Postal da Grande Guerra: Partidas e Logística

Entre fevereiro e outubro de 1917 foram enviados para França quase 60 mil soldados lusos, que formavam o Corpo Expedicionário Português integrado no exército britânico. Mas a operação logística padeceu de múltiplos problemas que se iriam repercutir negativamente na moral dos nossos soldados. E uma das primeiras dificuldades no local foi a falta de previsão para balneários ou provisão de água.

| Portugal na I Grande Guerra


Os contingentes levavam consigo para França praticamente tudo o que precisavam. De carros de rodas e seus animais de tiro, como mulas, aos cavalos dos regimentos de cavalaria, às ambulâncias motorizadas, aos colchões para as tarimbas, à carne e água para a viagem – na Frente seriam abastecidos pelos ingleses, o que viria a dar problemas – além de, claro, capacetes, uniformes e algum armamento, sobretudo artilharia.

“Além dos homens foram transportados por via marítima 7.783 solípedes, 1.501 viaturas e 312 camiões” refere o blog Momentos de História, Marinha 1914-18 no capítulo sobre ‘Transportes de tropas’.

Parte das munições era feita em Portugal. E as mulheres carregavam as granadas dos obuses à cabeça, como cestas de peixe, até aos barcos, onde eram cuidadosamente empilhadas para a travessia até França.


Os transportes iam cheios até ao porto de Brest, ao longo de uma viagem marítimas de três dias, já que a neutralidade espanhola impedia a ida por terra. 


Os transportes não estavam preparados para viagens de vários dias e os homens seguiam amontoados nos conveses, ao lado dos animais ou sobre todo o tipo de bagagem.

Recebidos com curiosidade pelos franceses, os portugueses iam sendo acantonados até partirem para La Lys. 

“Em 3 de Janeiro de 1917 foi assinada uma convenção com a Inglaterra para o transporte das tropas para França, o qual deveria ser feito por via marítima e com os custos a cargo da Inglaterra. No entanto este acordo não foi cumprido. Entre Fevereiro e Setembro de 1917, o transporte dos contingentes do CEP foi repartidos entre navios ingleses e navios portugueses e a partir de Outubro de 1917 a Fevereiro de 1918 apenas por navios portugueses. De Brest até à zona de combate, Aire-aur-la-Lys o transporte era efectuado por via férrea.”  (in momentos de história)

A empreitada de enviar para França duas divisões – em vez de uma única inicialmente aceite pelos britânicos – impunha problemas logísticos complicados e planeamento apurado. 

Recorda o Momentos de História:

“O transporte de tropas para França foi uma das dificuldades reais para da nossa participação no teatro de guerra europeu. O transporte só era viável por mar e como não dispúnhamos de meios navais de transporte suficientes, a Inglaterra pôs à nossa disposição sete navios de transportes: "Bellerophon" , "City of Banares", "Inventor", "Bohemian", "Rhesus", "Flavia" e "Lasmedon" que, juntamente com o "Pedro Nunes" e o "Gil Eanes", conduziram as forças do Corpo Expedicionário Português para França, até ao porto de Brest. 

Os navios britânicos não se encontravam adaptados ao transporte de tropas de Portugal para França, uma vez que tinham sido desenhados para a execução de viagens de três horas entre a Inglaterra e a França e não de três dias, ou seja, não tinham estruturas para as tropas dormirem ou efetuarem refeições mais complexas do que chá e bolachas.
Para as escoltas aos dezassete comboios que se formaram para transporte de tropas, o Governo Britânico disponibilizou 14 contratorpedeiros que realizaram 98 viagens assim distribuídas: "HMS Owl", "HMS Midge", "HMS Garland", "HMS Oxford", "HMS Acasta", "HMS Tigress", "HMS Hydra", "HMS Racoon", "HMS Jackal", "HMS Mosquito", "HMS Scourge", "HMS Grasshopper" e "HMS Grohawk". A Marinha portuguesa disponibilizou os contratorpedeiros "NRP Douro" e "NRP Guadiana".

A escolta militar britânica de sete navios durou apenas até abril. Depois passou a dois. E em outubro desapareceu e apenas os contratorpedeiros portugueses continuaram a missão de escoltar os transportes das tropas lusas.

A maioria dos soldados seguiu por mar mas para os que foram até à Frente por terra foram necessários subterfúgios.

“Existiram algumas exceções em que pequenos grupos de militares seguiram por via-férrea até ao front. Para não "ofender" a neutralidade espanhola estes grupos de militares seguiam com passaportes individuais e em trajo civil, disfarçados de turistas para Paris. Aí chegados seguiam para o Quartel-General, em Aire-sur-la-Lys, onde recebiam ordem de marcha para o front” refere o documento já citado. 

“O CEP começou por chegar ao porto de Brest a 2 de fevereiro de 1917. De fevereiro de 1917 a 28 de outubro do mesmo ano, um total de 59.388 homens eram enviados para França. De Brest as tropas embarcavam para uma viagem de comboio de três dias, até a área de concentração do CEP em Aire-Sur-La-Lys/Thérouanne, onde se realizaram treinos de guerra de trincheira e gás antes de ocupar a sua posição atribuída na linha da frente. Os soldados portugueses também receberam equipamentos britânicos, incluindo capacetes e armas (as “short Magazine Lee Enfield” e “Lewis”).


Os comboios de transporte de tropas eram organizados em Lisboa pela Comissão de Aprovisionamento dos Transportes de Tropas, dependente do Ministério da Guerra, de acordo com as autoridades navais britânicas. Foram organizados nove comboios de Janeiro a Maio de 1917 e de Julho a Outubro de 1917 mais oito comboios, num total de dezassete comboios para transportar o CEP para França” recorda o Momentos de História.

Entre todos os preparativos alguma coisa ficou para trás. Deixemos falar o principal crítico, o general Gomes da Costa, que seguiu para França logo no primeiro transporte, como comandante da 1ª Divisão.

(…) a facilidade da assimilação de que os portugueses são dotados, a sua inteligência viva, supriram esta e outras deficiências e a nossa Administração Militar rapidamente se apropriou dos processos que os ingleses tinham aperfeiçoado em anos de guerra, organizando e fazendo funcionar a primor serviços inteiramente ignorados por nós, como os balneários, as lavandarias, a acomodação e concerto de fardamento, calçado, enfim, de um sem número de cousas que vimos funcionar na guerra, e que depois dela ainda não soubemos implantar em nossa casa. E porquê? Porque em meios retrógrados como é o militar em Portugal, não há maneira de cousa alguma nova se implantar e progredir. 

E assim, nós vemos, ou antes não vemos ainda hoje uma simples lavandaria a funcionar numa guarnição, não há balneário porque a verba para consumo de água não dá para mais do que para se lavarem as pontas dos dedos, etc. Assim, não sendo habitual no nosso exército que o soldado se lavasse, não foi pequeno o trabalho dos Serviços Administrativos, logo de entrada em França, com a organização de balneários e lavandarias “. 

(Gomes da Costa in A Grande Batalha do CEP)

Das aventuras e desventuras do C.E.P. no front se dará conta noutros postais.

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