Economia
Bernie Sanders quer repensar privatização da exploração do Espaço
O senador norte-americano, independente mas próximo do Partido Democrata, defendeu esta semana um debate nacional e político sobre os projetos norte-americanos para a exploração do Espaço, cujas conquistas mais recentes têm estado em mãos privadas.
Num longo artigo de opinião, Bernie Sanders indignou-se com o aproveitamento dos dinheiros públicos investidos na NASA que, afirma, acabam por favorecer os multimilionários.A indignação é motivada pelo debate, no Congresso, de legislação para isentar a empresa espacial Blue Origin, de Jeff Bezos, do pagamento de 10 mil milhões de dólares ao abrigo de um contrato para desenvolver um módulo lunar. Recentemente, a Blue Origin perdeu um contrato competitivo para a concorrente Space X de Musk.
Após 53 anos da aventura de Neil Armstrong como primeiro homem na Lua, “estou preocupado que a NASA se tenha tornado pouco mais do que uma máquina ATM para alimentar uma corrida espacial, não entre os Estados Unidos da América e outros países, mas entre dois dos homens mais ricos na América – Elon Musk e Jeff Bezos, que junto valem mais de 450 mil milhões de dólares”, escreveu Sanders.
“Bezos vale cerca de 180 mil milhões de dólares. Num determinado ano, ele não pagou impostos federais sobre os rendimentos. É dono da Amazon, que num determinado ano, também não pagou nada em impostos de rendimentos federais, após ter lucrado milhares de milhões" fez notar o senador.
"Bezos tem dinheiro suficiente para comprar um mega-iate de 500 milhões de dólares, uma mansão de 23 milhões de dólares em Washington DC, uma propriedade de 175 milhões de dólares em Bervely Hills e uma propriedade de 5.6 hectares no Máui”, acrescentou.
Para Bernie Sanders o detentor de tal fortuna não deveria ter benefícios fiscais, “numa altura em que mais de metade das pessoas neste país sobrevive de salário em salário, quando mais de 70 milhões não têm seguros ou têm seguros básicos e quando cerca de 600 mil americanos não têm um teto”.
“Devíamos estar a proporcionar uma isenção de milhares de milhões de dólares para Bezos alimentar o seu hobbie espacial? Não me parece”, opinou Sanders.
Pagar sem retorno
O Senador foi contudo mais fundo. O que está em causa é sobretudo a exploração das riquezas espaciais, escondidas por exemplo em meteoros, quem poderá vir a realiza-la e se a favor de si mesmo ou da humanidade.“Quem irá afinal beneficiar com a exploração Espacial”, perguntou Sanders. “Serão a mão cheia de multimilionários ou serão as pessoas do nosso país e toda a humanidade?”.
“A realidade é que a economia do Espaço – que consiste atualmente no uso por empresas privadas das instalações da NASA e tecnologia essencialmente gratuita para colocarem satélites em órbita – já é muito lucrativa e tem o potencial de se tornar exponencialmente mais rentável no futuro”, referiu o senador.
“O Banco da América prevê que nos próximos oito anos a economia do espaço irá triplicar em volume para 1.4 biliões de dólares – são milhares de milhares de milhões” explicou ainda.
De acordo com legislação aprovada no Senado quase sem debate em 2015, lembrou Sanders, as empresas privadas poderão deter todos os recursos que descobrirem no Espaço. “Ou seja, os contribuintes deste país que tornaram possível a estas empresas privadas irem para o Espaço terão um retorno de 0 por cento dos seus investimentos”, criticou.
E os retornos poderão ser substanciais. O senador lembrou que tanto a Goldman Sach como o famoso astrofísico Neil de Grasse Tyson previram que o primeiro multibilionário será quem descobrir como aproveitar e explorar os recursos naturais dos asteroides.
Fortunas no Espaço
Bernie Sanders fez as contas. A “Nasa identificou mais de 12 mil asteroides num raio de 45 quilómetros da Terra que contêm ferro, níquel, metais preciosos e outros minerais. Um único asteroide de um quilómetro pode conter platina no valor superior a cinco biliões de dólares. Os metais terrestres raros de outro asteroide poderão valer mais de 20 biliões de dólares”, referiu.
“De acordo com o investidor de Sillicon Valley Peter Diamandis, há cheques de 20 biliões de dólares lá em cima à espera que os vão buscar”, citou ainda Sanders.
“Chegou por isso a altura para um debate sério no Congresso e em todo o país sobre como desenvolver uma política espacial racional que não seja apenas socializar todos os riscos e privatizar todos os lucros”, defendeu o senador.