As Nações Unidas alertaram para a possibilidade de uma crise global alimentar que poderá durar anos se não houver uma resposta imediata. A guerra na Ucrânia e a proibição de exportação de cereais decretada pela Índia estão a agravar uma situação já antes complicada devido à pandemia de Covid-19 e às alterações climáticas.
Crise alimentar mundial. Guterres apela a Rússia para libertar reservas de cereais da Ucrânia
A ONU acolheu uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros para debater a crise, que irá afetar sobretudo e em primeiro lugar os países mais pobres.
Num debate aberto sobre conflitos e segurança alimentar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, convocado pelos Estados Unidos, António Guterres indicou que cerca de 67 por cento das pessoas subnutridas do mundo vivem em áreas afetadas por conflitos e que "nenhum país está imune".
"No ano passado, a maioria das 140 milhões de pessoas que sofrem de fome aguda em todo o mundo viviam em apenas 10 países: Afeganistão, República Democrática do Congo, Etiópia, Haiti, Nigéria, Paquistão, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iémen. Oito desses países estão na agenda deste Conselho. Que não haja dúvidas: quando este Conselho debate o conflito, debate a fome", disse Guterres.
O secretário-geral disse ainda que quando o Conselho de Segurança não consegue chegar a um consenso, as pessoas famintas pagam um preço alto. E lançou um apelo.
“Vamos ser claros. Não há uma solução efetiva para a crise alimentar sem
a reintegração da produção ucraniana de alimentos”, afirmou António
Guterres.
“A Rússia tem de permitir a exportação a salvo e segura dos cereais armazenados nos portos ucranianos” acrescentou.
Antony Blinken, secretário de Estado dos Estados Unidos, que liderou o encontro, e o diretor do Programa Alimentar Mundial, David Beasley, juntaram-se ao apelo. “O mundo está a arder. Temos soluções, necessitamos agir e temos de agir agora”, implorou Beasley.O Banco Mundial anunciou entretanto um novo pacote de auxílio avaliado em 12 mil milhões de dólares para mitigar “os efeitos devastadores” da crise alimentar.
Antony Blinken, secretário de Estado dos Estados Unidos, que liderou o encontro, e o diretor do Programa Alimentar Mundial, David Beasley, juntaram-se ao apelo. “O mundo está a arder. Temos soluções, necessitamos agir e temos de agir agora”, implorou Beasley.O Banco Mundial anunciou entretanto um novo pacote de auxílio avaliado em 12 mil milhões de dólares para mitigar “os efeitos devastadores” da crise alimentar.
O secretário-geral da ONU sublinhou que também os alimentos e
fertilizantes russos “têm de ter acesso pleno e irrestrito aos mercados
mundiais”.
Rússia preparada
A Ucrânia acusou contudo há duas semanas a Rússia de estar a roubar e a levar para a Rússia os cereais e
alimentos a que tem tido acesso. De acordo com o Ministério da Política
Agrária e Alimentar da Ucrânia, os agricultores de territórios ocupados
pelas forças russas reportaram que os russos “estão a roubar os cereais
em quantidades massivas”, de acordo com um comunicado publicado no
início do mês. Estas regiões poderão começar a conhecer a fome muito em breve.
E o Moscow Times revelou esta quinta-feira que a Rússia se preparou para a possibilidade de uma crise alimentar meses antes do seu
Presidente, Vladimir Putin, ter enviado as suas tropas invadir a
Ucrânia.
“Vladimir Vladimirovich percebeu que este problemas poderiam
afetar a Rússia”, referiu num fórum em Moscovo o antigo ministro da
economia e conselheiro de Putin, Maxim Oreshkin. “A Rússia está a
preparar-se ativamente para uma fome mundial; começou no final do ano
passado”, revelou.
Oreshkin estimou que a “fome global” poderá ter
início no final de 2022, acrescentando que “políticas mal estudadas” por
parte dos Estados Unidos dos países da União Europeia estavam a
provocar a crise alimentar.
O ex-ministro russo acrescentou que as
tentativas norte-americanas de conseguir retirar os cereais ucranianos
da ex-república soviética iriam levar a uma “catástrofe humanitária” na
Ucrânia e a problemas alimentares “enormes” para o mundo.
Mundo em alerta
A guerra “ameaça lançar dezenas de milhões de
pessoas no precipício da insegurança alimentar” alertou o
secretário-geral da ONU, António Guterres. desencadeando má nutrição,
fome em larga escala e “uma crise que poderá durar anos”. Antes da invasão de 24 de fevereiro a Ucrânia exportava mensalmente
4,5 milhões de toneladas de produtos agrícolas através dos seus portos,
correspondentes mundialmente a 12 por cento de trigo, 15 por cento do
milho e metade do óleo de girassol.
Com a
guerra russa a encerrar os portos de Odessa e de Chornomorsk entre
outros e o bloqueio naval russo, os abastecimentos só podem ser
transportados por via terrestre congestionadas e menos eficientes.
A guerra na Ucrânia e as sanções impostas a Moscovo estão igualmente a levar os preços dos cereais e de energia para níveis recorde e a causar falta de fertilizantes e de gás de que a Rússia é a principal produtora mundial.
A guerra na Ucrânia e a recente decisão da Índia em proibir as exportações dos seus próprios produtos alimentares são contudo apenas os choques mais recentes de uma crise que dava todos os sinais de estar a agravar-se.
Há apenas dois dias em Nairobi, capital do Quénia, ocorreu uma manifestação a exigir a descida dos preços dos alimentos.
Milhares de milhões de pessoas em risco
Em apenas dois anos, o número de pessoas afetadas gravemente pela insegurança alimentar duplicou, de 135 milhões antes da pandemia para 276 milhões atualmente, afirma a ONU. Mais de meio milhão de pessoas estão a viver em condições de penúria alimentar, uma subida superior a 500 por cento desde 2016, estimam as Nações Unidas.
O Banco Mundial anunciou entretanto um aumento de 12 mil milhões de dólares ao seu anterior pacote de 18,7 mil milhões em financiamentos de projetos “ligados a problemas de alimentos e nutição” para a África e o Médio Oriente, Europa de Leste e Ásia Central e do Sul.
Os novos fundos irão ser aplicados no fortalecimento da produção de comida e de fertilizantes, facilitar o comércio e apoiar famílias e produtores vulneráveis, afirmou o Banco Mundial.
Washington aplaudiu a decisão, que se inclui num plano global de ação de financiadores multilaterais e bancos regionais de desenvolvimento em resposta à crise alimentar.
O Departamento de Tesouro descreveu a guerra lançada pela Rússia como “o choque mais recente a exacerbar um forte aumento da insegurança alimentar tanto a nível crónico como grave nos últimos anos”, ao mesmo tempo de aplaudia a intervenção rápida das instituições em resposta à questão.
“Os países deveriam fazer um esforço concertado para aumentar a produção de energia e de fertilizantes, ajudar os agricultores a aumentar as plantações e as colheitas, e remover políticas que dificultem as exportações e importações, ou que falam divergir comida para o biocombustível, ou encorajem o armazenamento desnecessário”, recomendou David Malpass, presidente do Branco Mundial.
Com Lusa