História de um médico português gaseado nas trincheiras

O recurso aos gazes tóxicos foi uma das novidades da Primeira Guerra Mundial. Os efeitos dessa arma química eram devastadores para as tropas inimigas. Mas também podiam sê-lo para as próprias utilizadoras, se calhasse serem traídas pelo vento. O médico militar António Vieira Barradas transmitiu a sua mulher, Maria Helena Costa, memórias dessa arma mortífera.

| Portugal na I Grande Guerra



Maria Helena Costa foi a única viúva de um militar do Corpo Expedicionário Português (CEP) que a RTP entrevistou em 2008. Sendo mais jovem que o marido, pôde sobreviver-lhe por muitos anos, tornando-se o veículo de transmissão das suas memórias, por ocasião da rodagem do documentário "Portugueses nas trincheiras".

Pergunta: Drª Maria Helena Costa, o que é que o seu marido lhe contou sobre a participação dele na guerra em França?


Resposta: Ele acompanhou o CEP, o Corpo Expedicionário Português. Foram por mar, desembarcaram em Brest. Creio que isto era em 1917, não sei se foi já em 1918.

Depois fez a guerra, não lhe permitiram que viesse a Portugal quando o pai morreu, o pai dele. Pediu licença para vir porque tinha a mãe viúva e uma irmã solteira e queria cá vir. Não lhe permitiram, veio mais tarde.

Mas havia uma epidemia de tifo, tifo exantemático, no Porto, de maneira que trabalhou mais, ajudou os colegas do Porto. Não eram muitos, eram quase todos velhos, todos aqueles que não eram capazes fisicamente de irem para a guerra. E regressou a França.

P.: E foi então a ofensiva alemã de 9 de Abril, conhecida como "batalha de La Lys"?


R: No dia 9 de Abril, pensavam que iam ser substituídos e que regressariam a Portugal e viriam outros, porque não sabiam quando a guerra ia acabar. Na madrugada desse dia começou um bombardeamento intensíssimo dos alemães sobre o sector português e sobre o sector inglês que estava creio eu a ocidente.

A ideia dos alemães expressa por um dos estrategas deles era abrir um buraco - eles estavam desesperados -, abrir um buraco, ipsis verbis foi o que disse o estratega alemão, e consideravam a parte mais fraca, e com razão, a parte portuguesa. Era pobre em artilharia, com soldados bastante desmoralizados, com poucos oficiais, eles iam sabendo porque deviam ter espionagem.

Um pouco antes Sidónio Pais tinha tomado o poder em Portugal e chamou uma data de oficiais. O Sidónio Pais tinha sido embaixador em Berlim creio eu, talvez tivesse simpatia pelos alemães. De modo que realmente a posição da tropa portuguesa, era uma posição de inferioridade e de uma certa desmoralização por razões várias como eu disse.

P.: As tropas alemãs começaram então a bombardear as trincheiras do sector português em 9 de Abril. O que é que se seguiu?




R.: O bombardeamento começou nesse dia de manhã cedo prolongou-se pela tarde adiante e depois veio o ataque de infantaria. E os portugueses bateram-se enquanto tiveram munições porque estavam tão mal servidos que até as munições acabaram.

De modo que se entregaram, aqueles que estavam vivos. Dos outros que estavam vivos e que ainda podiam combater, houve um soldado que ficou célebre que se chamava Milhaes (depois chamaram-lhe Milhões) e foi condecorado mais tarde. Mas o meu marido, acho que não o conhecia.

E no dia 11, cessou a ofensiva alemã. Ele ainda lá estava, ele e pelo menos o Jaime Cortesão, do corpo médico.

P.: O seu marido sofreu algum tipo de ferimento durante a ofensiva alemã?

R.: Por causa dos gases que vinham da parte alemã, diz-se que o Jaime Cortesão apanhou uma pitada maior e estava com conjuntiva inflamada, convencido de que estava cego.

