Santos no seu diário?

R.: Diz que uma vez a sorte dele mudou quando conseguiu umas peças de vestuário semelhantes às do uniforme dos franceses, um barrete e um casaco. Assim conseguia ludibriar a segurança dos alemães. No novo campo, ele recebe as primeiras encomendas da sua família. Do próprio governo americano recebeu duas encomendas - e também algumas do governo português mas muito esporadicamente e de qualidade muito duvidosa.

P.: Que importância tinham essas encomendas para os prisioneiros?


R.: Ele diz que o sabão que recebiam nestas encomendas era o bem mais precioso que eles tinham. Não o usavam na higiene, usavam-no sim como moeda de troca, para conseguir alimentação, junto dos próprios soldados alemães (conseguiam negociar com eles a troca de sabão por comida), e também junto dos populares.

P.: Como conseguiam eles ter algum contacto com os civis dos campos em volta?


R.: Eles faziam trabalho nas imediações do campo e inclusivamente tinham alguns passeios de lazer nas imediações do campo. E assim conseguiam trocar com os civis o sabão por alimentos, que era o que eles mais necessitavam na época.

P.: Quanto tempo permanece António Santos nesse novo campo de prisioneiros?

R.: Ele está neste campo cerca de dois meses, e novamente é mobilizado para outro campo, um campo situado a cerca de 600 quilómetros deste, ainda em território polaco o campo de Azverg e agora só com oito portugueses. Neste campo, ele diz que a sorte dele foi ter estado apenas dois ou três dias - isto porque era um campo terrível, um campo em que as barracas estavam enterradas, debaixo da terra, por causa do frio que se fazia sentir, em que não tinham nenhum espaço aberto por onde pudessem deambular, onde também não havia prisioneiros franceses, que eram, como já disse, quem os ajudava em todas as suas necessidades.

P.: Teve a sorte de ficar poucos dias. E o que se seguiu?


R.: Ao fim desses poucos dias, ele é mobilizado para o último campo, o quarto e último campo onde está - o campo de Stalopone, que fica hoje em território russo, no enclave russo localizado entre a Lituânia, a Bielorússia e a Polónia. Portanto estamos a falar do extremo da Europa.

Este campo, foi o último onde ele esteve. Era usual os civis em volta do campo recrutarem entre os prisioneiros aqueles que fizessem determinados trabalhos para os ajudarem. Aqui trabalha como carpinteiro, que era a sua arte.

P.: Como correm os contactos de António Santos com a população local?

R.: No dia 9 de Agosto de 1918 a sorte deste homem muda, porque um professor de escola primária da região precisava de um carpinteiro para uns serviços de casa dele e então contrata-o e leva-o para sua casa.

Nos primeiros dias em que ele faz estes trabalhos, e estabelece estas relações, estreita os laços de amizade com este homem e com a sua família. Rapidamente eles vêem coisas em comum entre eles, isto porque os filhos dessa família eram eles próprios também combatentes do lado alemão, e eles também prisioneiros de guerra dos aliados. E portanto há ali uma grande cumplicidade entre estes homens e a família do professor.

E então o professor decide pedir, ao comandante do campo de Stalopone, os serviços do prisioneiro por mais tempo. E ele passa três meses em casa deste homem, onde fazia os mais variados trabalhos em casa, excepto cozinhar (ele diz que isso não era da sua competência).

P.: Que consequências teve esta mudança da sorte do prisioneiro?


R.: É aqui que nós achamos que ele começa enfim a fazer o esboço deste seu diário de guerra. Isto porque há uma dedicatória a esta família no inicio do livro, pelo incentivo a que ele escreva estas memórias.

Portanto estamos a falar do melhor período enquanto prisioneiro, um período de paz relativa, de abrigo, de alimentação. Ele, digamos, recupera aqui as forças que lhe permitem depois regressar a casa são e salvo.

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P.: O regresso, como é que se processou?

R.: O professor comunicou-lhe, o fim da guerra, em 11 de Novembro de 1918. E ele aqui mostra muito bem uma grande ambivalência de sentimentos: por um lado, feliz obviamente por a guerra ter acabado, esta guerra que não era sua, que não lhe dizia respeito, como ele diz várias vezes. E por outro lado a tristeza por deixar aquela família que tanto o ajudou e que tanto lhe valeu.

Depois, ele é novamente chamado ao campo de Stalopone e aqui há um período grande de incerteza e de dúvida. Estamos a falar de oito praças portugueses, que estavam lá sem um oficial que os representasse, e portanto sem ninguém que estabelecesse o contacto com o Governo e que tomasse todas as providências para o respectivo repatriamento.

Ele vê assim a grande maioria dos outros prisioneiros, das outras nacionalidades serem repatriados e eles iam ficando, iam ficando sempre para trás. Ele consegue ao fim de algumas semanas, voltar para o campo de Alzeve onde reencontra os outros companheiros.

