Escola da Noite, em Coimbra, interpreta Javier Tomeo 25 anos depois

| Cultura

A Escola da Noite, de Coimbra, volta na quinta-feira ao mundo quase absurdo de Javier Tomeo, dramaturgo espanhol com que "um conjunto de jovenzinhos" se estreou como companhia profissional na cidade, há 25 anos.

Na quinta-feira, a Escola da Noite estreia "TOMEO Histórias Perversas", um conjunto de 26 micro-histórias de Javier Tomeo, o autor com quem a mais antiga companhia profissional da cidade começou o seu percurso.

As histórias (a mais longa tem cinco minutos) vão surgindo pela mão de três atores, jogando com a profundidade e planos que o cenário proporciona - uma espécie de antiga máquina fotográfica gigante -, com a sequência a surgir de forma rápida, sem pausas, apenas o tempo suficiente para se mudar "a lente".

Nesta peça, o público é convidado a entrar no mundo que roça no absurdo e no surrealismo de Javier Tomeo, deparando-se com um louco que não cheira a louco, um pai que vê um gigante onde o filho vê um moinho, um assassino impaciente e outro que sai da tela de um cinema, uma criança que parte a lua em pedaços, um militar que se deixa embalar pela "Le Déserteur" de Boris Vian ou um mordomo míope.

"É um autor inclassificável, que tem o seu mundo muito próprio e que reflete a partir do homem peninsular. É uma obra que nos abre muitas perspetivas", disse à agência Lusa o diretor da Escola da Noite e encenador da peça, António Augusto Barros.

O regresso aonde tudo começou surgiu após a morte do autor e da edição num só volume de todas as histórias breves que Javier Tomeo escreveu.

A equipa pegou no volume de "800 e tal páginas", com "centenas e centenas de histórias", e foi escolhendo as breves narrativas - umas 50 acabaram no caixote do lixo - à procura de "encontrar a essência do pensamento deste homem, de canibalizar completamente este homem".

O resultado é uma peça onde para António Augusto Barros está presente uma das principais características de Tomeo - a deformação.

"O que provoca a deformação nas pessoas, tanto nas pessoas que a têm como nos outros? O que é isso de deformar o mundo? O génio dele ajuda a perceber melhor o mundo a partir da deformação. E a deformação tem também outras conotações: a deformação do artista, o artista como ser disforme, que muitas vezes não tem mais do que seguir a sua identidade", explicou o encenador.

Desde 1992, a companhia ganhou uma casa própria - o Teatro da Cerca de São Bernardo - e regista um percurso que soma 65 criações.

Apesar dos vários ciclos, a Escola da Noite continua preocupada com os textos - em dá-los "completamente" em palco -, e em defender textos pouco conhecidos, especialmente de "autores malditos", marginais, que não se deixam apanhar, contou.

No entanto, António Augusto Barros esperava que, 25 anos depois, não persistisse ainda "a incompreensão" com que a companhia se deparou na sua fundação.

"Esperávamos um clima de estabilidade", nota, considerando que, no início, estava "muito longe de pensar que, 25 anos depois", estaria a discutir com a autarquia o número de peças que têm de produzir por ano.

"Nós temos o direito de escolher o que fazer, se queremos fazer uma coisa maior ou duas coisas menores. O desenvolvimento do projeto artístico tem de ter liberdade de quem o desenvolve, não pode ser imposto. Tem muito mais sentido estar um ano com um espetáculo com aceitação pública, que teve de fazer digressão internacional - como nos tem acontecido muitas vezes - do que burocraticamente fazer agora um e depois outro", frisou.

O futuro não é certo nem seguro e o diretor da Escola da Noite sublinha que a companhia corre "riscos graves de acabar".

"As pessoas não querem estar numa caricatura de um projeto e não vão aceitar isso. Nós não vamos aceitar isso", vincou.

A companhia apresenta "TOMEO Histórias Perversas" na quinta-feira, peça que estará em cena até dia 30 (de quarta a sábado às 21:30 e aos domingos às 16:00).

Os preços variam entre cinco e dez euros.

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