O Jaime Cortesão comportava-se como um cego e não via mesmo. E chegou ao pé do meu marido e participou-lhe: "Olha que eu estou cego". O meu marido ficou desesperado com aquilo, porque eram amigos, antigos companheiros de liceu e de faculdade.


E o meu marido respirou outro tipo de gás, creio que cloro, andou a tossir e depois passou-lhe. Quer dizer, aquela mucosa respiratória reconstitui-se com certeza. E o Jaime Cortesão felizmente também não ficou cego, porque a conjuntiva renovou-se, certamente não permaneceu opaca e ele recuperou a visão normal.

Mas eles não sabiam na altura, era uma arma nova, não sabiam e ficaram desesperados. Quer o Jaime Cortesão ceguinho, quer o meu marido naquele estado. E pronto foi assim.



P.: Isso quer dizer que durante os trabalhos para assistir os feridos, na "batalha de La Lys", o seu marido não pôde contar com a ajuda do Jaime Cortesão. Qual era a situação em que ele teve que trabalhar durante esses dois dias em que ainda permaneceu nas trincheiras?

R.: Não tinha praticamente medicamentos, mas sempre havia a pequena cirurgia que ele podia fazer, e depois certamente deve ter tido auxílio dos ingleses para evacuar os feridos. Porque eles ocupavam uma posição mais vantajosa, e a trincheira portuguesa que comunicava com a deles estava num lugar mais baixo. E a lama - porque chovia, a lama escorria por ali abaixo - ia ter às trincheiras portuguesas.

P.: O terreno em que ele ficou a assistir os feridos era terreno que tivesse ficado, depois da ofensiva, sob controle dos alemães?

R.: Não, penso que não. Penso que não estava sob controle dos alemães, porque então o meu marido teria sido feito prisioneiro, e Jaime Cortesão e toda aquela gente. Não devia estar, devem ter avançado aquelas duas divisões inglesas. Porque eles estavam lá no dia 11, os dois.

P.: O que é que o seu marido recordava sobre o comportamento do seu comando directo, dos oficiais que o orientavam durante a Batalha de La Lys?

R.: Quem comandava a unidade de saúde era um coronel, cujo nome não me lembro de ele me ter dito, ou talvez me dissesse.

O meu marido até entendia que uma pessoa fugisse da guerra, porque ele tinha horror da guerra. Não matou ninguém, porque o médico não mata, o médico salva. Mas sofreu muito com a guerra, sofreu psicologicamente.

E um dia disse-me que a guerra era tão terrível, tão desumana, tão horrorosa, que um homem nunca mais voltava a ser aquilo que era, que tivesse participado numa guerra, mesmo que não praticasse nenhuma acção lesiva de ninguém. De modo que, aqueles que combatem, que matam, e que são mortos, deve ser muito pior penso eu.

P.: Mas estávamos a falar também do comportamento do comando directo do seu marido durante a batalha de La Lys ...


Bom, este coronel retirou e levou consigo a maior parte dos medicamentos e isso tudo. E nem o meu marido nem o Jaime Cortesão foram condecorados por estarem lá, durante a batalha e depois da batalha.

Porque evidentemente que uma condecoração é concedida quando há informação através da cadeia hierárquica, julgo eu que é assim, tem de ser. Mas um coronel que tinha fugido dificilmente poderia informar que subordinados dele tinham ficado lá.

P.: Esse horror que o seu marido tinha à guerra, como é que ele se reflectia na atitude dele em relação ao uso das armas na frente de combate?

R.: Bom ele achava que matar por questões politicas era uma estupidez, era um pacifista por natureza e até por formação. Não se concebe muito que um médico ande a matar gente, não é? De modo que um médico sente muito mais profundamente a futilidade das guerras.

Posto de socorro a feridos nas primeiras linhas

Ele assistia os feridos dentro das trincheiras, ou ia à terra de ninguém, com os maqueiros. Levavam macas, e às vezes encontravam colegas médicos, do outro lado, alemães, com os seus maqueiros também.