Estão aqui cerca de três centenas de prisioneiros portugueses, mais uma vez ele está aí um mês um período de grande incerteza. Não conseguiam que lhes arranjassem meios para chegar a casa.

P.: E que soluções encontram, afinal?

R.: Estes homens rapidamente percebem que estão entregues a si próprios, e portanto tentam arranjar as mais variadas artimanhas para conseguir escapar, nem sabiam eles para onde. Mas o que interessava era que fosse para o mais perto de casa. Estão no extremo da Europa, portanto a milhares de quilómetros da distância de casa.

Eles têm várias tentativas de fuga, tentam juntar-se com grupos australianos, com grupos de ingleses. Não conseguem uma vez porque as operações são abortadas, outras vezes porque a sua artimanha é descoberta.

P.: Que papel desempenhou António Santos nessas várias tentativas?


R.: Ele inclusivamente tentava falsificar os documentos de transporte, não conseguiu. Até que um dia consegue, com a ajuda de uns italianos, passar entre eles, ludibriar a segurança alemã dizendo que era italiano, dizendo até umas palavras em italiano que tinha acabado de ouvir. Foge à contagem de prisioneiros e consegue assim partir para a cidade de Gdansk na Polónia.

Aqui mais uma vez, ele não consegue juntar-se aos outros prisioneiros, nos vários vapores que os transportavam para França, que era onde se concentravam os prisioneiros para serem repatriados. Ele está uns dias ao largo da enseada de Gdansk, numa ilha, com grandes incertezas quanto ao seu futuro, mais uma vez entregue a si próprio.

P.: Como consegue sair de mais esse lanço de incerteza?

R.: Ele conta com a benevolência e o altruísmo de civis de outras nacionalidades e consegue então chegar por mar até Copenhaga, na Dinamarca, onde fica semana e meia.

E diz que os civis dinamarqueses, mesmo na rua, acercavam-se dos prisioneiros, convidavam-nos para ir para sua casa, davam-lhes de comer davam-lhes abrigo, inclusivamente faziam algumas festas para comemorar o fim da guerra, e portanto isto foi um período de abundância e de calma, claro sempre com a esperança de poder regressar a casa.

Ele consegue então tomar um vapor pelo Mar do Norte, que o levou até à costa francesa, e aqui reencontra o grande conjunto de portugueses que entretanto por meios próprios ou por outros conseguem juntar-se todos em Cherbourg na França.

Aqui, mais uma vez, o regresso a Portugal pautou-se por uma grande desorganização, ele está ali várias semanas em condições muito precárias, condições semelhantes em que encontrou nos campos de concentração, de miséria, de fome, de frio, de necessidade. E finalmente consegue embarcar para Lisboa onde chega em Fevereiro de 1919.

P.: Que condições vem encontrar em Lisboa?

R.: Um clima de total apatia, e de total indiferença por parte da população e dos governantes. Aqueles homens são despejados em Lisboa, ele ainda tinha umas centenas de quilómetros pela frente até sua casa. Demorou cerca de um mês a chegar a sua casa, isto porque as ligações ferroviárias para o norte estavam cortadas, fruto da instabilidade toda que o país vivia nesses primeiros anos.

E então é só nos finais de Fevereiro de 1919, que, 18 meses depois de ter partido, ele chega finalmente a casa, reencontra a sua família e tem uma paz que enfim que seria só aparente. A guerra deixou-lhe cicatrizes profundas que o acompanharam ao longo da sua vida, que só terminaram quando ele faleceu, e que se foram diluindo na memória dos seus descendentes.

P.: O seu bisavô terá sido um soldado esquecido ao longo da vida.

R.: Exactamente, ele e todos os portugueses que estiveram na guerra. Isto porque estamos a falar de homens que na flor da idade são lançados por essa Europa fora.

Neste caso concreto era um homem que vivia num sítio ainda hoje isolado - então o que seria há cerca de 100 anos atrás. Um homem que só conhecia lugares, os lugares que as suas pernas permitiam, ou que o corpo do cavalo permitia, foi assim lançado de rompante no meio dessa Europa, entre povos que desconhecia, línguas que desconhecia, lutando por uma causa que ele desconhecia, que não era a sua guerra.

Dizia que a guerra dele deveria ter sido acompanhar o crescimento dos seus castanheiros, das suas plantações, do seu gado. E afinal ele e os outros jovens contactaram com as maiores brutalidades no início da vida e foram homens que são completamente esquecidos pelo seu país depois quando voltaram.

Uns morrem nos hospitais. Ele felizmente não teve nenhum problema físico, mas estas marcas profundas acompanharam-no ao longo da sua vida e não recebeu nunca nenhum tipo de ajuda.

Era uma época de resignação. Há uma expressão francesa muito curiosa que tudo explicava e nada explicava. Dizia-se de qualquer coisa relacionada com a guerra "C’est la guerre" - é a guerra, ponto final. Isto explicava tudo e não explicava nada.


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