Centenário de Júlio Pomar celebrado com prémio de pintura, exposições e novas edições

Um prémio de pintura, exposições em Portugal e no estrangeiro, a par de lançamentos editoriais, fazem parte do programa comemorativo do centenário do nascimento de Júlio Pomar (2026-2028), anunciou o Atelier-Museu do artista plástico, em Lisboa.

Lusa /

Um dos eixos centrais das celebrações do pintor - cujos cem anos do nascimento se cumprem no sábado - vai ser o lançamento do "Prémio de Pintura -- Centenário de Júlio Pomar", no valor de 5.000 euros, dirigido a artistas que desenvolvem trabalho no campo da pintura.

Entre os principais destaques expositivos está a antológica "A Cola não faz a Colagem", com inauguração prevista para abril, oferecendo uma leitura alargada e crítica do percurso do artista, segundo o programa de comemorações divulgado pelo Atelier-Museu, inaugurado em 2013 num antigo armazém totalmente remodelado por um projeto do arquiteto Álvaro Siza.

Está também prevista uma exposição itinerante internacional intitulada "Centenário de Júlio Pomar", organizada pelo Camões - Insptituto da Cooperação e da Língua, em parceria com o Atelier-Museu, que levará a obra do artista a diversas embaixadas portuguesas e a outros equipamentos culturais em vários contextos internacionais, de acordo com a organização.

Ainda em abril, será apresentado "Uma obra em [Sete] partes", de João Penalva, um projeto que se desdobra por vários espaços da cidade, nomeadamente o Atelier-Museu Júlio Pomar, as Galerias Municipais e a Culturgest, estabelecendo um diálogo contemporâneo com o legado de Pomar, que realizou a primeira exposição individual no Porto, em 1947, e nela apresentou apenas desenhos.

O programa integra também a exposição "Pintura -- Pintura: Júlio Pomar e Gabriel Abrantes", agendada para setembro, promovendo um confronto entre duas gerações e linguagens artísticas no campo da pintura.

A programação expositiva fora de portas, que a entidade tem vindo a desenvolver, contemplará, já em janeiro, a mostra "Robertos. Desenhos de Júlio Pomar", patente no Museu da Marioneta, em Lisboa, onde serão revelados pela primeira vez estes trabalhos do artista, indica a organização.

No plano da reflexão e do debate, estão previstos um ciclo de conversas sobre arquivos, promovido pelo Banco de Arte Contemporânea e pelo Atelier-Museu Júlio Pomar, bem como um ciclo de conversas dedicado à relação entre "Arte e Inteligência Artificial", com o objetivo de aprofundar questões atuais da criação artística.

As comemorações incluem ainda vários lançamentos editoriais, entre os quais "Parte Escrita IV: Relatórios de Bolseiro de Júlio Pomar e outros documentos", reunindo os relatórios enviados pelo artista à Fundação Calouste Gulbenkian durante o período em que foi bolseiro em Paris, assim como o lançamento do volume III do "Catálogo Raisonné (Pintura) de Júlio Pomar", e uma performance da Companhia de Teatro Cão Solteiro.

Num texto sobre as celebrações, a diretora do Atelier-Museu Júlio Pomar, Sara Antónia Matos, recorda a obra de uma artista "sempre em transformação, que atravessou décadas, e cuja vida e legado o tornaram numa das figuras mais incontornáveis da arte portuguesa do século XX e XXI".

"A celebração de um centenário, especialmente no contexto de figuras como Júlio Pomar, é um marco de extrema importância cultural, social e histórica, desde logo porque comemorar a arte e os artistas significa, na atualidade, mais do que nunca, agir contra a destruição da memória, da história, das sociedades, da beleza, da vida", sustenta a curadora e investigadora.

No centenário de Júlio Pomar, "símbolo de longevidade intelectual, festeja-se não apenas o tempo decorrido, mas a herança cultural que sobrevive ao indivíduo e estimula as gerações futuras a relançar o seu legado de liberdade e de resistência", sublinha a curadora.

Neste âmbito, o programa de 2026 "permitirá às novas gerações conhecerem obras fundamentais do seu património artístico, possibilitará ´repensar´ o artista no seu contexto histórico, avaliando o modo como a sua obra influenciou a modernidade e como continua a dialogar com o presente, catalisando a publicação de novos estudos, a realização de exposições antológicas e programas complementares multidisciplinares".

Sara Antónia Matos recorda ainda o percurso de Pomar, desde o neorrealismo, como uma figura da contestação e da crítica ao regime, alargando o seu mundo artístico através de colaborações que pareciam "inconciliáveis, unindo polos antagónicos, aproximando cultura erudita e cultura popular".

O Atelier-Museu abriu as portas ao público a 05 de abril de 2013 com uma coleção de cerca de 400 obras, nele depositada pela Fundação Júlio Pomar, doação reforçada em 2014, e, em 2023, quando esta entidade cessou atividade, passou o depósito do seu acervo para propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, "para desenvolvimento e consolidação do trabalho do museu", refere ainda a diretora.

Desde a abertura, foram realizadas diversas exposições naquele espaço para promover o diálogo entre a obra do pintor com artistas de várias gerações como Rui Chafes, Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis, Luisa Cunha, Sara Bichão, Rita Ferreira, Hugo Canoilas, Salomé Lamas, Suzanne Themlitz, Jorge Queiroz, André Romão, Osso Coletivo, Inland Journal, Graça Morais, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, entre outros.

Também foram lançadas mais de 30 publicações, e, por vontade do próprio Pomar, em 2015 foi instituído o Prémio de Curadoria de Arte Contemporânea com o seu nome, e criada uma bolsa de residências em Nova Iorque que, em alguns casos, conferiu aos artistas nomeados a sua primeira experiência de internacionalização, recorda a diretora.

Júlio Pomar morreu com 92 anos e mais de 70 de carreira, "tendo trabalhado diariamente no seu atelier, tornando a arte presente na vida do dia-a-dia, o que é patente em várias obras públicas, e particularmente na Estação Alto dos Moinhos, do Metropolitano de Lisboa", refere.

"Não chegou a ver a descoberto as pinturas censuradas do Cinema Batalha, no Porto, mas elas estão cá -- em 2026 e para o futuro - para nos fazer lembrar que, em muitas circunstâncias, a luta pela liberdade e pela democracia resistem às formas de opressão mais vis", comenta a responsável, recordando que Pomar foi detido pela PIDE e esteve quatro meses preso.

Júlio Pomar instalou-se em Paris em 1963 e foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966, vivendo e trabalhando entre a cidade francesa e Lisboa até à data da sua morte, em maio de 2018, na capital portuguesa.

Durante a sua longa vida, nunca deixou de criar -- desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, esculturas e colagens -- com intervenções artísticas em obras públicas em diversas cidades.

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