Ébola. Cientistas a um passo de descobrir a cura

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Os resultados de um estudo norte-americano, divulgado esta terça-feira, revelaram que o vírus ébola pode começar a ser uma doença "evitável e curável". Segundo os cientistas, os testes realizados a dois novos tratamentos indicaram uma eficácia em cerca de 90 por cento dos casos.

“Daqui em diante, não vamos continuar a dizer que a EVD [doença do vírus ébola] não é curável”, afirmou Jean-Jacques Muyembe-Tamfum, director-geral do Instituto Federal de Pesquisa Médica da República Democrática do Congo.

“Este avanço vai, no futuro, ajudar a salvar milhares de vidas que teriam tido um desfecho fatal no passado”, acrescentou.

Os dados de um estudo norte-americano, conduzido por um grupo de pesquisa internacional coordenado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e co-financiado pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID), revelaram a eficácia, em cerca de 90 por cento dos casos, de dois novos tratamentos.

“Agora que mais de 90 por cento dos pacientes podem ir ao centro de tratamento e voltar completamente curados, [as pessoas] vão começar a acreditar e vamos desenvolver confiança na população e na comunidade”, afirmou o diretor da NIAID, Anthony Fauci.

Os resultados iniciais foram divulgados esta terça-feira e mostraram que dois dos quatro medicamentos em estudo obtiveram uma maior eficácia nos pacientes tratados precocemente.

A taxa de sobrevivência nas pessoas com baixos níveis do vírus no sangue atingiu os 94 por cento quando estas receberam o REGN-EB3, e os 89 por cento com o uso do mAb114.

O estudo começou em novembro do ano passado e, desde então, testou as quatro substâncias em 700 pacientes portadores do vírus ébola.
“Hoje demos um enorme passo em frente”
“Os números podem mudar” porque “nem todos os dados foram acumulados”, mas o futuro parece ser promissor. Estas duas substâncias, nomeadamente o REGN-EB3 e o mAb114, funcionam à base de anticorpos para conseguirem bloquear o vírus, neutralizando assim o impacto que a doença pode causar nas células humanas.

Dos 499 pacientes que receberam os dois tratamentos mais eficazes, a taxa de mortalidade foi de 29 por cento para REGN-EB3 e de 34 por cento com mAb114.

Por outro lado, os outros dois medicamentos - ZMapp e Remdesivir - apresentaram taxas de mortalidade mais elevadas, de 49 por cento e de 53 por cento, respetivamente. A baixa eficácia acabou por retirar estas substâncias dos testes.

O Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID) considerou que estes resultados foram “notícias muito boas” para se conseguir travar a luta contra o ébola.

Estes foram “os primeiros medicamentos que, num estudo cientificamente sólido, mostraram claramente uma diminuição significativa na mortalidade” dos pacientes portadores da doença.

Isto significa que agora temos o que parece ser um tratamento para uma doença que, ainda não há muito tempo, nem sequer tinhamos qualquer tipo de abordagem terapêutica”, acrescentou Anthony Fauci numa conferência de imprensa.

Ainda assim, na opinião de Jeremy Farrar, o diretor da fundação de caridade Wellcome Trust, “nunca nos vamos ver livres do ébola, mas devemos ser capazes de impedir que estes surtos se transformem em grandes epidemias nacionais e regionais”.

Estes novos medicamentos vão “indubitavelmente salvar vidas”, assegurou.

No entanto, para o diretor-executivo do Programa de Emergência da Organização Mundial de Saúde, Michel Ryan, estes tratamentos até podem ser “uma nova ferramenta contra a ébola, mas não impedem a ébola”.

Não é uma resposta”, advertiu Michael Ryan. “Mas hoje demos um enorme passo em frente”, acrescentou.
Uma retrospetiva pela doença
A última epidemia do ébola entre 2014 e 2016, na África Ocidental, afetou mais de 28 mil indivíduos e matou mais de 11 mil pessoas.
Este foi considerado o maior surto alguma vez registado desde que o vírus foi descoberto em 1976. Nessa altura, a Guiné Equatorial, a Libéria e a Serra Leoa foram os países mais afetados.

Porém, a história não ficou por aqui. Atualmente, o surto que dura há praticamente um ano, na República Democrática do Congo, já ocupou os primeiros lugares da tabela.

De acordo com os dados lançados pela Organização Mundial da Saúde cerca de 75 por cento dos casos confirmados nesta região resultaram na morte dos pacientes. Ao longo deste ano, dos 2737 casos descobertos, morreram quase 1800 pessoas.

Em julho, a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de emergência internacional na República Democrática do Congo devido à doença, e em pouco menos de 20 dias, aumentou para quatro o número de casos mortais em Goma. 

“Um surto de longo prazo como este tem um preço terrível para as comunidades afetadas e é um sinal de como tem sido difícil controlar esta epidemia”, revelou o diretor da Wellcome Trust, Jeremy Farrar.

A este ritmo, o surto que assola a República Democrática do Congo pode vir a ser o segundo mais mortal de todos os tempos.

A cidade de Goma, a leste do país, tornou-se num centro populacional tão denso que ressalta um risco de propagação regional "muito alto".

Só nesta região, cerca de dois milhões de pessoas podem vir a ser contaminadas.
“A doença é implacável e devastadora”
De mães para filhos, de maridos para mulheres, esta doença transmite-se até de um cadáver para os parentes em luto. Basta um pequeno contacto direto com o corpo ou os fluidos de uma pessoa infetada para ditar o fim do jogo.

Começa com febres e leves dores corporais, mas rapidamente progride para vómitos, diarreia e hemorragias graves - internas ou externas. Na maioria dos casos, a desidratação leva à morte dos pacientes.

“A doença é implacável e devastadora”, revelou a Organização Mundial de Saúde.

O ébola também provoca a falha de múltiplos órgãos o que ajuda a tornar este vírus numa das doenças mais mortíferas do mundo.

“A doença transforma os aspetos mais mundanos da vida quotidiana de cabeça para baixo, prejudicando as empresas locais, impedindo as crianças de frequentar a escola e dificultando os serviços de saúde vitais e rotineiros”, lê-se num comunicado da estrutura.

Para Anthony Fauci, os resultados do estudo publicado esta terça-feira até podem começar a incentivar as pessoas a sentirem-se “mais confortáveis para procurar ajuda mais cedo”.

No entanto, a melhor maneira de acabar com a propagação desta doença “é com uma boa vacina”.

Desde agosto do ano passado, já foram vacinadas cerca de 181 mil pessoas na República Democrática do Congo.

A vacinação pode prevenir a contração deste vírus em 99 por cento dos casos, mas só as pessoas em contato direto com o vírus é que chegam a ser vacinadas.

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