P.: Nunca lhe contou nada sobre o relacionamento com esses médicos alemães ou maqueiros?

R.: Não, acho que se ignoravam, fingiam que não se viam.

P.: Quando iam a terra de ninguém ele ia armado?


R.: Não. Porque tinha direito a uma pistola, mas sempre pensou, mesmo por convicção, sou médico, não sou guerreiro, portanto ponho de lado a pistola. Nunca usou pistola.

P.: O seu marido contou-lhe alguma coisa sobre a vida quotidiana nas trincheiras ou em gozo de licença, no descanso, durante o tempo em que esteve na guerra? O que é que ele viu da França, o que é que conheceu que contacto teve com a população civil?


R.: Ele fez em Paris o curso de Medicina Tropical, que não existia em Portugal. Antes disto, creio eu. E portanto estava familiarizado com a vida francesa. Naquela tempo fazia-se o curso de medicina Tropical num ano. E agora também. Ele já tinha ideia de ir para uma das colónias.

Mas não me lembro de ele me contar. É preciso ver que na altura, eu fui casada com ele, não era médica ainda e portanto é pouco natural que ele me falasse da vida quotidiana dum médico nas trincheiras.

P.: Ele nunca lhe falou das pressões a que os médicos estavam submetidos para emitir atestados médicos, por doença, por ferimento?

R.: Não, não.

P.: O seu marido contou-lhe alguma coisa sobre as auto mutilações dos soldados, sobre doenças supostas com que eles se apresentavam para obter dispensa do serviço?

R.: Não, ele era muito discreto. Falando de uma maneira impessoal, podia dizer alguns soldados, não estava a denunciar nenhum doente, não é segredo profissional como não se referia ninguém. Mas não, não me falou disso.

P.: E sobre o ambiente geral das tropas com quem ele contactava: tinham vontade de combater?

R.: A maior parte deles eram pessoas do campo. E tinham sido obrigados a ir para a tropa e para a guerra, porque o serviço militar era obrigatório. O moral não era alto, não - longe da família, longe da terra, desenraizados. E o desconforto e o horror da guerra. Ele tinha pena dos soldados.









Sistemas de libertação de gases tóxicos


Cilindros




  • Abriam as válvulas, dispersando no ar 180 toneladas de cloro líquido. 
  • Necessitavam de condições atmosféricas adequadas, nomeadamente ventos de feição. Tinham essa desvantagem, de dependerem do vento: a nuvem podia ser levada para longe do inimigo ou podia voltar para a própria tropa utilizadora. 
  • As nuvens de gás eram visíveis, o que dava tempo ao inimigo para se proteger; e tinham penetração limitada, podendo apenas afectar as linhas da frente das trincheiras inimigas. Além disso, o sistema dos cilindros podia sofrer de obstrução. 
  • Tinham também de ser colocados em frente das próprias trincheiras, para serem lançados os gases, correndo o risco de serem atingidos por bombardeamentos inimigos. Enfim, podiam ser muito pesados. 
  • Exemplo: um cilindro britânico pesava 86 Kg, dos quais 27 Kg eram do gás de cloro.

Artilharia




  • Tinha as vantagens de não depender do vento e de ter maior alcance efectivo (dezenas de Km).
  • A maior desvantagem era a dificuldade de obtenção de uma concentração de gás suficiente para matar. 
  • Cada projecção podia levar uma pequena carga de gás e a área tinha de ser submetida a um bombardeamento de saturação, com centenas de bombas, para produzir uma nuvem de forma a causar grandes danos ao inimigo.

Projector de gás ou Projector Livens




  • Criava uma grande concentração letal de gás, que não era libertado a partir de cilindros.
  • O tubo era fixado numa escavação de terra. 
  • Dentro do tubo era inserida a carga explosiva para projectar todo o cilindro com gás, como um míssil, sobre o inimigo. 
  • O alcance máximo era de 1.166 e 1.646 metros, contendo a granada química de 27 Kg.

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