Adeus Dijsselbloem, chegou Centeno. Ministro português tomou posse como presidente do Eurogrupo

| Economia

|

O ceticismo inicial deu lugar à coroação. Depois da votação de dezembro, o português Mário Centeno tomou esta sexta-feira posse como presidente do Eurogrupo, o fórum informal dos ministros das Finanças dos países da moeda única que se tornou protagonista desde a crise. Na embaixada de Portugal em Paris, Centeno recebeu o testemunho de Dijsselbloem, o político holandês que chocou com a sua visão da Europa do Sul.

A história é feita de ironia. O homem que começou por ser um dos patinhos feios do Eurogrupo chegou esta sexta-feira à sua presidência. Para elevar um pouco mais a fasquia, o ministro português recebeu o testemunho de Jeroen Dijsselbloem, ministro holandês conhecido pelas declarações polémicas.

Sobe-se ainda um pouco mais a parada: tudo aconteceu esta sexta-feira na embaixada de Portugal em Paris. Ou seja, à luz do Direito Internacional, em território português, um dos países da Europa do Sul, esse bloco que o agora ex-presidente do Eurogrupo acusou de “gastar todo o dinheiro em copos e mulheres” e depois pedir ajuda.

Portugal tinha exigido a sua demissão. Não aconteceu, Dijsselbloem manteve-se até ao fim. Mas é agora substituído precisamente por um ministro português. Ao fim da manhã, o ministro português recebeu de Jeroen Dijssebloem o sino usado para dar início às reuniões do fórum de ministros das Finanças da Zona Euro.


O agora ex-presidente do Eurogrupo disse estar “mesmo contente” pelo forte apoio que Centeno tem no Eurogrupo. “Vai impulsionar reformas, impulsionar a modernização da zona euro”, afirmou.

Por sua vez, Mário Centeno deixou um agradecimento a Dijssebloem pelo “trabalho duro e pelos compromissos” que foram atingidos “nos últimos cinco anos”.

“Muito foi feito. Saímos da crise, mas o trabalho ainda não acabou, certamente nunca está, mas a janela de oportunidade que temos agora em termos políticos e económicos deve ser usada para completar a reforma das instituições da zona euro", disse Mário Centeno.

"Janela de oportunidade"
Mais tarde, Mário Centeno voltou a comparecer para responder às perguntas dos jornalistas portugueses. O ministro prometeu “todo o empenho no processo de construção de uma Europa mais robusta a crises”.

Questionado sobre o acordo de princípio na Alemanha, Centeno reconheceu tratar-se de uma “boa notícia”, tendo defendido que é fundamental que os países permaneçam comprometidos com a construção europeia.

“Estamos numa janela de oportunidade que tem duas dimensões. Uma dessas dimensões é política e tem a ver com o início de ciclos políticos muito relevantes em vários países na Europa. A outra dimensão é económica pelas boas condições que temos hoje”, afirmou o governante.
Informal mas poderoso
Pela primeira vez desde a criação do cargo, em 2005, o Eurogrupo elege um ministro das Finanças do sul da Europa - de um país saído há poucos anos de um resgate financeiro - para coordenar o fórum de 19 ministros das Finanças da Zona Euro.

O Eurogrupo é um fórum informal, não tendo uma existência à luz das leis europeias. Começa por ser uma mera reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro, ou seja, uma versão reduzida do Conselho dos Assuntos Económicos e Financeiros da União Europeia (ECOFIN) para tratar dos assuntos que apenas a quem usa o Euro dizem respeito.

A crise deu-lhe outro relevo: tornou-o protagonista em momentos como o resgate português ou quando a saída da Grécia da moeda única foi bem mais do que um mero argumento negocial.
Centeno no Eurogrupo
A possibilidade de Mário Centeno liderar este fórum começou por ser uma mera notícia avançada pelo jornal Expresso em abril de 2018, a que foi atribuída pouca credibilidade.

O facto é que parecia impensável que um elemento central de um executivo que tanto ceticismo criou em Bruxelas acedesse a um lugar de relevo na política económica e financeira do bloco europeu.

Ao longo dos meses, a possibilidade foi-se tornando mais certa. No dia 4 de dezembro, quando os ministros foram chamados a votar, não havia já grande dúvida do favoritismo de Mário Centeno. Aliás, o próprio Jeroen Dijsselbloem descaiu-se ainda antes da votação: “Sou presidente do Eurogrupo até 12 de janeiro e a 13 de janeiro Mário Centeno toma posse”.

A votação veio confirmar que a gaffe de Dijsselbloem era mesmo certeira. O socialista português levou a melhor sobre a letã Dana Reizniece-Ozola, o eslovaco Peter Kazimir e, por fim, o luxemburguês Pierre Gramegna.

Mário Centeno irá liderar a sua primeira reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro a 22 de janeiro. Os desafios são mais que muitos: a reforma da moeda única, a criação do Fundo Monetário Europeu, a transparência de funcionamento do próprio Eurogrupo e o futuro da Grécia, nomeadamente o fim do resgate e a renegociação da dívida.

O ministro português é o terceiro a liderar os destinos do Eurogrupo, depois do luxemburguês Jean-Claude Juncker e do holandês Jeroen Dijsselbloem. Poderá também ser o último a liderá-lo nos moldes atuais, se a Comissão Europeia levar avante a intenção de criar um cargo de ministro das Finanças da Zona Euro, que acumularia a vice-presidência do executivo comunitário com a presidência do fórum.
Do ISEG ao Eurogrupo
Ministro das Finanças desde 26 de novembro de 2015, Mário Centeno nasceu a 9 de dezembro de 1966 em Olhão, tendo-se licenciado em Economia no ISEG, em Lisboa, onde é professor catedrático. Casou com uma colega do ISEG e teve três filhos.

O seu currículo revela que Centeno teve diversos cargos relevantes: membro do Comité de Política Económica da Comissão Europeia (2004-2013); presidente do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento das Estatísticas Macroeconómicas, no Conselho Superior de Estatística (2007-2013); professor catedrático do ISEG; membro do Editorial Board do Portuguese Economic Journal (desde 2001); membro do Executive Committee da European Association of Labor Economists (2003-2005).

Tem um longo currículo académico: é licenciado em Economia (1990) e mestre em Matemática Aplicada (1993) pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, e mestre (1998) e doutorado (1995-2000) em Economia pela Harvard University, nos Estados Unidos. Alcançou mesmo 20 valores no exame de entrada na faculdade. Domina também o inglês, francês e italiano e tem boa compreensão do alemão.

Foi premiado internacionalmente pelas suas investigações sobre o mercado de trabalho, a primeira em 2001, quando recebeu o Young Economist Award, da European Economic Association, visando distinguir trabalhos de investigação de economistas com menos de 30 anos ou com o doutoramento concluído há menos de três anos; e a segunda em 2006 quando lhe foi outorgado o Scientif Merit Award, da União Latina.

Mário Centeno foi ainda muito ativo no domínio associativo e desportivo. O ministro das Finanças jogava râguebi na equipa do ISEG quando esta se encontrava na 1ª Divisão.

A informação mais vista

+ Em Foco

Nas eleições primárias, alguns dos mais conceituados senadores democratas foram vencidos por candidatos mais jovens, progressistas e, alguns deles, socialistas.

    Em 1995, dois estudantes desenvolveram um motor de pesquisa. Dois anos depois, Andy Bechtolsheim passou um cheque no valor de 100 mil dólares. Nesse dia, fez-se história: a Google nasceu.

      A Austrália enfrenta a maior seca de que há memória, afetando agricultores e criação de gado.