Tiago Hespanha fez um filme para pensar o mundo a partir de um campo de tiro

| Cultura

"Campo", o documentário de Tiago Hespanha que é exibido na esta semana no festival Cinema du Réel, em França, regista a vida num campo de treino militar como um microcosmos sobre o mundo, contou o realizador à agência Lusa.

O filme, que terá estreia mundial na competição daquele festival, foi rodado durante um ano e meio no Campo de Tiro de Alcochete (Setúbal), mas não é um registo documental de um qualquer treino de militares das Forças Armadas.

"Fiquei a perceber que naquele lugar, além de toda a atividade militar que existe ali, havia toda uma outra série de atividades não militares que coincidiam no espaço - de lazer, de ciência - e essa mistura e proximidade fez-me começar a pensar num filme que fosse uma espécie de viagem por estes diferentes universos", contou o realizador à agência Lusa.

Tiago Hespanha explicou que teve total abertura das Forças Armadas para acompanhar rotinas de treino e de trabalho dos militares que passam por aquele campo de treino, mas interessou-lhe uma narrativa ensaística, quase existencialista e filosófica, sobre a condição humana.

O campo de tiro de Alcochete, encaixado entre as bacias dos rios Tejo e Sado, foi criado em 1904 e atualmente tem uma área de 7.539 hectares, com fauna e flora que coabitam com toda a parafernália e equipamento dos treinos militares.

A ideia do documentário, explicou Tiago Hespanha, foi "partir daquele lugar e do que ali acontece para pensar e ver o mundo fora dele. (...) O cinema, a forma como o tenho feito e que mais me interessa, parte da experiência de contacto com a realidade, da experiência do concreto, mas não ficando preso às suas condições e lógicas internas".

Dando corpo a essa intenção de documentário-ensaio, o filme é narrado pelo próprio realizador, incorporando referências e citações literárias diversas, de Carl Sagan a Alberto Caeiro, de Franz Kafka à mitologia grega, de forma a colocar a tónica do documentário "no humano, transcendendo o concreto".

"Foi pensar o mundo a partir dali", resumiu.

A ideia para este documentário começou a ser trabalhada há uma década, quando Tiago Hespanha fazia um mestrado em Barcelona (Espanha), sendo agora concretizado com a estreia mundial em França, depois de várias etapas de procura de financiamento, sessões de apresentação em festivais ainda em fase de projeto, produção e finalização.

No ano passado, "Campo" venceu o principal prémio do programa "First Look" do Festival de Locarno (Suíça), dedicado a filmes em fase de pós-produção, no valor de 65 mil euros.

Depois do festival Cinema du Réel, que decorrerá de 15 a 24 de março, em Paris, Tiago Hespanha apresentará "Campo" no festival internacional de cinema de Hong Kong, estando ainda por confirmar a data da estreia comercial em sala em Portugal.

Tiago Hespanha, realizador e produtor, ligado à Terratreme Filmes, é autor de vários filmes, todos no registo de documentário, como "Revolução Industrial" (2014), correalizado com Frederico Lobo, "No trilho dos naturalistas" (2016), "Visita guiada" (2009) e "O presente que veio de longe" (2008).

 

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